   HISTRIAS DE
   TIA NASTCIA
    Monteiro Lobato
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       LIVROS INFANTIS DE
     MONTEIRO LOBATO
     
        A CHAVE DO TAMANHO 
        A REFORMA DA NATUREZA            
         ARITMTICA DA EMLI A
        CAADAS DE PEDRINHO        
        DOM QUIXOTE DAS CRIANAS 
        EMLIA NO PAS DA GRAMTICA
        FBULAS GEOGRAFIA DE DONA BENTA
        HANS STADEN
        HISTRIA DAS INVENES
        HISTRIAS DE TIA NASTCIA
        HISTRIAS DIVERSAS
        HISTRIA DO MUNDO PARA AS CRIANAS 
        MEMRIAS DA EMLIA
        O MINOTAURO 
        O PICAPAU AMARELO 
        O POO DO VISCONDE
        O SACI 
        PETERPAN
        REINAES DE NARIZINHO
        SERES DE DONA BENTA
        TRABALHOS DE HRCULES
        VIAGEM AO CU
        
        
        
        
        
        
       Monteiro Lobato
       Histrias de Tia Nastcia
       
        
        editora brasiliense
        
         Histrias de Tia Nastcia, by Monteiro Lobato
         ISBN 85-11-19012-0
          32 edio, 1995
          9 reimpresso, 2002
          Lay-out de capa: Jacob Levitinas
          Ilustraes de capa e miolo: Manoel Victor Filho
         
          Copyright (c) by herdeiros de Monteiro Lobato
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         (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
         
         Lobato, Monteiro, 1882 - 1948.
         Histrias de Tia Nastcia / Monteiro Lobato :
         [ ilustraes de capa e miolo Manoel Victor Filho ]. 
         32". ed. - So Paulo : Brasiliense, 2002. - (Stio do Picapau Amarelo).

         9. reimpresso da 32" ed. de 1995 
         ISBN 85-11-19012-0
         1. Literatura infanto-juvenil I. Vitor Filho,
          Manoel. II. Ttulo. III. Srie
         02-6630          CDD-028.5
         
         ndices para catlogo sistemtico:
         1. Literatura infantil   028.5
         2. Literatura infanto-juvenil    028.5
         
         editora brasiliense
          Rua Airi, 22 - Tatuap - CEP 03310-010 - So Paulo - SP
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      NDICE
        
         HISTRIA DE TIA NASTCIA............     7
         O BICHO MANJALU....................        7
         O SARGENTO VERDE...................      12
         A PRINCESA LADRONA .................     15
         O PSSARO PRETO .....................       19
         A RAPOSINHA..........................              21
         O HOMEM PEQUENO ...................      23
         AMOURA-TORTA ......................              25
         A MADRASTA  ..........................              27
         MANUEL DA BENGALA .................     28
         JOO E MARIA.........................              30
         O BOM DIABO..........................              33
         A FONTE DAS TRS COMADRES....... 34
         A RAINHA QUE SAIU DO MAR...........  37
         A FORMIGA E A NEVE ..................      38
         JOO ESPERTO.........................              39
         O CAULA..............................              42
         A CUMBUCA DE OURO   .................   44
         A MULHER DENGOSA  ..................     46
         O CAGADO NA FESTA DO CU  ........ 46
         O RABO DO MACACO...................       47
         O MACACO E O COELHO................    48
         O MACACO E O ALUA...................      49
         O MACACO, A ONA E O VEADO  ..... 51
         O VEADO E O SAPO.....................       54
         A ONA E O COELHO ...................     55
         O PULO DO GATO ......................        57
         O DOUTOR BOTELHO  ..................     57
         A RAPOSA E O HOMEM .................    59
         OPINTOSURA   ..........................               60
         O JABUTI E O HOMEM ..................    62
         O JABUTI E A CAIPORA .................    63
         O JABUTI E A ONA.....................      64
         O JABUTI E A FRUTA   ...................    65
         O JABUTI E O LAGARTO  ................   66
         O JABUTI E O JACAR...................    67
         O JABUTI E OS SAPINHOS...............   67
         A RAPOSAFAMINTA....................         68
         O CAMPONS INGNUO  ................   69
         A HISTRIA DOS MACACOS.............  70
         O RATO ORGULHOSO  ..................     72
         PEIXES NA FLORESTA ..................     73
         O ALCATRAZ E O EIDER ................    74
         HISTRIA DOS DOIS LADRES  ........75
         
         
         
         
         
        
     HISTRIAS DE TIA NASTCIA
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     Monteiro Lobato
        
     I
      Histrias de Tia Nastcia
       
        Pedrinho, na varanda, lia um jornal. De repente parou, e disse a Emlia, que andava rondando por ali:
        -  V perguntar a vov o que quer dizer folclore.
         -  V? Dobre a lngua. Eu s fao coisas quando me pedem por favor.
        Pedrinho, que estava com preguia de levantar-se, cedeu  exigncia da ex-boneca.
        -  Emilinha do corao - disse ele - faa-me o maravilhoso favor de ir perguntar  vov que coisa significa a palavra folclore, sim, tetia?
        Emlia foi e voltou com a resposta.
        -  Dona Benta disse que folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria, cincia. Folclore so as coisas que o povo sabe por boca, de um contar 
para o outro, de pais a filhos - os contos, as histrias, as anedotas, as supersties, as bobagens, a sabedoria popular, etc. e tal. Por que pergunta isso, Pedrinho?
        O menino calou-se. Estava pensativo, com os olhos l longe. Depois disse:
        -  Uma idia que eu tive. Tia Nastcia  o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer tia 
Nastcia para tirar o leite do folclore que h nela.
        Emlia arregalou os olhos.
        -  No est m a idia, no, Pedrinho! s vezes a gente tem uma coisa muito interessante em casa e nem percebe.
        -  As negras velhas - disse Pedrinho - so sempre muito sabidas. Mame conta de uma que era um verdadeiro dicionrio  de  histrias   folclricas,   uma 
de nome Esmria, que foi escrava de meu av. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histrias e mais histrias. Quem sabe se tia Nastcia no  uma 
segunda tia Esmria?
        Foi assim que nasceram as Histrias de Tia Nastcia.
        
        
      II
      O bicho Manjalu
      
         Era uma vez um velho que tinha trs filhas muito bonitas, mas um velho muito pobre, que vivia de fazer gamelas. Uma vez passou pela sua casa um lindo moo 
a cavalo; parou e declarou que queria comprar uma das moas. O velho se ofendeu; disse que por ser pobre no era nenhum malvado que andasse vendendo as filhas; mas 
diante das ameaas do moo teve que aceitar o negcio.
        L se foi a sua primeira filha na garupa do cavaleiro, e o velho ficou olhando para o ouro recebido.
         No dia seguinte apareceu outro moo, ainda mais lindo, montado num cavalo ainda mais bonito e props-se a comprar a filha do meio. O velho, bastante aborrecido, 
contou o que se tinha passado com a primeira, e no quis aceitar o negcio. O moo ameaou mat-lo, e tambm l se foi com a segunda moa na garupa, deixando com 
o velho dois sacos de dinheiro.
        
        
        No dia imediato apareceu terceiro moo e depois da mesma discusso l se foi com a derradeira moa na garupa, deixando em troca trs sacos de dinheiro.
        O velho ficou muito rico, mas sem as filhas, e comeou a criar com grandes mimos um filhinho que havia nascido fora de tempo. Quando j estava na escola
esse menino teve uma briga com um companheiro, o qual lhe disse: "Voc est prosa por ter pai rico, mas saiba que ele j foi um pobre diabo que vivia de fazer gamelas. 
Est rico porque vendeu as filhas."
        O menino voltou pensativo para casa, mas nada disse. S quando ficou moo  que pediu ao pai que lhe contasse a histria das trs irms vendidas. O pai contou 
tudo e ele resolveu sair pelo mundo em procura das irms.
        No meio do caminho encontrou trs marmanjos brigando por causa duma bota, duma carapua e duma chave. Indagando do valor daquilo, soube que eram uma bota, 
uma carapua e uma chave mgicas. Quando algum dizia  bota: "Bota, bote-me em tal parte!" a bota botava. E se diziam  carapua: "Carapua, encarapuce-me!" a carapua 
encarapuava, isto , escondia a pessoa. E se diziam  chave: "Chave, abre!" a chave abria qualquer porta.      
        O moo ofereceu pelos trs objetos o dinheiro que trazia e l se foi com eles.
        Logo adiante parou e disse: "Bota, bote-me em casa de minha primeira irm." Mal acabou de pronunciar tais palavras, j se achou na porta de um palcio maravilhoso. 
Falou com o porteiro. Pediu para entrar, dizendo que a dona do palcio era sua irm. A irm soube da sua chegada, acreditou em suas palavras e o recebeu muito bem.
        - Mas   como   conseguiu   chegar   at aqui, meu irmo?
        -  Por meio da bota mgica - respondeu ele.
        E contou toda a histria da sua partida e do encontro dos trs objetos mgicos.
        Tudo correu bem, mas assim que comeou a entardecer a irm ps-se a chorar.
        -  Por que chora, minha irm?
        -  Ah - respondeu ela - choro porque sou casada com o rei dos Peixes, um prncipe muito bravo que no quer que eu receba ningum neste palcio. Ele no tarda 
a chegar, e mata voc, se enxergar voc aqui...
        O moo deu uma risadinha, dizendo:
        -No tenha medo de nada. Com a carapua mgica saberei esconder-me.
        O rei chegou e logo levantou o nariz para o ar, farejando: - "Sinto cheiro de gente de fora!" mas a rainha mostrou que no havia por ali ningum e ele sossegou. 
Tomou um banho e se desencantou num lindo moo.
        Durante o jantar a rainha fez esta pergunta:                           
        -  Se aparecesse por c um irmo meu, que faria Vossa Majestade?
        -  Recebia-o muito bem - disse o rei - porque o irmo da rainha, cunhado do rei . E se ele est por aqui, que aparea.
        O irmo encarapuado apresentou-se, sendo muito bem recebido. Contou toda a sua histria, mas no aceitou o convite de ficar morando ali por ter de continuar 
pelo mundo em procura das outras irms. O rei olhou com inveja para as botas mgicas, dizendo: "Se eu as pilhasse, iria ver a rainha de Castela."
        Na hora da partida o rei deu-lhe uma escama. "Quando estiver em apuros, pegue nesta escama e diga: Valha-me, rei dos Peixes!"
        O moo agradeceu o presente e l se foi depois de dizer  bota: "Bota, bote-me na casa de minha segunda irm", e imediatamente se achou defronte de outro 
palcio, onde foi recebido pela segunda irm, que era a esposa do rei dos Carneiros. "Meu marido logo chega por a, a dar marradas a torto e a direito, e voc no 
escapa."
        - Com a minha carapua escapo - respondeu o rapaz, rindo-se. E contou a virtude da carapua encantada. E de fato foi assim, correndo tudo direitinho como 
l no palcio do rei dos Peixes. Na hora da partida o rei dos Carneiros disse: "Tome este fio de l. Quando estiver em apuros, basta que pegue nele e diga: Valha-me, 
rei dos Carneiros." Em seguida olhou com inveja para as botas mgicas. "Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela."
        Logo que o moo se viu na estrada, parou e disse  bota. "Bota, bote-me em casa da minha terceira irm", e a bota botou-o no porto dum terceiro palcio 
ainda mais belo que os outros. Era ali o  reino do rei dos Pombos, onde tudo aconteceu como no reino do rei dos Peixes e no reino do rei dos Carneiros. Foi muito 
bem recebido e festejado, at que na hora da partida o rei dos Pombos suspirou olhando para as botas, e disse: "Se eu pilhasse essas botas, iria ver a rainha de 
Castela." Em seguida deu ao moo uma pena, dizendo:
        "Quando estiver em apuros, pegue nesta pena e diga: Valha-me, rei dos Pombos."
        
        
        
        Logo que o moo se viu na estrada, ps-se a pensar na tal rainha de Castela que os trs prncipes queriam visitar, e disse  bota mgica: "Bota, bote-me 
no reino da rainha de Castela!" E num instante a bota o botou l.
        Soube que era uma princesa solteira, to linda que ningum passava pela frente do seu palcio sem erguer os olhos, na esperana de v-la  janela - mas a 
princesa tinha jurado s se casar com quem passasse pelo palcio sem erguer os olhos.
        O moo ento passou pela frente do palcio sem erguer os olhos e a princesa imediatamente casou com ele. Depois do casamento a princesa quis saber para que 
serviam aqueles objetos que ele sempre trazia consigo - e o que mais a interessou foi a chave de abrir todas as portas.
        A razo disso era haver no palcio uma sala sempre fechada, onde o rei no permitia que ningum entrasse. Nela morava o Manjalu - um bicho feroz, que por 
mais que o matassem revivia sempre. A princesa andava ardendo de curiosidade de ver o bicho Manjalu, e certa vez, em que o rei e o marido foram  caa, pegou a 
chave e abriu a porta da sala do mistrio. Mas o bicho feroz pulou e agarrou-a, dizendo: "Era voc mesma que eu queria!" E l se foi para a floresta com a pobre 
moa ao ombro.
        Quando o rei e o marido da princesa voltaram da caa e souberam do acontecido, ficaram desesperados. Mas o dono das botas mgicas prometeu consertar tudo. 
Agarrou-as e disse: "Bota, bote-me onde est minha esposa". E a bota botou-o.
        O moo encontrou a princesa sozinha, pois que o Manjalu andava pelo mato caando.
        -  Minha querida esposa - disse ele - precisamos dar cabo desse monstro feroz, mas para isso  necessrio que eu saiba onde  que ele tem a vida. A vida 
do Manjalu est to bem oculta que todas as tentativas para mat-lo tm falhado. Trate de saber onde ele tem a vida.
        A princesa prometeu que assim faria, e quando o Manjalu voltou deu jeito da conversa recair naquele ponto.
        Manjalu desconfiou.
        -  Ahn! Quer saber onde eu tenho a vida para me matar, no ? No conto, no.
        Mas a princesa, teimosa, tanto insistiu durante dias e dias que o bicho Manjalu resolveu contar tudo. Antes disso ele amolou, bem amolado, um alfanje, dizendo: 
"Vou contar onde est minha vida mas se perceber que algum quer dar cabo de mim, corto sua cabea com este alfanje, est ouvindo?"
        A princesa aceitou a proposta. Ele que contasse tudo que ela ficaria com o pescoo s ordens do alfanje, no caso de algum atentar contra vida do monstro. 
E o bicho Manjalu ento contou: "Minha vida est no mar. L no fundo h um caixo; nesse caixo h uma pedra; dentro da pedra h uma pomba; dentro da pomba h um 
ovo; dentro do ovo h uma velinha, que  a minha vida. Quando essa vela apagar-se, eu morrerei".
        No dia seguinte, quando o bicho Manjalu saiu novamente a caar, o marido da princesa, que estivera escondido pela carapua, apresentou-se. "E ento?" - 
perguntou. A princesa contou-lhe direitinho tudo que ouvira ao monstro.
        O moo dirigiu-se  praia do mar e pegou na escama, dizendo: "Valha-me, rei dos Peixes!" E imediatamente o mar se coalhou de peixes que indagavam do que 
ele queria.
        -  Quero saber em que ponto do fundo do mar h um caixo assim e assim.
        -  Eu  sei - respondeu  um enorme baiacu.
        -  Ainda h pouquinho esbarrei nele. Esse caixo est em tal e tal parte.
        -  Pois quero que me tragam aqui esse caixo.
        Os peixes saram na volada; logo depois apareceram empurrando um caixo para a praia. O prncipe abriu-o e encontrou a pedra. Como quebr-la? Lembrou--se 
do fio de l. Pegou no fio de l e disse: "Valha-me, rei dos Carneiros!" Imediatamente apareceram inmeros carneiros, que deram tantas marradas na pedra que a partiram.
        Enquanto isso, l longe, o Manjalu, com a cabea no colo da princesa e o alfanje na mo, ia sentindo coisas esquisitas.                          
        -  Minha princesa - disse ele - estou me sentindo doente. Algum est mexendo na minha vida.
        E sua mo apertou o cabo do alfanje
        A princesa engambelou-o como pde, para ganhar tempo. Ela sabia que seu marido estava em procura da vida do monstro.
        Assim que os carneiros quebraram a pedra, uma pombinha voou de dentro e l se foi pelos ares. O moo lembrou-se da pena, pegou-a e disse: "Valha-me, rei 
dos Pombos!" Imediatamente o ar se encheu de pombos, que o moo mandou voarem em perseguio da pombinha. Os pombos foram atrs dela e a pegaram. O moo tomou-a, 
espremeu-a e fez sair um ovo.
        L longe o Manjalu se sentia cada vez pior. Comeava a desfalecer; e como no tivesse dvidas sobre o que era aquilo, foi levantando o alfanje para degolar 
a princesa. Mas no teve tempo. O moo havia quebrado o ovo e assoprado a velinha. A mo do Manjalu moleou - e seus olhos fecharam-se para sempre.
        Estava o reino de Castela livre daquele horrendo monstro. O moo levou a princesa para o palcio, onde o rei a recebeu com lgrimas nos olhos. E para comemorar 
o grande acontecimento decretou uma semana inteira de festas. E acabou-se a histria.
        
         Emlia torceu o nariz.
         -  Essas histrias folclricas so bastante bobas - disse ela. - Por isso  que no sou "democrtica !"   Acho o povo muito idiota...
         -  Nossa Senhora! - exclamou dona Benta. - Vejam s como anda importante a nossa Emilinha. Fala que nem um doutor.
         -  A culpa  sua - disse Emlia. - A culpa  de quem nos anda ensinando tantas cincias e artes. Eu, por exemplo, me sinto adiantada demais para a minha 
idade. Sou uma isca por fora, mas l dentro j estou filsofa. Meu gosto era encontrar  um  Scrates,  para  uma   conversa...
         -  Eu tambm acho muito ingnua essa histria de rei e princesa e botas encantadas - disse Narizinho. - Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente. Estou 
de acordo com Emlia.
         -  Pois eu gostei da histria - disse Pedrinho - porque me d idia da mentalidade do nosso povo. A gente deve conhecer essas histrias   como  um  estudo 
da  mentalidade  do povo.
         Dona Benta voltou-se para tia Nastcia.
         -  V, Nastcia, como est ficando este meu povinho? Falam como se fossem gente grande, das  sabidas.   Democracia  para  c,   folclrico para l, mentalidade... 
Neste andar meu stio acaba virando Universidade do Picapau Amarelo.
         -  Emlia j disse que a culpa  sua, sinh. A senhora vive ensinando tantas coisas dos livros que eles acabam sabides demais. Eu at fico tonta de lidar 
com essa crianada. s vezes nem entendo o que me dizem. Ontem o Visconde veio para cima de mim com uma histria de "rocha sedimentaria", ou coisa assim, que at 
eu tive de tocar ele l da cozinha com o cabo da vassoura. J no percebo nem uma isca do que o Visconde diz...
         Mas as histrias continuaram. Naquele mesmo sero tia Nastcia teve de contar mais uma. E contou a histria de
        
      
      
      
      
      
      III
      
      O Sargento Verde
      
        Era uma vez um homem muito rico, que tinha uma filha, linda, linda. Um dia apareceu um moo, tambm muito lindo, que quis casar com ela. Foi combinado o 
casamento, mas Nossa Senhora, que era madrinha de batismo da moa, apareceu-lhe num sonho e disse:
        -  Minha filha, toma cuidado, porque vais casar com o "co". Depois do casamento teu marido h de querer levar-te para a casa dele, e o que tens de fazer 
 o seguinte: irs montada no cavalo mais magro que houver; quando chegares a um ponto do caminho, onde h uma encruzilhada,   teu  marido  querer  tomar pela esquerda; 
tu tomaras pela direita e nesse momento lhe mostrars um rosrio. Ele ento estoura e vai para o inferno.
        Afinal chegou o dia do casamento e houve grandes festas, mas desde a noite do sonho a moa andava numa grande tristeza. As palavras de Nossa Senhora no 
lhe saam da imaginao.
        Na hora da partida trouxeram-lhe um lindo cavalo. Ela recordou-se do sonho e no quis montar nele; pediu outro - o mais magro e feio que houvesse. O pai 
estranhou aquela esquisitice, mas a moa tanto insistiu que ele teve de ceder - e l se foi ela no cavalo mais magro e feio que havia.
        Quando chegaram  encruzilhada, o "co" quis que a moa tomasse pelo lado esquerdo, dizendo ser esse o caminho que levava  sua casa.
        -  V o senhor na frente - respondeu a moa - eu sigo atrs. - E assim que ele enveredou pela esquerda, ela tomou pela direita e sacudiu no ar o rosrio.
        Mal fez isso, ouviu-se um estouro e o ar se encheu de fedor de enxofre.  que o "'co" havia rebentado e ido para o inferno.
        A moa continuou a galope por aquele caminho da direita, at que bem l adiante teve a idia de mudar de figura. Apeou, cortou os cabelos e vestiu-se de 
homem - uma roupa verde. E, verdinha assim, chegou a um reino onde se ofereceu para entrar no exrcito do rei como sargento.
        O rei gostou muito daquele sargento, a ponto de convid-lo a passear com ele pelos jardins do palcio.  tantos passeios houve que a rainha ficou apaixonada 
pelo sargento e lhe declarou o seu amor. Mas o sargento respondeu: "Senhora, eu jamais trairei meu rei."
        A rainha, furiosa da vida, levantou um falso contra ele, dizendo ao marido o seguinte:
        -  Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde anda se gabando de que  capaz de subir a cavalo as escadarias do palcio, jogando para o ar trs laranjas 
e aparando-as no mesmo copo.
        Admirado daquilo, o rei mandou chamar o Sargento Verde e contou-lhe o caso. O Sargento Verde respondeu:
        -  Saiba Vossa Majestade que eu no disse isso; mas como a rainha minha senhora afirma que eu disse, estou pronto para subir a cavalo as escadarias e jogar 
as trs laranjas.
        Disse aquilo por dizer e, muito triste da vida, foi conversar com o seu cavalo magro, ao qual contou tudo. O cavalo aconselhou-a a que no se amofinasse 
e que no dia marcado tudo fizesse como a rainha queria.
        No dia marcado o Sargento Verde se apresentou para a grande prova, e de fato subiu e desceu vrias vezes as escadarias, montado em seu cavalo magro; e lanou 
para o ar as trs laranjas, que aparou di-reitinho no copo, sem errar uma s.
        Teve os maiores aplausos de todos, menos da rainha, que mordeu os lbios de dio.
        Dias depois, num dos seus passeios pelos jardins do palcio, a rainha achou jeito de novamente lhe declarar amor - e pela segunda vez o sargento respondeu 
que jamais trairia o seu bom rei. A rainha, ento, mais danada ainda, inventou que o Sargento Verde andava dizendo que era capaz de plantar uma bananeira  hora 
do almoo e ter bananas maduras  hora do jantar.
        O rei mandou chamar o Sargento Verde e indagou dele se era verdade aquilo. O sargento respondeu que nada havia dito, mas como no queria desmentir a rainha, 
estava pronto para plantar a bananeira.
        Disse isso e foi, muito triste, conversar com o cavalo magro, o qual lhe falou que plantasse a bananeira e deixasse o resto por sua conta.
        No outro dia, l pela hora do almoo, o Sargento Verde foi e plantou uma muda de bananeira no ptio do palcio, e a planta comeou logo a crescer e a deitar 
cacho, de modo que quando o jantar foi posto na mesa j havia bananas maduras.
        Todos abriram a boca de admirao, mas a rainha mordeu os lbios at verter sangue. Apesar disso, tentou mais uma vez o Sargento Verde, declarando-se apaixonada 
por ele, e o sargento pela terceira vez respondeu que jamais enganaria o seu bom rei. A malvada rainha ento foi dizer ao marido que o Sargento Verde andava se gabando 
de ser capaz de passear a cavalo sobre ovos, sem quebrar um s.                                             -    -
        O rei mandou cham-lo e perguntou se era verdade. O Sargento Verde respondeu que no era, mas como no queria desmentir a rainha, estava pronto para andar 
a cavalo em cima dos ovos. E andou. Passeou montado no cavalo magro por cima de dzias de ovos sem quebrar um s.
        A rainha inventou contra ele uma quarta perversidade, e foi que ele andava dizendo ser capaz de ir ao fundo do oceano em busca da irm do rei, que fora aprisionada 
por um monstro.
        O rei chamou o Sargento Verde e indagou se era verdade. Ele disse que no, mas que estava pronto para ir ao fundo do mar em busca da princesa encarcerada. 
Disse isso e foi conversar com o cavalo magro, ao qual contou tudo.
        - No se amofine - murmurou o cavalo - arranje uma garrafa de azeite, um saquinho de sal e um papel de alfinetes; depois monte em mim e v para a praia; 
l puxe a espada e corte o mar em cruz: as guas se abriro; entre pela abertura e v at onde estiver a moa; agarre-a e ponha-a na garupa e toque para trs. Mas 
muito cuidado com o monstro que guarda a princesa; ele vai persegui-la, e o meio de evitar isso  derramar o saquinho de sal e depois soltar os alfinetes. Durante 
a corrida a moa pronunciar trs palavras. Tome muito sentido nessas palavras.
        O Sargento Verde prestou a maior ateno a tudo; arranjou o azeite, o sal, os alfinetes e partiu para a praia do mar. L puxou a espada e cortou as guas 
em cruz. Imediatamente as guas se abriram e ele entrou, e foi at onde estava a princesa encarcerada. Agarrou-a, botou-a  garupa e voltou correndo para a praia. 
Assim que saiu do mar, a moa disse: "J!" Ele tomou nota da palavra e viu que o monstro vinha correndo atrs deles.
        Lembrando-se da recomendao do cavalo, derramou o saquinho de sal. Imediatamente formou-se uma cerrao que atrapalhou o monstro a ponto de faz-lo parar, 
sem saber para onde dirigir-se. Enquanto isso, o moo continuava no galope, com a moa  garupa. Logo adiante ela murmurou "Bela!" O Sargento Verde tomou nota da 
palavra e viu que o monstro havia rompido o nevoeiro e vinha vindo na disparada. Ento soltou no ar os alfinetes. Imediatamente se formou uma cerradssima floresta 
de espinheiros, que o monstro no pde atravessar.
        Logo depois a princesa, avistando o palcio, murmurou "Tudo!" - e o Sargento Verde tomou nota. Chegaram, houve grandes festas e a rainha ficou ainda mais 
apaixonada pelo Sargento Verde.
        Mas a princesa trazida do fundo do mar no falava. Alm das trs palavras ditas durante a viagem no pronunciou nem mais uma s. Todos se convenceram de 
que era muda - e a rainha se aproveitou do fato para lanar outra falsidade contra o Sargento Verde. "Ele anda dizendo - cochichou ao ouvido do rei - que  capaz 
de fazer a princesa muda falar."
        O rei indagou do Sargento Verde se era verdade e ele respondeu como das outras vezes; depois foi perguntar ao cavalo o que devia fazer.
        - No tenha medo de nada - respondeu o cavalo. - Na hora do almoo, d com uma corda na princesa at que ela conte qual foi a primeira palavra que pronunciou 
logo ao sair do mar; e na hora do jantar d-lhe outra sova at que ela conte qual foi a segunda palavra; e na hora da ceia, outra sova at que diga a terceira palavra. 
Faa isso que a princesa ficar falando.
        O Sargento Verde assim fez. Na hora do almoo passou mo numa corda e gritou: "Conte, moa, qual foi a palavra que me disse logo que samos do mar!" E como 
ela se conservasse de boca fechada, le, lepte! lepte! e tanto deu que ela falou: "J!" "E que quer dizer isso?" Com mais algumas lambadas a moa respondeu que queria 
dizer: "J estou livre de muitos trabalhos."
        No jantar repetiu-se a cena, e tantas lambadas levou a princesa que repetiu a segunda palavra, "Bela!" e explicou que aquilo queria dizer: "Somos duas donzelas, 
eu e o Sargento Verde, cujo verdadeiro nome  Lucinda."
        Na ceia, a corda fez que a moa repetisse a terceira palavra, "Tudo!" isto , que se Lucinda fosse homem h muito tempo que a rainha j teria fugido com 
ele.
        Esses acontecimentos assombraram menos ao rei e  corte do que verem Lucinda aparecer vestida de mulher, com o seu cavalo magro virado num lindo prncipe, 
que logo se casou com a princesa trazida do fundo do mar. O rei no perdoou a traio da rainha. Mandou que a soltassem pelos campos amarrada a dois burros bravos, 
e casou-se com a boa Lucinda, no meio de grandes festas.  E acabou-se a histria.
        
         Emlia ficou a olhar a cara de Narizinho.
         -  Esta histria  -  disse  ela -  ainda  est mais boba que a outra. Tudo sem p, nem cabea. Sabe o que me parece? Parece uma histria que era dum jeito 
e foi se alterando de um contador para outro, cada vez mais atrapalhada, isto , foi perdendo pelo caminho o p e a cabea.
         -  Voc tem razo, Emlia - disse dona Benta. - As histrias que andam na boca do povo no so como as escritas. As histrias escritas conservam-se sempre 
as mesmas, porque a escrita fixa a maneira pela qual o autor a comps. Mas as histrias que correm na boca do povo vo se adulterando com o tempo. Cada pessoa que 
conta muda uma coisa ou outra, e por fim elas ficam muito diferentes do que eram no comeo.
         -  Quem conta um conto aumenta um ponto - lembrou Pedrinho.
         -  Sim, aumenta um ponto e introduz qualquer  modificao.   Ningum  que   oua  uma histria  capaz de cont-la para diante sem alterao de alguma coisa, 
de modo que no fim a histria aparece horrivelmente modificada. Todas as histrias do folclore so assim. H sbios que pegam nessas histrias e as estudam, e vo 
indo at encontrarem o seu ponto de. partida. E mostram as mudanas que o povo fez.
         -  Mudanas que as deixam sem p nem cabea - insistiu Emlia. - Essa do Sargento Verde, por exemplo.  to idiota que um sbio   que   quiser   estud-la 
acabar   tambm idiota. Eu, francamente, passo essas  tais histrias populares. Gosto mas  das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que 
escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo...
        
        
        
      IV
      
      A princesa ladrona
        
        Havia um pai com trs filhos; um plantou um p de laranjeira, outro plantou um p de limeira e outro plantou um p de limoeiro. Certo dia o mais velho foi 
ter com o pai e disse:
        - Meu pai, j estou homem feito e quero sair pelo mundo.
        O pai achou que era ainda cedo, mas o moo tanto insistiu que ele teve de concordar. E ento disse:
        -  Pois saia, mas antes deve resolver se quer levar minha bno com pouco dinheiro ou minha maldio com muito dinheiro.
        O moo quis maldio com muito dinheiro - e o pai o amaldioou, depois de dar-lhe um saco de dinheiro. Antes de partir, esse moo disse aos irmos que quando 
a sua laranjeira comeasse a murchar isso era sinal de que se achava em grandes apuros - e eles que fossem socorr-lo.
        Combinado esse ponto, o moo partiu. Andou, andou, andou, e por fim, j muito cansado, viu uma fumaa ao longe. Encaminhou-se para l. Era um palcio. A 
dona do palcio era uma princesa que o recebeu com grandes amabilidades. Jantou com ele e depois convidou-o a um passeio pela horta. Ao atravessar um riacho, a princesa 
ladrona ergueu o vestido de modo a mostrar o p, e depois que voltaram  sala perguntou ao moo que  que havia visto de mais lindo na horta.
        -  As couves - respondeu o moo.
        A princesa mordeu os lbios e convidou-o para um joguinho - e num instante ganhou todo o dinheiro que ele trazia. Depois disso mandou que seus criados o 
prendessem e s lhe dessem couve para comer.
        Logo que isso aconteceu, l em casa do pai do moo a laranjeira comeou a murchar. O irmo do meio, vendo aquilo, foi ter com o pai e disse:
        -  Meu irmo est em grandes apuros e eu vou correr mundo para socorr-lo.
        O pai concordou e perguntou o que ele queria, bno com pouco dinheiro ou maldio com muito dinheiro. Esse moo tambm preferiu maldio com muito dinheiro 
- e o pai o amaldioou, depois de lhe dar um saco de dinheiro - e ele l se foi.
        Andou,   andou,   andou   at   sentir-se exausto, e nesse momento viu ao longe uma fumaa. Encaminhou-se para l. Era o palcio da princesa ladrona. A princesa 
recebeu-o com as amabilidades de sempre, e depois do jantar levou-o a passeio pela horta. Ao atravessar o riozinho mostrou o p, e ao voltarem  sala fez-lhe a mesma 
pergunta.
        -  Ento, que mais apreciou na minha horta?
        -  As alfaces - respondeu o moo.
        A princesa pensou consigo que aquele era igualzinho ao outro; convidou-o para jogar, ganhou-lhe todo o dinheiro e o mandou prender, com ordem de s lhe darem 
alface.
        Assim que isso aconteceu, l na casa do pai do moo a limeira comeou a murchar. O terceiro filho foi ter com o pai.
        -  Meu pai, quero sair pelo mundo em socorro dos meus irmos; a laranjeira e a limeira esto dando sinal do grande perigo que eles correm.
        -  Pois v - respondeu o pai - mas antes ter de decidir se quer minha bno com pouco dinheiro ou minha maldio com muito dinheiro.
        -  Meu pai - respondeu o moo - quero sua bno com pouco dinheiro.
        O pai abenoou-o e ele partiu. Bem longe dali encontrou uma velhinha, que era Nossa Senhora disfarada.
        -  Para onde vai, meu filho?
        -  Vou pelo mundo ganhar a vida e procurar meus  irmos  - respondeu o moo.
        A velhinha deu-lhe uma toalha, dizendo:                                                 
        -  Quando tiver fome meu filho, pegue esta toalha e diga: "Pe a mesa, toalha!" - e um banquete aparecer.
        Deu-lhe tambm uma bolsa, dizendo: "Esta bolsa faz o mesmo que a tolha." E deu-lhe ainda uma violinha dizendo' "Se perder a toalha e a bolsa, basta tocar 
nesta violinha que no sentir fome, nem privao de nada."
        O moo agradeceu os presentes e l se foi pela estrada afora. Chegou afinal ao palcio da princesa ladrona, onde bateu e foi recebido com grandes amabilidades. 
Depois do jantar houve o tal passeio  horta, tudo exatinho como havia acontecido com os seus dois irmos. De volta do passeio a princesa perguntou o que mais ele 
tinha apreciado.                 
        -  O lindo p da senhora princesa - respondeu o moo gentilmente.
         princesa sorriu, como quem diz: Este me serve. Em seguida convidou-o para jogar e no jogo limpou-o do pouco dinheiro que ele trazia. E tambm mandou que 
o prendessem junto com os demais.
        L pela tarde chegou a hora de dar comida aos presos, e uma preta apareceu diante das grades com um prato de couves.
        -  Muito obrigado - disse o moo. - Diga  sua senhora que no preciso de nada disso. - E estendendo a toalha teve o gosto de ver surgir um verdadeiro banquete.
        A priso estava cheia de prisioneiros, todos quase mortos de fome, de modo que o regalo foi grande. A negra, que trouxera a comida, abriu a boca, assombrada.
        -  Minha senhora - foi correndo dizer  princesa - aquele preso de ontem tem uma toalha mgica, que basta abrir para virar num banquete.
        A princesa ficou logo desejosa de possuir tal toalha, e mandou a preta saber do moo se queria vend-la. O moo respondeu que teria muito gosto em d-la 
de presente, com a condio de dormir uma noite na porta do quarto da princesa do lado de fora. A princesa danou com a resposta, que lhe pareceu um grande desaforo, 
mas por fim concordou.
        
        
        No dia seguinte, quando a negra foi levar a couve aos presos, o moo recusou de novo, e abrindo a bolsa fez aparecer um banquete mgico, de que todos comeram 
at no poder mais. A negra foi correndo dizer  princesa: "Minha senhora, ele tem uma bolsa ainda mais mgica que a toalha. Aquilo  que  uma bolsa de princesa."
        A princesa mandou propor a compra da bolsa, e o moo disse que lhe dava a bolsa de presente, com a condio de dormir na porta do seu quarto, mas do lado 
de dentro. A princesa danou, mas a negra achou que ela devia aceitar, pois que dormiria na cama e ele no cho duro. Fez-se o negcio e o moo dormiu no quarto da 
princesa do lado de dentro, perto da porta.
        No dia seguinte a negra foi de novo levar a couve aos presos e viu o moo pegar na violinha e comear a tocar. E todos os presos puseram-se a danar como 
se no tivessem fome nenhuma. E at a negra pegou fogo e ps-se a danar tambm. A festa durou tanto tempo que a princesa mandou chamar a negra.
        -  Ah, minha senhora, o tal moo tem uma violinha que  mesmo a maior das maravilhas. Aquilo  que  viola de princesa!
        -  Pois v saber dele se quer me vender a tal viola.
        A negra foi e o moo respondeu que s daria a viola se a princesa se casasse com ele.
        A princesa a princpio danou, mas depois resolveu aceitar a proposta e casou-se. Ento todos os presos foram soltos e houve grandes festas.
        
         E tia Nastcia rematou a histria repetindo o mesmo finzinho de sempre: "E eu l estive e trouxe um prato de doces, que caiu na ladeira."
         
          Entrou por uma porta
          saiu por um canivete;
          manda o rei meu senhor
          que me conte sete.
         
          -  Que histria de contar sete  essa? - perguntou Emlia quando a negra chegou ao fim. - No estou entendendo nada.
         -  Mas isto no  para entender, Emlia - respondeu a negra. -  da histria. Foi assim que minha me Tiaga me contou o caso da princesa ladrona, que eu 
passo para diante do jeito que recebi.
         -  E esta! - exclamou Emlia olhando para dona Benta. - As tais histrias populares andam to atrapalhadas que as contadeiras contam at o que no entendem. 
Esses versinhos do fim so a maior bobagem que ainda vi. Ah, meu Deus do cu! Viva Andersen! Viva Carroll!
         -  Sim - disse dona Benta. - Ns no podemos exigir do  povo o apuro artstico dos grandes escritores.  O povo...  Que  o povo? So essas pobres  tias 
velhas,  como Nastcia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa no fazem seno ouvir as histrias de outras criaturas igualmente ignorantes, e 
pass-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.
         -  Outra   coisa   que   noto   nessas   histrias, vov - observou Narizinho -  que no dispensam reis e rainhas e prncipes e princesas encantadas. Por 
que  assim?
         -  Essas  histrias,  minha  filha,  vieram de Portugal, e so dum tempo em que em todos os pases do mundo s havia reis. Isso de presidentes de repblica 
 coisa moderna. So histrias dos tempos dos reis. E para a imaginao do povo os reis, as rainhas e os prncipes eram a coisa mais maravilhosa que havia. Hoje 
tudo est mudado. Cada vez h menos reis, a no ser nos baralhos. E j no h aquele "co", que quando via um rosrio rebentava num grande estouro e fedia enxofre. 
O povo  muito conservador, de modo que as histrias que de pais a filhos a gente do povo conta so corocas, vm do tempo da Idade Mdia, quando no existiam jornais 
nem livros.
         -  Pois c comigo - disse Emlia - s aturo essas histrias como estudos da ignorncia e burrice do povo.  Prazer no sinto  nenhum. No so engraadas, 
no tm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e brbaras - coisa mesmo de negra beiuda, como tia Nastcia. No gosto, no gosto e no gosto...
        
        
      V
      
      O pssaro preto
        
        Havia um homem que possua um pssaro preto de muita estimao. Tinha tambm um filho muito reinador, que indo dar comida ao pssaro esqueceu a portinhola 
aberta. O pssaro fugiu e levou o menino no bico.
        Longo tempo voou o pssaro com o menino no bico, at que chegou a um palcio maravilhoso. L soltou-o e mandou pr a mesa para o almoo. Terminado o almoo 
entregou ao menino uma chave, dizendo ser a chave do primeiro dos sete quartos que davam para aquele salo. E foi-se embora voando.
        O menino abriu o quarto e encontrou uma poro de cavalos, com os quais se divertiu grandemente, a ponto de esquecer de jantar.
        No dia seguinte, antes de sair, o pssaro preto deu ao menino a chave do segundo quarto, onde havia uma poro de arreios. E assim o pssaro preto foi dando 
as chaves de todos os quartos at chegar ao quinto. O terceiro estava cheio de moas brancas; o quarto estava cheio de mulatinhas e o quinto estava cheio de espadas.
        O menino cresceu naquele palcio, onde tinha tudo quanto desejava. O pssaro dizia sempre: "Seja bonzinho e obediente, que darei a voc tudo quanto houver 
por aqui. S no quero que abra as portas do sexto e do stimo quartos. Se abri-las, perder o que j tenho dado e no ganhar nada do que est prometido."
        Mas o moo no resistiu  tentao, e um dia entrou no sexto quarto. Encontrou l um lindo rio de prata. Enfiou o dedo e ficou com o dedo prateado. Como 
era agora? Para que o pssaro preto no visse o seu dedo prateado, amarrou-o com uma tira de pano.
        O pssaro preto, porm, era bom adivinhador; ao ver aquele dedo amarrado, percebeu tudo.
        -  J sei que abriu o sexto quarto - disse ele. - E o moo, com muito medo, confessou tudo: "Abri, sim, padrinho (ele tratava o pssaro de padrinho), mas 
espero que no me castigue."
        -  Desta vez perdo, mas castigarei se abrir o stimo quarto - disse o padrinho, entregando-lhe a chave e voando.
        O moo resistiu quanto pde, mas afinal abriu tambm o stimo quarto, onde encontrou um rio de ouro. Molhou o dedo no ouro lquido e ficou com o dedo dourado. 
Teve de amarr-lo com outra tira de pano.
        O pssaro preto voltou e, percebendo tudo, disse:
        -  Como castigo da desobedincia, vou mergulhar voc nesses dois rios e bot-lo daqui para fora.  - E mergulhou-o no rio de prata, depois no rio de ouro 
e por fim soltou-o fora do palcio. Mas de d do  afilhado  lhe  deu  uma  varinha   de condo.                               -
        O moo foi andando at dar num reino onde encontrou um negro velho de nome Gaforinha. Pintou a cara e comprou a roupa desse negro, para poder entrar na cidade 
sem que o povo percebesse que ele era dourado e prateado.
        Mas uma princesa que estava  janela viu de longe a cena e foi dizer ao rei, seu pai, que queria casar-se com o mais esfarrapado negro velho que entrasse 
na cidade. O rei muito se assombrou com o desejo da filha, mas no teve remdio seno fazer-lhe a vontade. Mandou que pegassem o negro e o trouxessem ao palcio. 
Quando o negro soube que a princesa queria casar-se com ele, ficou tambm assombradssimo, porque estava longe de supor que ela sabia de tudo.
        Casaram-se e ele nem tinha coragem de deitar-se na cama da princesa; dormia no cho, numa tbua. Aquilo desgostou imensamente o rei, a ponto de faz-lo cair 
doente, muito mal do corao. A famlia fez uma promessa a Nossa Senhora, que se o rei sarasse haveria uma grande festa. O mdico veio e receitou como remdio trs 
pssaros de pluma.
        O negro soube de tudo, e soube tambm que os prncipes casados com as outras filhas do rei iam sair a cavalo pelo mundo em procura dos pssaros de pluma. 
Ele ento pediu  varinha mgica que lhe desse um coche muito rico, um vesturio deslumbrante e trs pssaros de pluma. Entrou no coche e l se foi ao encontro dos 
genros do rei.
        Assim que estes viram naquele coche os trs pssaros, perguntaram ao viajante se eram mesmo pssaros de pluma e se os queria vender. O viajante respondeu 
que s cederia os pssaros se os moos se deixassem marcar na perna com um ferro em brasa. Eles consentiram. Foram marcados na perna e correram ao palcio do rei 
doente com os trs pssaros de pluma. O rei comeu-os e sarou. Comearam as grandes festas.
        A princesa casada com o negro foi para a igreja sozinha, mas o seu marido pediu  vara de condo que fizesse aparecer outro coche ainda mais lindo que o 
primeiro e outro vesturio deslumbrante - e entrando no coche foi no galope, de modo a chegar  igreja antes de sua mulher. Entrou no templo, onde todos se admiraram 
de tanta beleza. Mas quem mais se admirou foi sua prpria esposa, que estava a mil lguas de imaginar que aquele fosse o seu marido negro. As irms casadas com os 
prncipes disseram-lhe: "Com um moo assim  que voc devia ter-se casado, e no com um negro to preto."
        Na festa do dia seguinte o negro pediu  vara de condo que fizesse aparecer um coche ainda mais lindo e um vesturio ainda mais deslumbrante - e foi esperar 
a esposa na igreja, deixando-a terrivelmente impressionada com a sua beleza e a sua riqueza.           
        No terceiro dia, a mesma coisa: um coche ainda mais lindo e um vesturio que era um cu aberto. Depois das festas na igreja houve banquete no palcio - e 
o negro se apresentou no mesmo coche e nos mesmos trajes do dia em que cedeu os pssaros de pluma aos genros do rei.
        Os prncipes ficaram muito espantados de ver ali aquele homem, e mais ainda quando o desconhecido declarou que no se sentava em mesa em que sentassem seus 
escravos.
        - Que escravos? - perguntou o rei.    
        O moo apontou para os genros do rei dizendo que eram seus escravos, pois tinham as pernas marcadas com a mesma marca com que ele marcava os seus bois.
        O rei examinou a perna dos moos e viu as marcas. Ao saberem disso, as princesas casadas com eles se atiraram pelas janelas; e os pobres prncipes fizeram 
o mesmo. E o rei ficou numa tal tristeza que morreu dias depois. E ento o Gaforinha ficou dono de todo o reino.
         
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
         -  Esta histria - disse dona Benta - foi recolhida pelo erudito Slvio Romero, da boca do povo de Pernambuco. A gente percebe com muita  clareza que  
uma histria  truncada, bastante sem p nem cabea, como diz a Emlia. Em geral as histrias encerram uma moralidade, uma lio qualquer - mas nesta no vemos nada 
disso.  O  fim at deixa  a gente desapontada.
         -  Tambm  acho  -  disse  Emlia.  -  Essa princesa que se casa com um negro velho, o pssaro preto que leva o menino no bico, aqueles quartos cheios, 
de cavalos um, de arreios outro, de moas brancas outro, de mulatinhas outro - e os ltimos com os tais rios de prata e ouro, tudo isso no tem o menor propsito. 
E o castigo que o pssaro preto inventou? Ento dar uma vara mgica a uma pessoa  castigar? Quem me dera ser castigada assim! Tudo bobagens de negra velha. Nessa 
histria vejo uma fieira de negras velhas, cada qual mais boba que a outra - que vo passando a histria para diante, cada vez mais atrapalhada.
         -  E os tais pssaros de pluma? - disse Narizinho. - Que  que entende voc por pssaros de pluma, Nastcia?
         -  No sei, menina - respondeu a preta. - A histria eu ouvi assim e por isso conto assim. Pssaro de pluma  pssaro de pena, parece.
         -  E j viu pssaro que no seja de pena, sua tola? - disse Emlia. - O que vale  que voc mesma confessa no ter culpa das idiotices da histria, seno 
eu cortava um pedao desse beio...
         -  Emlia, respeite os mais velhos! - ralhou dona Benta.
         -  A senhora me perdoe - disse a pestinha
         - mas, c para mim, isso de respeito nada tem com a idade. Eu respeito uma abelha de um ms de idade que me diga coisinhas sensatas
         -  mas. se Matusalm vier para cima de mim com bobagens,  pensa que no boto fogo na barba dele? Ora, se boto!...
        
        
        
        
        
      VI
      
      A raposinha
      
        Era uma vez um prncipe que saiu a correr mundo, em procura dum remdio para o rei, seu pai, que estava cego. De pois de muito andar,  passou por uma aldeia, 
onde viu vrios homens dando uma sova num defunto.
        -  Que  isso? - perguntou o prncipe.
        -   que este homem nos devia dinheiro e morreu sem pagar. O costume c da aldeia manda meter a lenha no cadver.
        O prncipe revoltou-se contra a brutalidade, e pagando a dvida do morto deu ordem para que o enterrassem.
        Seguiu caminho. Adiante encontrou uma raposa que lhe perguntou para onde ia. O prncipe contou que andava atrs dum remdio para a cegueira do rei, seu pai.
        -  Pois sei dum remdio - disse a raposinha. - Basta esfregar nos olhos do rei um pouco de  "ungento de papagaio", mas dum certo papagaio l do reino dos 
Papagaios. V l, meu prncipe, entre  meia-noite no lugar onde esto esses pssaros e no olhe para os bonitos, os que moram em gaiolas douradas. Pegue no mais 
velho de todos, o mais depenado e sujo, que est a um canto, num poleiro imundo. Esse  o bom.
        O prncipe foi. Quando entrou no reino dos Papagaios, ficou de boca aberta de tantas aves lindas que viu, em gaiolas de prata e ouro, e at cravejadas de 
diamantes. Esquecido da recomendao da raposinha, pegou na gaiola do mais bonito e foi saindo. Mas o papagaio deu um' berro. Os guardas acordaram e prenderam o 
prncipe.                   
        -  Que queres com este papagaio? - disseram. - Vais morrer, gatuno!
        O prncipe, com muito medo, explicou do que se tratava. Os guardas ento lhe disseram:
        -  Pois muito bem: damos-te o papagaio se fores ao reino das Espadas e nos trouxeres uma - e soltaram-no.
        O prncipe saiu muito triste porque no sabia onde era o tal reino. A raposinha apareceu-lhe de novo.
        -  Ento, meu prncipe, que tristeza  essa? - e depois de saber do acontecido falou assim: - Eu bem recomendei que pegasse o papagaio mais velho e feio.
        Agora o que tem a fazer  o seguinte: v ao reino das Espadas (e contou onde era) e entre l  meia-noite. Encontrar espadas de todos os jeitos, de ouro 
e prata, muitas cravejadas de pedras preciosas - mas no pegue nenhuma dessas. Pegue uma velhinha e enferrujada, que est num canto. Essa  a boa.
        O prncipe foi, e l no reino das Espadas ficou de boca aberta diante das tantas mavilhosas que viu. Mas no teve coragem de pegar na espada mais velha e 
ferrujenta; escolheu, ao contrrio, a mais rica de todas. Quando ia saindo, fez barulho sem querer; os guardas acordaram e o prenderam. Iam lev-lo ao rei de Espadas. 
        O prncipe, porm, contou sua triste histria de modo a comover os guardas, os quais disseram: "Bem. Perdoaremos o seu crime, se for ao reino dos Cavalos 
e nos trouxer um."
        O prncipe saiu em procura do reino dos Cavalos. Logo adiante encontrou a raposinha. "Para onde vai to triste o senhor prncipe?" - perguntou ela.
        O prncipe contou tudo.
        -  Bem feito - disse a raposinha. - Por que no fez como eu disse? O remdio agora  um s - ir ao reino dos Cavalos (e contou onde era) e l entrar  meia-noite. 
Encontrar muitssimos cavalos de todas as cores e raas, cada qual mais lindo. Mas no pegue nenhum desses. Escolha o mais velho e feio. Esse  o bom.
        O prncipe foi, mas to lindos animais viu no reino dos Cavalos que no teve nimo de pegar no mais velho e feio. Escolheu, ao contrrio, o mais lindo de 
todos. Ao sair, o cavalo rinchou, acordando os guardas, que o prenderam.
        Houve explicao e por fim os guardas disseram:
        -  Pois  bem,   ns  o  perdoaremos  se voc furtar a filha do rei.
        O prncipe prometeu e saiu. Logo adiante encontrou a raposinha que lhe disse:      
        - Prncipe, saiba que sou a alma daquele defunto que levou a sova por causa das dvidas. Ando a proteg-lo por todos os modos, mas nada tem adiantado. Voc 
nunca faz o que eu digo. Vamos ver se agora me atende. Arranje um cavalo e v  meia-noite ao palcio do rei; entre; agarre a moa, ponha-a na garupa e dispare no 
galope. Passe pelo reino dos Cavalos e pegue o que eu disse. Depois passe pelo reino das Espadas e pegue a que eu disse. Depois passe pelo reino dos Papagaios e 
pegue o que eu disse. E dispare a toda para a casa de seu pai, porque o velho est morre no morre. Mas nunca entre por veredas, nem d ateno a coisa nenhuma antes 
de chegar em casa. E adeus
        O prncipe l se foi. Chegando ao palcio do rei, furtou a moa; chegando ao reino dos Cavalos, pegou o mais velho e feio; chegando ao reino das Espadas, 
levou a mais velha; chegando ao reino dos Papagaios, pegou o mais feio - e seguiu no galope na direo de sua casa.
        Pelo caminho, porm, encontrou seus irmos que tinham sado  procura dele, mas que ao verem aqueles objetos ficaram com inveja e resolveram mat-lo para 
roubar. Para isso convenceram-no de que devia deixar a estrada e seguir por um atalho, porque indo pelo atalho estaria livre de ser assaltado por ladres.
        O moo caiu na esparrela; tomou pelo atalho. Logo adiante os maus irmos assaltaram-no, roubaram-no e jogaram-no numa buraqueira, certos de que estava morto. 
E voltaram para casa com os des-pojos. Aconteceu, porm, uma poro de coisas. A moa no queria comer nem falar; o papagaio enfiou a cabea sob a asa e no disse 
uma s palavra; a espada ficou mais enferrujada ainda e o cavalo pendeu a cabea como se fosse morrer.
        Quando o moo, l na buraqueira, acordou do longo desmaio, viu diante de si a raposa, a qual o tirou dali e o botou no caminho. Ele seguiu para casa manquitolando. 
Assim que chegou, a espada perdeu a ferrugem, ficando novinha em folha; o papagaio criou penas novas e foi sentar-se em seu ombro; a moa deu uma gargalhada gostosa 
e falou pelos cotovelos; o cavalo ergueu a cabea e engordou num instante.
        O prncipe, ento, dirigiu-se ao quarto do rei cego e esfregou-lhe nos olhos um pouco de "ungento de papagaio" - e o rei imediatamente recobrou a vista 
e a sade.
        Foi uma grande alegria na corte. O bom prncipe casou-se com a moa e os maus irmos foram expulsos do reino. E acabou-se a histria.
         -  Bom - disse Emlia. - Esta j est mais bem arranjadinha. Mas eu noto uma coisa: as histrias populares parecem que so uma s, contada   de   mil   
maneiras  diferentes.   Falam tanto na  tal  imaginao  do povo e eu no vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza.
         -  Sim - disse dona Benta. - Tambm eu no encontro grande  riqueza de imaginao no nosso povo. As histrias que por a correm de  fato  se repetem,  parecendo 
ser  todas do mesmo ciclo.
         -  Ciclo? - repetiu Narizinho. - Que  isso?
         -  Quando h uma idia central e em redor dela surgem muitas histrias parecidas umas com as outras, dizem os sbios que elas pertencem ao mesmo ciclo. 
Na Europa houve, na Idade Mdia, o ciclo das histrias da Raposa. Houve  tambm o ciclo  das histrias do rei Artur.  O  povo encanta-se  com uma  idia e vai tecendo 
variantes em torno.
         -  No cinema de hoje noto a mesma coisa - disse Pedrinho. - Sempre que aparece uma fita original, todas as companhias se aproveitam da idia e do fitas 
sobre o mesmo tema. At enjoa a gente essa repetio.
         -  E na literatura tambm  assim - disse dona Benta. - Sempre que um escritor lana uma obra original, com alguma novidade que caia no gosto do pblico, 
todos os maus escritores se metem a usar e abusar daquele tema. Quando aqui no Brasil apareceu O Guarani de Jos de Alencar, veio logo uma fria de romances e contos 
de ndios que no acabava mais.  Eram obras de pouco valor, imitaes que o tempo varreu para o lixo com a vassoura do esquecimento. S ficou O Guarani.
         -  Bom - disse Pedrinho. - Nesse caso, temos nas histrias populares o ciclo dos prncipes Joozinhos que saem a correr mundo em procura de velhas que ensinam 
remdios e mais coisas milagrosas. As que tia Nastcia j contou parece pertencerem ao mesmo ciclo. J estou cansado desse "ciclismo"...
        
        
        
      
      
      
      
      VII
      
      O homem pequeno
      
        Uma vez o prncipe D. Joo saiu a caar com alguns amigos, internando-se na floresta. O prncipe, que ia na frente, acabou por distanciar-se dos companheiros, 
perdendo-se no mato. Quis sair da floresta e no pde. Andava de c para l s tontas, sem conseguir orientao. De repente avistou um muro alto que nem uma montanha, 
e para l se dirigiu.
        Soube que estava num reino pertencente a uma famlia de gigantes. O dono da casa era to alto que dava com a cabea nas nuvens. Era casado com uma mulher 
tambm gigantesca e tinha uma filha tambm giganta, de nome Guimara.
        Quando o gigante viu o prncipe, ficou muito espantado. "Que andas a fazer por aqui, homenzinho?"
        O prncipe contou-lhe sua histria e o gigante disse: "Pois bem. Posso admiti-lo como meu criado", e o prncipe, que no tinha outro remdio, ficou morando 
l.
        A filha do gigante achou-o to engraadinho que por ele se apaixonou. O pai percebeu a coisa. Chamou o prncipe e disse-lhe:
        -   verdade,  pequenote,  que andas dizendo que s capaz de derrubar numa noite o muro do meu castelo e de construir um palcio?
        -  No, senhor meu amo - respondeu o prncipe. - Eu nunca falei semelhante coisa; mas se meu amo manda, farei isso.
        -  Pois quero ver - disse o rei.
        D. Joo saiu dali muito triste, indo ter com a sua amada Guimara,  qual contou a conversa.
        -  No se incomode - respondeu Guimara. - Eu arrumarei tudo.
        E assim foi. Graas s suas artes mgicas, Guimara derrubou o muro durante a noite e ergueu um palcio maravilhoso. Quando na manh do dia seguinte o gigante 
viu aquilo, assombrou-se.
        -  Ol, homem pequeno, foste tu mesmo que fizeste isso ou foi minha filha Guimara?
        -  Fui eu, senhor - mentiu o prncipe.
        Passaram-se uns dias. O gigante, cada vez mais desconfiado levantou outro aleive contra o prncipe.
        -  Escuta c, homenzinho, andam dizendo por a que te gabas de seres capaz de fazer daquele monte selvagem um lindo jardim de flores.  certo?
        -  Eu nada disse, mas se meu amo me manda fazer isso, farei.
        -  Pois faze, que do contrrio te cortarei essa cabecinha.
        O prncipe foi ter com Guimara, que o sossegou dizendo: "No se aflija, meu amor, eu arrumarei tudo."
        E assim foi.  noite ela fugiu do seu quarto e junto com o prncipe trabalhou no morro, de modo a transformar tudo aquilo no mais belo dos jardins.
        Quando pela manh o gigante viu a obra, ficou furioso, e resolveu l consigo que o melhor era dar cabo do homenzinho e de Guimara, pois o tal jardim s podia 
ser obra dela.
        Mas Guimara leu o pensamento do gigante e convidou o prncipe a fugir antes que anoitecesse. E fugiram, cada qual num cavalo que avanava cem lguas de cada 
passada. O pai saiu em sua perseguio, montado num cavalo que avanava cento e vinte lguas de cada passada.
        Vendo que seriam alcanados, Guimara se transformou num riacho; virou o prncipe num negro velho; as selas, num canteiro de cebolas; uma espingarda que levavam, 
em beija-flor; e os cavalos, em rvores. O gigante, ao ver aquele negro velho tomando banho no riacho, parou para pedir informaes.
        -  Meu negro velho - disse ele - no viu por acaso, de passagem por aqui, dois cavaleiros, um moo e uma princesa?
        O negro olhou para o canteiro de cebolas e respondeu: "Plantei estas cebolas mas no sei se daro boas." E repetia sempre essas mesmas palavras, por mais 
que o gigante insistisse em saber do moo e da moa.
        Aborrecido com o negro, o gigante fez a mesma pergunta ao beija-flor - mas a resposta foi uma bicada que quase lhe furou os olhos. Desesperado da vida, o 
gigante voltou para casa.
        Quando sua mulher soube de tudo, gritou logo:
        -  Que grande idiota s tu! Pois no percebeste que o riacho era a Guimara, o negro o homenzinho, o beija-flor a espingarda, o canteiro de cebolas eram as 
selas, e as rvores os cavalos?
        O gigante voltou para l com a maior rapidez, mas no encontrou mais nada daquilo. Guimara e o prncipe haviam desencantado e avanado caminho, para de novo 
se transformarem, muito adiante, ela numa igreja, ele num padre, a espingarda num missal, e mudarem as selas num altar e os cavalos em dois sinos.  O gigante varou 
pela igreja adentro, perguntando:
        -  "Senhor padre,  no viu  passarem por aqui dois cavaleiros, um moo e uma princesa?"
        O padre, que fingia dizer missa, respondeu com um versinho:
        
         No ouo o que me diz, no...
         Sou um padre ermito,
         devoto da Conceio, no ouo o que me diz no...
        Dominus vobiscum.
        
        Por mais que o gigante repetisse a pergunta, o padre respondia sempre do mesmo modo. Por fim, desesperado, o gigante voltou para casa e contou tudo  mulher.
        - Que tolo que s! Volta para l no galope. A igreja  Guimara, o padre  o homenzinho, o altar so as selas, o missal  a espingarda e os sinos so os cavalos.
        O gigante voltou no galope, mas nada mais viu. Os fugitivos j estavam longe. O gigante, porm, breve os avistou, e ento Guimara soltou no ar um punhado 
de cinzas, que se transformou no mais espesso nevoeiro. O gigante, no podendo enxergar mais nada, voltou para o seu castelo danadssimo da vida.
        Os dois fugitivos, finalmente, chegaram ao palcio do prncipe. E ento Guimara lhe pediu que ao chegar no beijasse a mo de sua tia. O prncipe prometeu, 
mas ao entrar no palcio a primeira pessoa que viu foi sua tia - e sem lembrar-se da promessa beijou-lhe a mo. Assim que fez isso, esqueceu completamente Guimara 
e tudo quanto se tinha passado.
        O encantamento de Guimara havia desaparecido desde o instante em que ela pisou naquele reinado estranho. Ficou do tamanho de todas as moas e muito triste, 
porque o seu adorado prncipe j no tinha a menor idia dela, nem do que ela fizera para lhe salvar a vida. E acabou-se a histria.   
                               
         -  Nesta histria h uma novidade - disse Emlia - mas o fim est muito  atrapalhado e sem p nem cabea. Eu gosto de fantasia, mas de fantasia com p e 
cabea. Tudo que no tem p nem cabea, me parece errado.
         -  Essa sua teima de exigir nas histrias p e cabea, Emlia, tem sua razo de ser - disse dona Benta. - As coisas sem p nem cabea do-nos  a impresso 
de  monstruosidades,  de coisas  contra a natureza. Uma histria pode ser a mais fantstica possvel, mas h de ter p e cabea. Voc tem razo nessa exigncia.
         -  Eu tambm acho a histria descabeada demais - disse Narizinho. - Pois se o tal gigante era  tamanho  que  dava com  a  cabea nas nuvens,  ento nem 
enxergar o  prncipe poderia. Feita a proporo, seria o mesmo que eu lidar com um micrbio. E para matar esse micrbio o idiotssimo gigante inventava aleives, 
etc. Para matar um micrbio eu assento um p em cima, e pronto.
         -  Outra coisa que no me agrada - disse Pedrinho -  o tal canteiro de cebolas. Bem se v que  histria contada por negras velhas, cozinheiras. S faltou 
transformarem a moa num saquinho de sal,  a espingarda em uma cabea de alho e os cavalos num frango assado.
         -  Tudo passa - concluiu Emlia. - S no passa o fim da histria. A coitada da Guimara devia ter uma recompensa. Fez tudo pelo prncipe e afinal saiu lograda. 
E por qu? Porque ele beijou a mo da tia. Bolas! Ento beijar a mo de tia traz esquecimento? Essa burrice eu no perdo.  Dou grau  cinco  para  a primeira metade 
da histria, mas dou zero para o final.
         
        
        
      
      VIII
      A moura-torta
      
        Era uma vez um pai de trs filhos, que no tendo dinheiro com que dot-los deu a cada um uma melancia, quando eles falaram em sair a correr mundo. Mas recomendou 
que no as abrissem em lugar onde no houvesse gua,
        O filho mais velho, ansioso por saber de sua sina, abriu a melancia  beira do caminho logo adiante. De dentro pulou uma moa muito linda, a gritar: "Dai-me 
gua ou leite!" Mas como ali no houvesse gua nem leite, ela inclinou a cabecinha e morreu.        
        O filho do meio, que havia tomado por outra estrada, tambm resolveu conhecer sua sina e abriu a melancia num ponto onde no havia nem sombra de gua perto. 
Surgiu de dentro uma jovem ainda mais bela, que disse: "Dai-me gua ou leite!" Mas como no houvesse por ali nem uma nem outra coisa, ela tambm pendeu a cabecinha 
e morreu.
        O filho mais moo, porm, deu muito tento  recomendao paterna, de modo que s abriu a sua melancia ao p duma fonte. Tambm de dentro pulou uma moa belssima, 
que pediu gua ou leite. O moo deu-lhe gua da fonte, que ela bebeu a fartar. Mas como estivesse nua, o moo pediu-lhe que subisse a uma rvore e l ficasse escondidinha 
entre as folhas enquanto ele ia buscar-lhe um vestido. A moa subiu  rvore e escondeu-se entre as folhas.
        Logo depois apareceu uma moura-torta, com um pote  cabea. Vinha ench-lo naquela fonte. Olhou para a gua e viu o reflexo da moa escondida na rvore.
        -  Ora que desaforo!  Pois se eu sou uma beleza assim, como  que ando a carregar gua para os outros? - E jogou o pote, quebrando-o em vinte pedaos.
        Mas ao voltar para casa tomou uma grande descompostura da patroa, que a mandou  fonte com outro pote. A moura-torta foi e novamente viu o reflexo da moa 
na gua. E quebrou o segundo pote.
        A moa na rvore no conteve uma gargalhada. A moura-torta olhou para cima e percebeu tudo. Jurou vingar-se.
        -  Linda, linda moa - disse ela fazendo voz macia - que bela cabeleira tu tens, minha flor. Que vontade de correr os dedos por esses lindos fios de ouro! 
Deixa-me que te penteie.
        A moa, sem desconfiar de nada, deixou. A moura-torta subiu  rvore e comeou a pentear aquela belssima cabeleira loura. Sbito, zs! - fincou-lhe um alfinete 
na cabea. Imediatamente a moa virou uma pombinha e voou. A moura-torta, muito contente, ficou no lugar dela.
        Nisto apareceu o moo com o vestido, mas ao ver a sua beleza transformada naquele monstro arregalou os olhos.
        -  Que queres? - disse a moura. - Demoraste tanto que o sol me queimou, deixando-me preta assim.
        O moo deu um suspiro; mas como se tratasse de sua sina, no podia evitar coisa nenhuma. Levou a moura para o palcio e com ela se casou, tudo na maior tristeza.
        Desde o primeiro dia comeou a aparecer por ali uma pombinha, que se sentava nas rvores do jardim e dizia ao jardineiro:  
         "Jardineiro,   jardineiro,   como vai o rei meu senhor e mais a sua moura-torta?" 
        Dizia isso e voava. Mas tanto repetiu aquela frase que o jardineiro falou ao rei.                                          
         O rei, j meio desconfiado, mandou armar uma armadilha de prata para pegar a pombinha. A pombinha no caiu no lao. Mandou armar uma armadilha de ouro - 
e nada. Uma de diamante - e nada. Por fim o jardineiro fez uma de visgo e nessa a pombinha ficou presa.
        O jardineiro levou-a ao rei, o qual a ps numa gaiola muito linda.
        Imediatamente a moura-torta manifestou desejo de comer a pombinha assada, e tanto insistiu que o rei foi obrigado a dar licena para aquele crime. Mas no 
dia em que a pombinha ia morrer, o rei tomou-a nas mos e afagou-a. Percebeu logo em sua cabea um carocinho. Olhou. Era uma cabea de alfinete. Puxou-o - e logo 
que o alfinete saiu a pombinha se transformou na linda moa da melancia.
        -  Oh! s tu, minha amada! - exclamou ele, na maior alegria.
        A moa contou-lhe toda a traio da moura-torta. O rei, furioso mandou amarr-la na cauda de um burro bravo e solt-la pelos campos.
        
         -  Essa histria - disse   Emlia -  comea bastante bem e vai bem at certo ponto. Depois derrapa como automvel na lama. O tal moo era um coitado que 
s possua uma melancia. De repente est num palcio,  e sem mais aquela vira rei...
         -  Isso  mostra  -  explicou  dona  Benta - como na tradio do povo as histrias se vo adulterando. V-se que est incompleta. Com a passagem dum contador 
para outro, perdeu um pedao.
         -  A idia - disse Narizinho - me parece linda e original - a idia do alfinete fincado na cabea da moa, embora seja um absurdo. Em  cabea  de  gente 
no entra nem prego, quanto mais alfinete. Mas passa, porque nas histrias no h naturalismo; tudo  possvel. O que no engulo  o moo deixar-se enganar pela 
moura-torta. Isso  demais.
         -  Um bobo desse tamanho - ajuntou Pedrinho - eu nunca vi igual. Pois ento toda a feira da moura-torta ele acreditou que fosse dum bocadinho de sol que 
a moa havia tomado? Grandssimo sandeu! Alm do mais, ele a havia deixado escondida dentro da folhagem - e que sol  esse que penetra dentro da folhagem das rvores?
         -  Esta histria est cheia de "popularidades" - disse Emlia - mas pelo menos tem o mrito de alguma coisa nova: o alfinete enterrado na cabea da moa, 
a sua transformao em pombinha e, melhor que tudo, o caso da moura confundir o reflexo da moa com a sua prpria imagem. Est tudo muito tosco e bruto, mas passa. 
Dou grau seis.
         -  S porque  apareceu uma pombinha!  - exclamou dona Benta. - As histrias com pombinhas dentro sempre encantaram a Emlia.
         -  E tenho razo - disse a ex-boneca. - No h nada mais lindo que uma pombinha bem branca, com aqueles olhos to redondos. A minha ave predileta sempre 
foi a pombinha. E a sua, tia Nastcia?
         A negra teve vergonha de dizer. A ave predileta de tia Nastcia sempre fora uma galinha bem gorda, das boas para fazer de molho pardo.
         
         
      IX
      
      A madrasta
        
        Havia um vivo com trs filhas. Um dia resolveu casar-se de novo - e casou com uma mulher muito m, que tinha dio s meninas. Fazia-as trabalhar como verdadeiras 
escravas.
        No quintal havia uma grande figueira. Quando chegou o tempo dos figos, a madrasta botou as meninas l tomando conta para que os passarinhos no bicassem 
os figos.
        As trs coitadinhas passavam debaixo da figueira o dia todo, dizendo aos sanhaos que se aproximavam:
        
         X, x, passarinho,
         a no toques o biquinho.
         Vai-te embora pro teu ninho... 
        
        Mas mesmo assim aparecia um ou outro figo bicado e a madrasta batia nas trs.
        Um dia em que o homem fez uma longa viagem a madrasta aproveitou-se para mandar enterrar vivas as coitadinhas. Quando o homem voltou e indagou das filhas, 
a peste respondeu que haviam cado doentes e morrido, apesar de todos os remdios. O pobre pai ficou muito triste.
        Mas aconteceu que no lugar onde as meninas tinham sido enterradas brotou logo um lindo capinzal - dos cabelos delas, e quando batia o vento o capinzal murmurava:
        
         X, x, passarinho,
         a no toques o biquinho. 
         Vai-te embora pro teu ninho...
        
        Um negro, tratador dos animais da casa, andando a cortar capim, ouviu aqueles murmrios e teve medo de mexer nas pontinhas. Foi contar o caso ao patro.
        O patro no quis acreditar, e disse-lhe que cortasse o capim com murmrio e tudo. O negro obedeceu. Mas quando levantou a foice, ouviu novamente a misteriosa 
voz, que dizia:
        
         Capineiro de meu pai, 
         no me cortes os cabelos; 
         minha me me penteava, 
         minha madrasta me enterrou 
         pelo figo da figueira
          que o passarinho bicou.
        
        O negro foi correndo contar o caso ao patro, com um grande susto na cara. E tanto fez que o obrigou a chegar at l. E ento o pai das meninas ouviu o lamento 
das filhas enterradas.
        Mandou buscar uma enxada e cavar, e retirou-as da terra, vivas por milagre de Nossa Senhora, que era madrinha das trs.
        Quando voltaram para casa, na maior alegria deram com a madrasta estrebuchando. Um castigo do cu tinha cado sobre a peste.
        
         -  Bom - disse Emlia - esta histria j est bem mais aceitvel.  Tem sua originalidade e explica tudo. Desde que houve milagre, era natural que as enterradinhas 
vivas no morressem. Milagres no se discutem.
         -  E h ainda um  trao delicado - disse dona Benta - esse das cabeleiras das meninas que viraram capinzal murmurejante ao vento. Aparece tambm a figura 
da madrasta, que  muito comum nas histrias populares. Toda madrasta tem que ser m. O povo no admite a possibilidade de madrasta boa.
         -  E no h - disse Narizinho. - As que eu conheo, como a madrasta da Quinota e a da Maricoquinha, no chegam a ponto de enterrar crianas vivas - mas 
boas no so.
         -  E a do Zeferininho da Estiva, que dava na cabea dele com a colher de pau? - acrescentou Pedrinho.
         -  Sim - disse dona Benta. - Talvez a regra seja a madrasta m, embora as haja excelentes. Sei dois casos de madrastas bonssimas, quase como mes. Tudo 
depende da criatura, e no do ato de ser me ou madrasta. H mes to perversas como as piores madrastas.
         -  Mas o povo assentou que as madrastas no prestam e no prestam mesmo - concluiu Emlia. O coitado do povo sofre tanto que h de saber alguma coisa. Esse 
ponto da madrasta m o povo sabe. So ms como caninanas - embora haja alguma degenerada que seja boa. Madrasta boa no  madrasta. Para ser madrasta, tem que ser 
uma bisca das completas. Eu,  se  pilhar  alguma por  aqui, furo-lhe  os olhos.
         
        
      X
      
      Manuel da Bengala
        
        Era uma vez um rei que teve um filho que nasceu grando e forte demais. Com oito dias de idade j devorava um boi inteiro. O rei, muito assustado, chamou 
seus conselheiros para lhe darem opinio, porque naquela toada o menino acabaria com todos os bois do reino. Os conselheiros acharam que o melhor era solt-lo pelo 
mundo. O rei concordou. Deu ao filho uma bengala de ferro, um machado, uma foice de bom tamanho e soltou-o no mundo.                              
        O prncipe saiu. Chegando a uma fazenda, pediu servio. O fazendeiro ajustou-o e mandou-o roar um pedao de mato. O moo meteu a foice no mato com tanta 
fria que assustou o fazendeiro. Na hora de jantar deu risada da comida que lhe trouxeram. Queria um boi inteiro, com um alqueire de farinha. O fazendeiro achou 
graa e fez a experincia, certo de que ele s comeria um pedacinho do boi e no mximo um litro de farinha; mas quando viu todo o boi desaparecer no seu bucho, e 
mais o alqueire de farinha, no quis saber de histrias - despediu-o.
        O prncipe voltou para o palcio do rei, onde passou uns tempos. Por fim o rei cocou a cabea e reuniu novamente os conselheiros. "Que fazer deste rapaz 
que me devora um boi por dia?" Os conselheiros aconselharam o rei a mand-lo pegar seis lees na floresta, certos de que os lees num instantinho dariam cabo dele.
        O prncipe pediu um carro com trs juntas de bois - e foi para a floresta, onde passou seis dias. Cada dia comia um boi e pegava um leo, que amansava e 
punha no carro, em lugar do boi comido. Quando completou a conta, entupiu o carro de rvore e tocou para a cidade.
        O rei e todo o povo se encheram de espanto com a faanha de Manuel da Bengala, que era como lhe chamavam. Coisa como aquela ningum ainda tinha visto. O 
rei cocou a cabea. Por fim mandou que o prncipe sasse pelo mundo e nunca mais lhe aparecesse. O prncipe saiu.              
        Foi andando, andando. Em certo ponto encontrou um homem que atravessava um rio sem se molhar. Era o Passa-vau.
        -  Bom dia,  Manuel da Bengala!  - gritou o homem.
        -  Passa-vau - disse o prncipe - quer passar-me para a margem de l?
        Passa-vau passou-o e seguiram juntos. Adiante encontraram um homem cortando cip. Chamava-se Arranca-serra.
        -  Bom dia,  Manuel da Bengala!  - gritou o homem.
        -  Arranca-serra - disse o prncipe - quer viajar comigo?                                
        O homem aceitou e l seguiram os trs.
        Cada dia um deles tinha de arranjar comida para o bando. Certa vez em que Passa-vau sara a cuidar disso, encontrou um molequinho de carapua vermelha, que 
lhe pediu fogo para o cachimbo. Passa-vau no quis dar e o moleque pregou--lhe tal cachimbada na cabea que o fez vir ao cho, como morto. S uma hora depois voltou 
a si, e foi contar aos companheiros o acontecido.                        
        -  Voc no vale nada - disse Arranca-serra. - Quem vai buscar comida amanh sou eu. - E foi.
        O molequinho da carapua apareceu de novo, pedindo fogo para o cachimbo. Arranca-serra no quis dar e levou outra cachimbada na cabea que tambm o deitou 
por terra, sem sentidos. Quando voltou a si e foi em procura dos companheiros, Manuel da Bengala riu-se muito.
        -  Vocs no valem  nada. Quem vai buscar comida amanh sou eu. - E foi.
        O moleque da carapua apareceu pela terceira vez, sempre pedindo fogo. Manuel da Bengala respondeu ao pedido com um golpe da sua tremenda bengala de ferro. 
O moleque resistiu e deu-lhe com o cachimbo na cabea. Travou-se luta medonha, at que uma bengalada arrancou a carapua da cabea do moleque. Manuel guardou-a no 
bolso.
        -  Manuel da Bengala, me d minha carapua - pediu o moleque com voz de choro.
        -  No dou, no dou - foi a resposta, e seguiram andando os dois, um a insistir pela carapua e outro a negar. Por fim Manuel da Bengala disse: "S te darei 
a carapua se me entregares as trs princesas que tens encarceradas."
        O moleque, que era o "co", respondeu: "Isso no, porque minhas no so."
        Foram andando, andando. Em certo ponto o moleque entrou por uma gruta - e Manuel da Bengala atrs. Foram dar num reino l no fundo da terra, onde trabalhavam 
muitos escravos. Era o inferno. O moleque no parava de pedir a carapua, e Manuel no parava de pedir as princesas. Por fim, vendo o "co" que no podia com a vida 
daquele homem, deu-lhe as princesas. "Agora passe para c minha carapua!" Manuel respondeu: "Espere! Primeiro tem que me botar l fora, no caminho."
        O moleque resistiu; Manuel pregou--lhe a bengala at que ele cedesse e o levasse para fora, com as trs princesas na frente. Assim que as trs princesas 
surgiram na abertura da caverna, os companheiros de Manuel da Bengala, que estavam por ali, agarraram-nas e dispararam com elas.
        Quando Manuel se viu na estrada, restituiu a carapua ao moleque, mas ficou muito espantado de no ver as moas. Os seus companheiros j estavam longe. Haviam 
ido entreg-las ao rei, dizendo que as tinham salvo e pois deviam receb-las como esposas.
        O rei ficou contentssimo de rever as filhas mas as moas puseram-se a chorar, dizendo que o salvador das trs no era nenhum daqueles homens.
        L longe, Manuel da Bengala, sentado  beira do caminho, pensava na vida. Tinha ficado com os lenos das moas. Pegou num deles e disse: "Voa, voa, e vai 
cair no colo delas." O leno virou num papagaio que foi sentar-se no colo duma das princesas.
        - Eu s me casarei com o dono deste papagaio - disse a moa.
        Manuel da Bengala pegou nos outros lenos e disse: "Voai e levai-me ao palcio das princesas", e os lenos voaram e levaram-no ao palcio das princesas.
        L chegando, as trs reconheceram-no como o seu salvador, e Manuel casou-se com a do papagaio. Os dois embusteiros depois de uma grande sova, foram expulsos 
do reino. As outras casaram-se com dois lindos prncipes. E acabou-se a histria.
        
         -  Ento, Emlia? - perguntou dona Benta.
         -    Est  pitoresca  e  variada - respondeu Emlia - mas muito mal composta. Com esses elementos eu faria uma beleza de histria.
         -  Eu tambm - disse Narizinho. - Vejo uma poro de defeitos. O tal Arranca-serra, fiquei sem saber que  que fazia, pois o que arrancava era cip, serra 
nenhuma. E o Passa--vau, que tinha a propriedade de no molhar--se, em toda a histria no se utilizou dessa propriedade.
         -  Outro defeito que eu acho - disse Pedrinho -  o tal prncipe chamar-se Manuel da Bengala. Muito grosseiro para um prncipe. Muito  sem poesia.  Tambm 
aquilo de com uma semana de idade comer um boi inteiro, me parece idiota.
         -   o que eu digo - ajuntou Emlia. - O povo,  coitado,  no  tem delicadeza,  no  tem finuras, no tem arte.  grosseiro,  tosco em tudo que faz. Este 
livro vai ser s das histrias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um s de histrias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos - 
como aquela do Prncipe Feliz, do tal Oscar Wilde, que dona Benta nos leu. Aquilo sim. At deixa a gente leve, leve, de tanta finura de beleza!
         
         
         
         
         
      XI
      
      Joo e Maria
      
        Houve uma vez um casal com tantos filhos que o remdio foi aliviar a famlia botando dois fora. Chamavam-se Joo e Maria os escolhidos como vtimas. Certa 
manh o pai mandou que se aprontassem para irem com ele tirar mel na floresta.
        Os meninos se aprontaram e foram. L no meio da mata o pai disse: "Agora fiquem aqui bem quietinhos enquanto eu me afasto. Assim que ouvirem um grito, dirijam-se 
do lado do som", e afastou-se para um ponto em direo contrria  sua casa, onde gritou - e depois deu uma volta e correu para casa. Ouvindo o grito, as duas crianas 
encaminharam-se do lado do som. No encontraram o pai e perderam-se.
        Veio a noite e os dois coitadinhos dormiram num oco de pau. No dia seguinte Joo subiu ao alto duma rvore para ver se enxergava alguma coisa. Viu muito 
longe uma fumacinha. Mandou que Maria ficasse esperando e dirigiu-se para l.
        Era a casa duma velha catacega que estava assando bolos ao forno. Joo, meio morto de fome, no resistiu ao cheiro daqueles bolos. Quebrou uma varinha de 
gancho na ponta e por um buraco da parede furtou dois bolinhos. A velha viu aquilo mal-e-mal e pensou que fosse o gato. "Chispa, gato, no me furtes meus bolinhos. 
        No dia seguinte veio Joo com o gancho furtar mais bolinhos e a velha novamente tocou o gato. No terceiro dia voltou, mas dessa vez Maria insistiu em vir 
com ele - e veio. Quando Joo pescou o primeiro bolinho e a velha ralhou com o gato, Maria no conteve uma gargalhada. A velha apareceu  janela e disse.
        - Oh, so vocs, meus netinhos! Entrem. Venham morar comigo.
        Os dois meninos entraram, e a velha, nhoc! agarrou-os e trancou-os numa arca, para engord-los e com-los assados. E para que engordassem depressa, dava-lhes 
muitos bolos todos os dias. De vez em quando dizia: "Bote para fora o dedinho para eu ver se j esto no ponto."
        Joo no punha o dedo - punha um rabinho de lagartixa que encontrara na arca, e a velha rosnava: "Ainda esto bem magros", e aumentava a rao de bolos.
        Assim por muitos dias, at que Joo perdeu o rabinho da lagartixa e teve de pr o dedo. "Oh, disse a velha, agora sim esto no ponto," e abriu a arca. "Saiam 
e juntem bastante lenha. Vamos fazer uma fogueira para danar em redor." Mas a idia da coruja no era essa, e sim lan-los no tacho de gua que ia pr em cima 
da fogueira.     
        
        Os meninos saram para a floresta. Estavam amarrando os feixinhos quando Nossa Senhora lhes apareceu e disse: "A velha  uma feiticeira que devora crianas. 
Por isso faam o que eu vou dizer. Depois de acesa a fogueira, assim que ela mandar que vocs dancem, digam-lhe: "Avozinha, dance primeiro para vermos como " - 
e assim que ela comear a danar, empurrem-na para a fogueira e corram - e subam naquela rvore grande que h perto da casa e fiquem l at ouvirem um estrondo: 
 a cabea da velha arrebentando no fogo. Dessa cabea vo sair trs ces ferozes, mas vocs levaro no bolso trs bolos. Quando aparecer o primeiro co, gritem: 
Turco! e lancem-Ihe um dos bolos. A mesma coisa com o segundo, que se chamar Leo e a mesma coisa com o terceiro, que se chamar Faco. Faam isso que os trs ces 
ferozes se transformaro em trs guardas fiis."
        Os meninos assim fizeram. Levaram a lenha e armaram a fogueira. Quando a velha mandou-os danar, pediram-lhe que comeasse para verem como era - e a velha 
ps-se a danar e eles a empurraram para a fogueira. Em seguida treparam  rvore e ficaram  espera do estouro. Bum! - l rebentou a cabea da velha. Imediatamente 
os trs enormes ces surgiram. Os meninos disseram-lhes os nomes e lanaram-lhes os bolinhos. Os ces viraram guardas fiis, tudo exato como Nossa Senhora dissera.
        Desceram ento da rvore e ficaram morando na casa da feiticeira, onde viveram vrios anos em companhia dos bons ces.
        Maria, que estava mocinha, foi gostada por um rapaz das vizinhanas, que resolveu dar cabo de Joo. Mas os ces defendiam-no to bem que isso se tornou impossvel. 
O moo armou um plano. Aconselhou Maria a pedir a Joo que fosse  floresta e deixasse os cachorros na casa e Joo assim fez. O moo veio e entupiu os ouvidos dos 
cachorros com cera - e l se foi com uma espingarda em procura de Joo. Se ele gritasse, os ces no ouviriam e no viriam em seu socorro.     
        Encontrou-o e disse: "Reza, amigo, pois vais morrer" - e apontou a espingarda. Joo pediu tempo para dar trs gritos. O malvado respondeu, rindo, que podia 
dar at cem. Joo trepou a uma rvore e gritou de cima: "Turco! Leo! Faco!"
        Os ces estavam de ouvidos tapados, mas mesmo assim ouviram alguma coisa e sacudiram violentamente as cabeas. Joo repetiu os gritos, duas, trs vezes. 
A cera escapou dos ouvidos dos ces e eles vieram, velozes como relmpagos, e agarraram o malvado e o estraalharam.
        Joo voltou para casa e disse a Maria: "Tu me atraioaste, irm. Fica-te pois aqui que eu vou correr mundo", e l se foi com os trs ces fiis.
        Tocou para um reino onde havia um monstro de sete cabeas, comedor de gente. Todos os dias tinham de levar-lhe uma vtima. Ao chegar l Joo viu uma linda 
princesa amarrada a uma pedra. "Que fazes aqui, princesa?" - perguntou. E ela respondeu: "C estou para ser devorada pelo monstro de sete cabeas. Ele no tarda. 
Foge depressa, seno sers devorado tambm."
        Contou ainda que o rei a tinha prometido como esposa a quem matasse o monstro, mas que nunca apareceu no reino homem nenhum capaz de semelhante faanha.
        Joo declarou que no fugiria dali, ao contrrio, ficaria  espera do monstro para lutar com ele e venc-lo - e como estivesse cansado, deitou a cabea no 
colo da princesa, para dormir.
        Momentos depois o monstro surgiu ao longe, e a princesa, na maior aflio, ps--se a chorar. Uma lgrima caiu no rosto de Joo, despertando-o. "Foge! Foge, 
seno sers devorado tambm" - disse-lhe a princesa. Mas Joo no mostrou o menor medo. Ficou - e atiou contra o monstro o co Turco. Travou-se uma luta medonha, 
e quando o Turco j no podia mais, Joo atiou o Leo. E quando o Leo j no podia mais atiou o Faco. O monstro no agentou: foi vencido e estraalhado..
        Joo Cortou a ponta das sete lnguas do monstro e foi com a princesa ao palcio do rei. Mas um negro, que ia passando a cavalo, deu com o bicho morto e teve 
uma idia. Cortou sete tocos das lnguas do monstro e foi de galope ao palcio do rei, ao qual declarou que tinha matado o monstro.
        Quando Joo chegou era tarde. O rei j tinha resolvido o casamento da princesa com o negro mentiroso, por mais que ela contasse a histria dum modo diferente. 
Ningum acreditou era suas palavras, julgando ser inveno para no casar-se com o negro.
        No dia do casamento houve um grande banquete, mas no momento em que os criados serviram o negro, Turco entrou e arrebatou o que lhe haviam posto no prato. 
Ao ver aquilo, a princesa ficou alegrssima e contou ao pai que era um dos ces que haviam lutado contra o bicho de sete cabeas.
        Os criados serviram o negro novamente, e desta vez foi Leo que entrou e levou-lhe o prato. A princesa explicou que era aquele o segundo co que lutara contra 
o monstro. Por fim entrou Faco e arrebatou  terceiro prato servido ao negro. O rei, muito impressionado, mandou que seguissem aquele cachorro para ver a quem pertencia.
        Os guardas foram e voltaram com o heri verdadeiro.
        - Eis a quem me salvou e matou o monstro! - gritou a princesa, e Joo confirmou suas palavras, abrindo um leno e mostrando as sete pontas de lngua.
        O rei compreendeu tudo. Mandou amarrar o negro num burro bem bravo e casou Joo com a princesa.
        
         -  Eu j li essa histria em Andersen - disse Emlia - e agora estou vendo bem claro como o nosso povo faz nela os seus  arranjos. Foi Andersen quem a inventou.
         -  No -  disse  dona  Benta.  -  Andersen nada mais fez do que colh-la da boca do povo e arranj-la a seu modo, com as modificaes que quis. Essas histrias 
so todas velhssimas, e correm todos os pases, em cada terra contada de um jeito. Os escritores o que fazem  fixar as suas verses, isto , o modo como eles entendem 
que as histrias devem ser contadas.
         -  Na verso de Andersen - disse Narizinho - no h negro nenhum, nem nada de trs ces. O povo aqui no Brasil misturou a velha histria de Joozinho e 
Maria com outra qualquer, formando uma coisa diferente. A verso de Andersen  muito mais delicada e chama-se Hansel e Gretel.
         -  O tal negro entrou a - disse Pedrinho - porque no Brasil as histrias so contadas pelas negras, que gostam de enxertar personagens pretos como elas. 
L na Dinamarca Andersen nunca se lembraria de enxertar um preto porque no h pretos. Tudo gente loura.
         -  Onde  o tal Slvio Romero pegaria essa histria? - perguntou Emlia.
         -  No Rio de Janeiro e no Sergipe - respondeu dona Benta. - Ele fez um trabalho muito interessante, que publicou com o nome de Contos Populares do Brasil. 
Ouvia as histrias das  negras velhas e copiava-as direitinho, com todos os erros de lngua e os truncamentos.   assim que os folcloristas  caam a obra popular.
         
         
        
        
      XII
      
      O bom diabo
      
        Houve um rei que tinha um filho de dezoito anos.                                     
        "Meu filho - disse a rainha -  tempo de eu ler a tua sina" - e leu a sina do moo. Oh, bem triste! O moo tinha a sina de morrer enforcado. A rainha caiu 
numa grande tristeza, mas nada contou ao filho. "Que abatimento  esse, minha me?" - perguntava ele, e a rainha suspirava.
        Mas tanto ele insistiu com sua me para que lhe contasse a causa da tristeza, que ela contou. "Meu filho,  que tua sina  morreres enforcado."
        O rapaz procurou consol-la, dizendo que morrer todos morriam, e que tanto fazia morrer disto como daquilo. Mas j que sua sina era aquela, s desejava uma 
coisa: licena para correr mundo e ser enforcado longe dali, de modo que no desse maior desgosto aos seus. A rainha sentiu mas concedeu a licena pedida.
        No dia da partida o rei deu-lhe uma grande soma de dinheiro para a viagem - e l se foi ele pelo mundo afora. Correu cidades e reinos, at que por fim chegou 
a um stio onde havia uma capela de S. Miguel, com a imagem deste santo e a figura do diabo, mas tudo em runas. O prncipe parou ali, com a idia de reconstruir 
a capelinha e restaurar as imagens.
        Chamou operrios e ps mos  obra. Deixou tudo novinho em folha, uma beleza. Quando o pintor veio receber o seu dinheiro, contou que sobrara um pouco de 
tinta porque havia deixado de pintar a figura do diabo.
        -  Por que o no pintou? Pinte o diabo tambm - ordenou o prncipe. E o pintor pintou o diabo.
        Concluda aquela tarefa, o prncipe continuou sua viagem pelo mundo. Certo dia foi dar  casa duma velha,  qual pediu pouso. Entrou, jantou, e depois comeou 
a contar o dinheiro que ainda lhe restava. Vendo aquilo, a velha foi correndo dizer s autoridades que estava em sua casa um ladro, contando o dinheiro que lhe 
havia roubado.
        Veio uma escolta, que prendeu o prncipe. Foi processado, julgado e condenado  morte na forca. Mas no dia em que tinha de ser morto, l na capelinha de 
S. Miguel o santo ps-se a conversar com o diabo.
        -  Ento,   ests   agora   bonito,   hein diabo?
        -   verdade. Pintaram-me inteirinho.
        -  E no sabes quem consertou esta capela e nos pintou?
        O diabo no sabia; o santo contou-lhe a histria do prncipe que passara por ali, e disse mais que esse pobre moo fora preso, processado e julgado, e naquele 
mesmo dia ia ser erguido a uma forca por causa das intrigas de certa velha.
        O diabo no quis ouvir mais. Pulou num cavalo e foi voando  casa da velha; agarrou-a e levou-a ao rei, fazendo-a confessar toda a sua maquinao contra 
o moo. O rei deu ordens para que soltassem o preso e o trouxessem  sua presena.
        O diabo montou no cavalo e voou para a priso onde o prncipe ia ser enforcado, e apresentou ao carrasco a ordem de soltura.  O carrasco entregou-lhe o condenado, 
que l se foi com o diabo para o palcio do rei.
        O rei indagou do prncipe quem era ele e de onde vinha. Sabendo de tudo, condenou a velha a restituir-lhe o dinheiro e a ir para a priso em lugar dele. 
Terminado o caso, q, moo partiu novamente a correr mundo.
        Pelo caminho encontrou um fidalgo, ao qual contou tudo.
        O fidalgo disse:                                 
        -  E no sabes quem te valeu?
        -  No  sei  de  nada - respondeu  o prncipe.
        -  Pois fica sabendo que foi o diabo da capelinha de S. Miguel, e esse diabo sou eu. No dia em que iam enforcar-te S. Miguel me contou tudo. Montei num cavalo 
e voei  casa da velha; agarrei-a e levei-a ao rei, para que tudo se esclarecesse.
        -  E a que devo eu tanta bondade? - perguntou o prncipe.
        -  Ah! - exclamou o diabo, rindo-se. - Tudo deves quele bocadinho de tinta que mandaste aplicar sobre minha figura. Agora ests livres da m sina, porque 
a velha vai ser enforcada em teu lugar. Podes  voltar sossegadamente  ao  reino de teu pai, que nada mais te acontecer.
        O prncipe assim fez. Antes, porm, voltou  capelinha de S. Miguel para agradecer ao bom santo - e enquanto rezava viu a figura do diabo muito contente 
da vida na sua pintura nova.
        
         -  Pois gostei! - gritou Emlia. - Est a uma historinha que descansa a gente daquelas repeties das outras. E mais que tudo gostei da camaradagem entre 
o santo e o diabo.
         -  Sim - disse dona Benta. - Como os dois vivessem na mesma capela, sozinhos, acabaram em muito bons termos, como se v na histria. O diabo  o smbolo 
da maldade, mas at a maldade  amansa  quando  em companhia da bondade. De viverem juntos ali na capelinha, o santo e o diabo se transformaram em amigos, e os bons 
sentimentos de um passaram para o outro.
         -  Influncia do meio! - gritou Pedrinho, que andava a ler Darwin.
         Narizinho confessou que gostava muito das histrias com o diabo dentro, e disse que todas elas confirmavam o dito popular de que o diabo no  to feio 
como o pintam.
         -  Credo! - exclamou tia Nastcia fazendo trs benzeduras. - Como  que uma menina de boa educao tem coragem de dizer isso do canhoto?
         Narizinho arregalou os olhos.
         -  Como?  boa! Pois voc mesma no acaba de contar a histria dum diabo bom?
         -  Mas isso  histria, menina.  Histria  mentira. O "co"  "co". No muda de ruindade.
         -  Se o co  co, viva o diabo! - gritou Emlia. - No h animal melhor, nem mais nobre que o co. Chamar ao diabo co,  fazer-lhe o maior elogio possvel.
         -  Dona Benta - exclamou tia Nastcia horrorizada - tranque a boca dessas crianas. Esto ficando os maiores hereges deste mundo. Chegam at a defender 
o canhoto, credo!...
         -  Olhe,  Nastcia, se voc conta mais trs histrias de diabo como essa, at eu sou capaz de dar um viva ao canhoto - respondeu dona Benta.
         Tia Nastcia botou as mos e ps-se a rezar.
         
         
         
      XIII
      
      A fonte das Trs Comadres
      
        Havia um rei que cegou. Por mais que os mdicos o tratassem com quanto remdio havia, no recobrava nem um pingo de vista. Certa vez bateu no palcio uma 
mendiga, a pedir esmola; sabendo da cegueira do rei, disse que desejava ensinar-lhe um bom remdio.
        O rei a recebeu.
        - Saiba S. Majestade que s existe no mundo uma coisa capaz de curar a cegueira, e  banhar os olhos com gua da fonte das Trs Comadres. Mas  muito difcil 
obter essa gua. Quem for busc-la tem que entreter-se com uma velha que mora por l; s essa velha pode dizer se o drago que toma conta da fonte est acordado 
ou dormindo.
        E contou o caminho para chegar  fonte. O rei agradeceu-lhe a informao e presenteou-a com um saco de moedas de ouro. Em seguida ordenou que uma esquadra 
sasse com seu filho mais velho em busca da tal gua milagrosa, e recomendou ao prncipe que no se distrasse com coisa nenhuma, e que estivesse de volta dentro 
de um ano.
        O prncipe partiu. Depois de muito navegar, chegou a um reino muito rico, onde saltou em terra e caiu na folgana com as lindas moas que l havia. Gastou 
todo o seu dinheiro, fez dvidas e ao esgotar-se o prazo nem coragem teve de voltar para casa.
        O rei, muito aborrecido, mandou aprestar outra esquadra, que partiu levando o filho do meio. Esse moo foi tambm .ao tal reino, onde igualmente se enfeitiou 
pelas moas bonitas, esquecendo o pai cego e a gua milagrosa.
        Mais um ano se passou sem que ele voltasse. O rei quase morreu de desgosto.
        Foi ento que o filho mais novo se apresentou dizendo:
        -  Meu pai, deixe-me ir, que juro trazer a gua maravilhosa.
        O rei riu-se.
        -  Como? No vs que s uma criana? Se teus irmos, homens feitos, nada conseguiram, que esperas conseguir, tu que ainda ests to perto dos cueiros?
        Mas tanto o principezinho insistiu que o rei cedeu, pensando l consigo que donde menos se espera  que as coisas vm. Deu-lhe uma esquadra e o menino partiu.
        Tambm essa esquadra foi ter ao reino das moas perigosas, onde os dois prncipes se achavam encarcerados por dvidas. O principezinho pagou as dvidas deles, 
nico meio de os restituir  liberdade. Esses maus prncipes, porm, deram-lhe maus conselhos - que ficasse ali, que desistisse de achar a tal gua, etc. Mas o principezinho 
no cedeu. Tocou a esquadra para diante.                    
        Chegou por fim ao reino onde era a fonte, e tanto fez que descobriu a velha do drago. Vendo aquele meninote com uma garrafa vazia debaixo do brao, a velha 
espantou-se.
        -  Que vem fazer aqui, meu netinho? No sabe que o perigo  grande e ningum escapa ao drago? Esse monstro no passa duma princesa encantada, que devora 
todas as criaturas que se aproximam da fonte.                             
        Mas o principezinho contou sua histria e insistiu para que a velha o ajudasse.
        -  Est bem - disse ela. - Aproxime--se do drago sem ser visto e espie se est de olhos abertos ou fechados. Se estiver de olhos abertos  que est dormindo, 
e se estiver de olhos fechados  que est acordado. Por no saber disto muita gente foi devorada pelo monstro.
        O principezinho agradeceu o aviso e partiu. Aproximou-se cautelosamente do drago. Espiou. Estava de olhos abertos. "Bem - disse ele consigo - o drago est 
dormindo" - e avanou com a garrafa na direo da fonte para ench-la. Mas o monstro fechou os olhos e saltou sobre ele. O principezinho no teve medo. Puxou da 
espada e enfrentou-o. Luta que luta, de repente conseguiu dar-lhe um golpe certeiro. O sangue espirrou do drago, que imediatamente se transformou na mais linda 
princesa que se possa imaginar.
        -  Tu   me   desencantaste,   principezinho - disse ela - e minha sorte me manda casar contigo.  Dou-te um ano para voltares. Se no voltares irei em tua 
procura. Toma este leno como sinal. Adeus
        O prncipe regressou, muito alegre, para o reino de seu pai. Em caminho apanhou os irmos no reino das moas bonitas e levou-os tambm. Mas esses maus irmos 
armaram-lhe uma boa pea. Com o fim de roubarem a gua milagrosa, que ele guardava num ba cuja chave trazia num fio ao peito, prepararam um grande banquete a bordo, 
com muito vinho. E tanto fizeram que o embebedaram, e lhe tiraram a chave, trocando l no ba a garrafa de gua milagrosa por gua -toa do mar.
        Quando a esquadra chegou ao reino do rei cego, os prncipes foram recebidos com grandes festas. O principezinho contou toda a sua viagem e entregou ao pai 
a garrafa de gua milagrosa. O efeito, porm, foi um desastre. Em vez de curar a cegueira, deixou-a ainda pior. Os maus prncipes, ento, adiantaram-se e disseram 
que o principezinho no passava dum impostor, pois trouxera gua do mar em vez de gua milagrosa. O rei que experimentasse a que eles haviam trazido - e mostraram 
a garrafa de gua da fonte. O rei experimentou-a e imediatamente sarou da cegueira.
        Houve grandes festas em todo o reino, mas o principezinho foi condenado  morte pela sua impostura. Os carrascos, entretanto, tiveram d dele, e em vez de 
mat-lo, como ordenara o rei, apenas lhe cortaram um dedo como prova, soltando-o em seguida na floresta.
        O pobre moo foi ter  casa de um lenhador, a quem pediu emprego. Foi ajustado como escravo e muito judiado. E o prazo de um ano concedido pela princesa 
chegou ao fim sem que o coitadinho pudesse pensar em ir procur-la to longe. Vendo que o seu desencantador no vinha, a princesa mandou aparelhar uma esquadra e 
partiu em sua procura, conforme prometera.
        Quando a esquadra chegou ao reino, a princesa mandou um emissrio, ricamente vestido, dizer ao rei que tinha combinado casamento com o prncipe que a desencantara, 
e agora estava ali para dar cumprimento  promessa. E que mandasse a bordo o prncipe, sob pena de seus navios abrirem fogo contra a cidade, incendiando-a.
        O rei, muito agoniado, teve de ceder, e o prncipe mais velho apresentou-se a bordo como sendo o desencantador da princesa.
        - Homem atrevido! - gritou esta - como ousa fingir ser quem no ? Onde est o leno que dei ao meu desencantador?
        O prncipe voltou para terra, muito triste. O rei ento mandou o do meio. O resultado no foi melhor, e a princesa, furiosa, fez outra intimao ao rei. 
Ou mandava o prncipe verdadeiro ou os seus canhes bombardeavam a cidade, destruindo tudo.
        O rei ficou aflitssimo, porque o prncipe mais novo havia sido executado por sua ordem. Estava a arrancar as barbas no maior desespero, quando os carrascos 
vieram dizer que no o tinham matado, mas apenas se limitado a cortar-lhe um dedo. Suspirando de alvio, o rei deu ordem para que procurassem o principezinho, com 
grandes recompensas a quem o descobrisse.
        O lenhador que conservava o prncipe como escravo ficou mais morto do que vivo quando soube de tudo. Botou-o s costas e l se foi ao palcio do rei, chorando 
de alegria e medo.
        Estava o pobre prncipe em miservel estado de sujeira, vestido de andrajos. Tiveram de lav-lo e vesti-lo com as suas roupas deixadas no palcio, por sinal 
que curtas e apertadssimas. Enquanto faziam esses preparativos, o prazo dado pela princesa, de bombardear a cidade, ia chegando ao fim. Os canhes j estavam apontados. 
Mas tudo correu bem. O principezinho entrou no navio da princesa e mostrou-lhe o leno.
        - Agora sim - disse ela - reconheo em ti o meu desencantador - e seguiu com ele para o seu reino, onde se casaram e foram muito felizes. Os prncipes maus, 
esses tiveram o castigo merecido. Foram amarrados  cauda de cavalos bravos para morrerem despedaados.
        
         -  Continua o negcio  do nmero trs - disse Emlia. - Tudo tem que ser trs! O povo no passa sem um rei e  trs prncipes, dois maus e um bom. E o bom 
 sempre o mais criana.
         -  E o castigo dos maus - ajuntou Narizinho - tambm  sempre o mesmo: amarrao em cauda de cavalo ou burro bravo. Acho muito brbaras essas histrias.
         --  que vm de muito longe - disse dona Benta. - Se fossem histrias de hoje, teramos automveis em vez de forcas, e no veramos nunca esse horrendo 
castigo do despedaamento por burros bravos. O povo, muito conservador, repete hoje as mesmas histrias contadas na Idade Mdia, tempo em que enforcar gente correspondia 
a um divertimento pblico, como hoje ir ver fitas.
         -  Mas  se  os  contadores  vo  alterando  as histrias - disse Pedrinho - por que conservam essas barbaridades?
         -  As alteraes so s na cor local, em detalhes superficiais. Na essncia, no fundo, as histrias no so alteradas. Por isso aparecem tantos prncipes, 
tantos reis, tanta forca e tanto burro bravo - explicou dona Benta.
         -  E os drages e encantamentos?
         -  Tambm coisas da Idade Mdia. Naquele tempo a imaginao popular andava povoada de monstros. Um dia havemos de ler o poema de Ariosto,   Orlando Furioso, 
no  qual vocs vero que delrio de pesadelo era a cabea da gente medieval. As histrias que correm entre o nosso povo so reflexos da era mais barbaresca da Europa. 
Os colonizadores portugueses trouxeram essas histrias e soltaram-nas por aqui - e o povo as vai repetindo, sobretudo na roa. A mentalidade da nossa gente roceira 
est ainda muito prxima da dos primeiros colonizadores.
         -  Por que, vov?
         -  Por causa do  analfabetismo.  Como no sabem ler, s entra na cabea dos homens do povo o que os outros contam - e os outros s contam o que ouviram. 
A coisa vem assim num rosrio de pais. a filhos. S quem sabe ler, e l os bons livros,  que se pe de acordo com os progressos que as cincias trouxeram ao mundo.
         
         
         
      XIV
      
      A rainha que saiu do mar
        
        Houve um rei que encasquetou casar--se com a moa mais bonita que houvesse. Seus oficiais j tinham percorrido todas as cidades, e esmiuado todas as casas, 
sem que descobrissem a beleza que contentasse. S faltava serem apresentadas ao
        rei as filhas dum lavrador, as nicas que ele no tinha visto.
        Estavam as coisas nesse p quando entrou na igreja um rapaz de ar abobado, que olhou para a imagem duma santa e ps-se a chorar. Perguntaram-lhe o que era, 
se estava sentindo alguma dor.
        -  No sinto dor nenhuma - respondeu o rapaz - mas  que olhei para aquela imagem ali e senti grandes saudades de minha irm, que  o retrato da santa.
        Todos comentaram aquelas palavras, uns caoando, outros a srio, e de tanto fala-fala o caso chegou aos ouvidos do rei, o qual fez vir o moo  sua presena 
e lhe perguntou se era verdade o que dissera na igreja.
        -  , sim - respondeu o rapaz - tenho uma irm muito linda, o retrato daquela santa da igreja.
        -  E onde mora?
        -  Nas grotas do monte Escarpado, a dez mil lguas daqui, por terra, ou cinco mil por mar.
        O rei mandou preparar uma esquadra que levasse os seus mensageiros ao pai da moa, a fim de pedi-la em casamento - e o rapaz que dera a informao seguiu 
junto.
        Quando a esquadra chegou  terra do monte Escarpado, os mensageiros desceram, seguindo para a tal grota. A moa estava  janela. Oh, que maravilha! Todos 
ficaram tontos diante de sua beleza. Os mensageiros entregaram a carta do rei e o pai concordou em d-la em casamento. Feitos os preparativos, a linda criatura entrou 
num dos navios e a esquadra partiu.
        Em certo ponto da viagem o mar ficou to bravo que os emissrios resolveram descer com a moa em terra, por algum tempo. Recolheram-se  casa duma velha 
que morava por ali. Mas a velha no passava da pior das pestes, pois, tendo ouvido a histria da moa, convidou-a a um passeio pela horta, e l zuct! - jogou-a dentro 
dum poo.
        Quando chegou a hora do embarque a velha levou  esquadra uma filha sua, muito feia, com a cara coberta por um vu, de modo que os emissrios no perceberam 
a troca. A esquadra partiu.
        Assim que os navios desapareceram ao longe, a peste foi ao poo e pescou a moa, cortou-lhe o cabelo, furou-lhe os olhos e botou-a dentro dum caixo, que 
lanou ao mar. Esse caixo foi parar no reino do rei ante" que os navios chegassem, sendo recolhido por um pescador.
        Mas algum que viu o pescador recolhendo o caixo deu denncia ao rei, o qual mandou investigar. As autoridades vieram,, abriram o caixo e muito se assombraram 
de ver dentro uma to linda moa, de olhos furados e cabelos cortados.       
        L levaram a cega para o palcio, mas por esse tempo tambm os navios j tinham chegado e os emissrios iam entrando com a filha da velha. O chefe do grupo, 
muito desapontado, declarou ao rei:
        -  Fui alegre, senhor, e volto triste. Muito esperei e pouco alcancei, e se nisto h culpa minha, pronto estou para sofrer o castigo que Vossa Majestade 
haja por bem impor-me.
        O rei, entretanto, era homem de bem. Apenas disse:
        -  Ningum tem culpa de nada. Prometi, cumpro. Casar-me-ei com esta moa feia.
        E casou-se na maior tristeza, vestido de luto. S depois disso  que lhe apresentaram a moa de olhos furados. Mas o irmo dela, que estava presente, reconheceu-a 
de pronto e contou ao rei o desembarque no meio do caminho, a ida  casa da velha, o passeio da velha pela horta e por fim falou da substituio da sua irm pela 
filha da velha.
        O rei mandou trazer a velha  sua presena. A peste negou tudo e at renegou a prpria filha, dizendo que nunca tinha visto semelhante feira. Mas a parecena 
de traos entre a me e filha era muito grande para que algum pudesse ter a menor dvida, e o rei deu ordem para que cortassem os cabelos e furassem os olhos da 
velha.
        Assim que isso foi feito, os olhos da moa ficaram perfeitinhos, e sua cabeleira cresceu num instante. Virou uma criatura ainda mais formosa do que havia 
sido. Estava tudo salvo. As duas embusteiras foram lanadas ao mar e o rei viu--se, finalmente casado com a criatura mais linda que havia.
        
         -  Grau 5 - gritou Emlia.
         -  Eu nem dou nota - disse Narizinho. - Acho que no vale a pena. Histria mais fraca ainda no ouvi. Vamos ver outra.
         E tia Nastcia contou a histria de
         
         
         
         
         
         
      XV
      
      A formiga e a neve
        
        Uma vez uma formiga, que andava pelos campos, ficou com as perninhas presas na neve.
        -   neve valente que meus ps prende! - exclamou a formiga, e a neve respondeu:
        -  Sou valente mas o sol me derrete. A formiga voltou-se para o sol:
        -   sol valente que derrete a neve que meus ps prende! - e o sol respondeu:                             
        -  Sou valente mas a nuvem me esconde.
        A formiga voltou-se para a nuvem:     
        -   nuvem valente que esconde o sol que derrete a neve que meus ps prende! - e a nuvem respondeu:
        -  Sou valente mas o vento me desmancha.
        A formiga voltou-se para o vento:
        -   vento valente que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus ps prende! - e o vento respondeu:
        -  Sou valente mas a parede me pra. A formiga voltou-se para a parede:
        -   parede valente que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol  que  derrete  a neve que meus  ps prende! - e a parede respondeu:
        -  Sou valente mas o rato me fura. A formiga voltou-se para o rato:   
         -   rato valente que fura a parede que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus ps prende! - e o rato respondeu 
:
           - Sou valente mas o gato me come. A formiga voltou-se para o gato:
        -   gato valente que come o rato que fura a parede que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus ps prende! - e 
o gato respondeu:
        -  Sou   valente   mas o   cachorro   me pega.
        A formiga voltou-se para o cachorro:
        -   cachorro valente que pega o gato que come o rato que fura a parede que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus 
ps prende!  - e o cachorro respondeu :
        -  Sou valente mas a ona me devora. A formiga voltou-se para a ona:
        -   ona valente que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete 
a neve que meus ps prende! - e a ona respondeu:
        -  Sou valente mas o homem me caa. A formiga voltou-se para o homem:
        -   homem valente que caa a ona que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que pra o vento que desmancha a nuvem que esconde 
o sol que derrete a neve que meus ps prende! - e o homem respondeu:
        -  Sou valente mas Deus pode comigo. A formiga voltou-se para Deus:
        -   Deus valente que pode com o homem que caa a ona que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que pra o vento que desmancha 
a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus ps prende!
        Deus respondeu:
         - Formiguinha, acaba com essa histria e vai furtar.
         por isso que a formiga vive sempre na maior atividade, furtando, furtando.
        
         -  Ora at que enfim ouvi uma histria que merece  grau  dez!   -  gritou   Emlia.  -  Est muito bem arranjada, e sem rei dentro, nem prncipes, nem olho 
furado, nem burro bravo. tima! Meus parabns a tia Nastcia.
         -  Tambm gostei bastante - disse Narizinho. - S que no concordo com o fim. A formiga no furta. As coisas que h no mundo so to dela como nossas e 
de todos os outros animais. Por que considerar gatuninha a formiga?
         Dona Benta explicou:
         -  A gente v a o dedo das contadeiras de histrias. So em geral donas de casa, ou amas, ou cozinheiras, criaturas para as quais as formigas no passam 
dumas gatuninhas, porque vivem invadindo as prateleiras e guarda-comidas para furtar acar. Se fosse escrita por um filsofo, a histria no teria esse fim, porque 
os filsofos nem sabem que h guarda-comidas no mundo. S enxergam o cu, as estrelas, as leis naturais, etc. Mas as tias Nastcias sabem muito bem das. formiguinhas 
que furtam acar.
         -  E  mesmo, sinh - confirmou a preta. - Outro dia esqueci de tampar a terrina de doce de laranja, e quando foi de manh estava pretinha de formigas. 
As bobas se deixam grudar na calda e morrem afogadas. Bem feito! Quem manda serem gatuninhas?
         -  Ento voc tambm  gatuna - disse Emlia - porque furta as laranjas da laranjeira para fazer doce.
         -  Mas a laranjeira  da gente, Emlia,  da casa,  ali de dona Benta. Quem tira o que  seu no furta.
         -  E onde est a escritura da Natureza que deu a laranjeira a dona Benta? - gritou Emlia pregando um soco na mesa.
         
         
         
      XVI
      
      Joo Esperto
        
        Havia um casal muito pobre, que tinha um filho de nome Joo, bastante espertinho; mas apesar disso sua me, mulher de beio rachado e muito m, no gostava 
dele. Joo vivia s, sem ter com quem brincar. Seu nico amigo era uma cachorrinha que sua av lhe dera - a Pita.                          
        Quando ficou moo, Joo saiu um dia a passear longe de casa. Pelo caminho encontrou um viajante com quem puxou prosa. Soube que no reino das Trs Princesas, 
que era perto, ia haver o casamento de uma das moas. Para isso estava o rei dando uma festa de quinze dias, a fim de que os pretendentes  mo da princesa lhe propusessem 
uma adivinhao. Se ela adivinhasse, o pretendente ia para a forca; mas se no adivinhasse, ento o felizardo se casaria com ela. Nas forcas j estavam pendurados 
diversos pretendentes que apareceram com adivinhaes que a princesa adivinhou num instantinho.
        Joo ouviu tudo aquilo e ficou a pensar. Quem sabe se ele venceria a princesa e se casaria com ela? Voltou para casa com um plano na cabea.
        - Meu pai, quero sair pelo mundo para ganhar a vida.
        O pai consentiu, mas a me, que era a pior bisca das redondezas, preparou-lhe uma pea: deu-lhe um po envenenado, imaginem! Joo arrumou a trouxa e partiu 
acompanhado da cachorrinha.
        Mas onde era o caminho para o reino das Trs Princesas? No sabia. Nem havia por ali ningum que pudesse inform-lo. Joo foi andando ao acaso, com a trouxinha 
ao ombro. Subiu uma montanha, desceu do outro lado, numa campina, onde pousou.
        No dia seguinte continuou a caminhar at onde havia um grande rio. Ficou  margem olhando para a gua. Viu um burro morto, de barriga inchada, que vinha 
descendo rio abaixo. Em cima dele uma poro de urubus. Botou reparo na-
        quilo e continuou a viagem.
        Quando caiu a tarde Joo sentou-se debaixo duma figueira para jantar o po que sua me lhe dera, mas qualquer coisa lhe disse que o no comesse antes de 
fazer uma prova com a cachorrinha - e ele deu a ela um pedao do po. Foi tiro e queda. Assim que a pobre Pita engoliu o primeiro bocado, tremeu e morreu.
        Joo ficou muito triste da maldade de sua me, e tambm por ter perdido sua nica amiguinha. Enterrou-a. Mas vieram trs urubus que a desenterraram e a comeram 
- e tambm morreram. Imaginem que veneno forte a peste da mulher tinha inventado!
        Joo botou s costas os urubus mortos e seguiu caminho. Chegou a uma estalagem onde no havia ningum. Entrou. L nos fundos viu sete homens armados de espingardas, 
todos a morrerem de fome. Dando com o novo hspede que entrava com aquelas aves negras ao ombro, os famintos avanaram e tomaram--lhe os urubus. Devoraram-nos - 
e morreram.
        Joo escolheu a melhor das sete espingardas e l se foi pelo caminho afora. Saiu numa extensa campina onde se sentou debaixo dum p de rvore. Seu estmago 
dava torcidas medonhas, tanta era a fome. De repente viu uma perdiz mexer-se no capim. Disparou um tiro. Errou. O chumbo foi acertar numa rolinha que ele no tinha 
visto. Para quem erra perdiz, rolinha serve.
        Joo depenou a rolinha - mas no viu lenha para fazer fogo. Olhou. Havia perto uma cruz muito velha. Foi l, tirou umas lascas, fez fogo, assou a rolinha 
e comeu-a. E gua? Como obter gua para matar a sede?
        Teve uma idia. Montou num cavalo que andava pastando por ali e o fez galopar at que suasse em bicas; recolheu o suor e bebeu. E assim, matada a fome e 
a sede, pde continuar a viagem.
        Pouco adiante encontrou uma caveira em que um enxame de maribondos havia feito colmeia. Viu tambm um burro amarrado a uma rvore, a escarvar o cho com 
o p. Indo investigar o que havia naquele cho, encontrou uma botija de dinheiro. Ps-se novamente a caminho e afinal avistou o reino das Trs Princesas. Tinha chegado.
        Indagou das festas. "Tudo corre bem, informou-lhe um sujeito, mas no aparece pretendente nenhum com adivinhao que a princesa no adivinhe. As forcas esto 
engordando."
        Joo dirigiu-se ao palcio, onde declarou ao porteiro que era pretendente  mo da princesa adivinhadeira.
        O porteiro mandou-o entrar, mas todos riram-se daquele pobre diabo com cara de matuto, mal vestido, de trouxinha s costas.
        -  Suma-se daqui, moo, se tem amor  vida. Rapazes dos mais distintos j falharam, e esto neste momento com as lnguas de fora, nas forcas. Se  l possvel 
que um bobo como voc consiga inventar uma adivinhao que a melhor adivinhadeira do mundo no adivinhe! Suma-se, enquanto  tempo.
        Joo, porm, tanto insistiu que foi levado  presena do rei.
        -  Sabes que arriscas a vida? - disse o rei.
        
        
        Joo declarou que sim, mas que estava disposto a tudo.
        -  Bem - exclamou o rei. - Nesse caso,  apresente  a sua adivinhao - e chamou a princesa.
        Joo foi e falou assim:
        
         Sai de casa com massa e pita;
         a massa matou pita,
         a pita matou trs,
         os trs mataram sete
         e das sete escolhi a melhor.
         Atirei no que vi
         e matei o que no vi.
         Com madeira santa
         assei e comi,
         bebi gua sem ser do cu;
         vi o morto carregando os vivos
         e o burro sabendo
         o que os homens no sabem.
         Resolva agora, princesa,
         ou me d c sua mozinha.
        
        A princesa pensou, pensou e no foi capaz de adivinhar. Pediu-lhe que repetisse a histria. Joo repetiu-a trs vezes, e a moa nada. Por fim, j com dor 
de cabea, confessou ao rei:
        -  Impossvel, meu pai. Esta eu no adivinho.
        -  Pois ento abrace e beije o seu noivo - respondeu o rei.
        E mandou que preparassem o reino para o grande casamento.
        
         -  Gostei, gostei! - exclamou Emlia. - No tem nada de boba essa historinha.  uma luta de esperteza contra esperteza, em que o mais esperto saiu ganhando. 
Pedrinho sabe o que isto significa em linguagem cientfica. Diga l, Pedrinho.
         E o menino, que era um darwinista levado da breca, veio logo com a sua cienciazinha.
         -  Isso significa a vitria do mais apto. O mais apto  o mais esperto.
         -  A histria que vocs acabam de ouvir - disse dona Benta - pertence ao tipo das engenhosas.  Reparem que est muito engenhosamente  arranjada.   Na  adivinhao 
o matuto comea falando em massa e pita - massa  po, e Pita, o nome da cachorrinha; e vai por ai alm, contando toda a sua viagem em termos simblicos.
         -  Ento smbolo  isso? - perguntou Narizinho.
         -  Smbolo  palavra grega, com significado de sinal que indica uma coisa. Tudo na lngua so smbolos. Todas as palavras so smbolos. A palavra "Emlia", 
por exemplo, que  seno um smbolo da criaturinha mais pernstica e sabida destas redondezas?
         -  Destas redondezas s? - protestou Emlia. - Da redondeza da terra, isso sim, porque outra como eu ainda est para nascer...
         Dona Benta piscou para tia Nastcia, como quem diz: "J se viu como est ficando vaidosa?"
      XVII
      
      O caula
      
        Havia um homem com trs filhos: Joo, o mais velho; Manuel, o do meio: e Jos, o caula. Um dia os dois mais velhos se revoltaram contra o pai e fugiram 
de casa.O caula foi e disse: "No se amofine, meu pai; sairei pelo mundo em busca de meus irmos."
        E saiu. Foi andando, andando, at que chegou  casa duma velha.
        -  Que anda fazendo aqui por estas alturas, menino? - perguntou a velha.
        -  Sa a correr mundo, em procura de dois irmos fugidos de casa.
        -  Pois vou te ajudar, menino, disse a velha. Entras e dormes aqui. Amanh conversaremos.
        No outro dia a velha disse:
        - O que tens de fazer  o seguinte. Irs ao reino das Trs Pombas, porque  l que se acham os teus irmos. Encontrars a cidade num grande rebulio de festas, 
porque o rei vai escolher o desencantador das trs pombas que esto no fundo do mar. Dou-te esta varinha de condo, toma-a. E tambm esta esponja. Mas muito cuidado 
para que ningum te veja com estes objetos, porque vai acontecer o seguinte: teus prprios irmos vo caluniar-te perante o rei, dizendo que te gabas de seres capaz 
de descer ao fundo do mar, quebrar uma pedra que h l e desencantar as trs pombas, que so trs princesas.
        Bem. O rei vai te chamar  sua presena e te perguntar se isso  verdade. Responders que  mentira, mas que s capaz de fazer o desencantamento.
        E ento irs para a praia do mar e lanars na gua a esponja: a esponja ir flutuando e tu a acompanhars a nado at encontrares uma pedra. Baters nessa 
pedra com a varinha de condo; a pedra se abrir e aparecer uma serpente. Baters na serpente e a serpente adormecer. Entrars pela rachadura da pedra e encontrars 
bem no fundo uma caixa, dentro da qual existe um ovo.  um ovo de trs gemas. Quebrars esse ovo e dars a clara  serpente. Feito isso, os teus trabalhos estaro 
terminados. As trs gemas so as trs princesas.
        A velha abenoou-o e Jos se dirigiu para o reino das Trs Pombas. Encontrou o reino das Trs Pombas. Encontrou o palcio em grandes festas e tambm viu 
seus irmos. Falou com eles, mas os malvados fingiram no conhec-lo - e foram intrig-lo com o rei, dizendo que havia aparecido um grande gabola com prosa de que 
era capaz de desencantar as princesas.
        O rei chamou Jos  sua presena e interpelou-o.
         -  Saiba Vossa Majestade que  mentira, mas apesar disso estou pronto para desencantar as princesas.
        O rei ficou admiradssimo da segurana com que o rapazinho afirmava tal coisa, e mandou que lhe pusessem um navio  disposio. Jos respondeu que no era 
preciso - que iria a nado, e o rei riu-se, porque era o absurdo dos absurdos.
        No dia seguinte foi Jos  praia do mar e lanou  gua a esponja, que no afundava como fazem todas as esponjas. E a esponja foi indo em certa direo e 
ele atrs, nadando, at que chegou  pedra. Tirou a varinha da cintura e bateu. A pedra abriu-se e apareceu a serpente. Jos bateu na serpente e a serpente adormeceu. 
Entrou ento pela rachadura da pedra e descobriu a caixa. Abriu-a e tirou o ovo. Partiu o ovo; deitou a clara na boca da serpente e recolheu as gemas no chapu.
        Feito isso, lanou-se de novo no mar e veio nadando at  praia. Quando chegou, bateu com a varinha nas gemas, que se transformaram nas trs moas mais bonitas 
do mundo.
        Foi um grande assombro no reino, mas os maus irmos levantaram outro aleive contra Jos, dizendo que ele andava se gabando de ser capaz de trazer at a serpente. 
O rei perguntou-lhe se era verdade. " mentira, mas sou capaz de trazer a serpente" - e lanando-se ao mar foi  pedra e trouxe a serpente.
        Os maus irmos tentaram levantar um terceiro aleive, mas desta vez Jos danou com a maldade deles e com a burrice do rei - e, dando-lhes umas varadas, adormeceu-os.
        Quando o rei voltou a si, no quis mais saber de histrias. Casou Jos com a mais bonita das trs princesas e mandou expulsar do reino os maus irmos. E 
acabou-se o caso.
        
         -  Bom - disse Emlia - esta histria  das tais de virar. Eu j tive comigo a varinha de condo que Cinderela esqueceu c no stio, no tempo  daquela festa 
1, e brinquei de virar uma coisa noutra at no poder mais.  faclimo e no h mrito nenhum nisso. Prefiro as histrias em que o fregus vence  custa de esperteza, 
isto , de inteligncia. Com varinha mgica tudo se torna extremamente simples.
         -  Tambm acho bastante boba esta histria - disse Narizinho - alm de que h muita repetio de coisas de outras. Os tais trs irmos, o tal do mais novo 
sair pelo mundo, a eterna velha, o tal reino das Trs Pombas, os tais trs aleives - tudo trs, trs, trs. Isso at cansa. E os nomes? No h histria em que no 
aparea um Joo. Agora variou um pouco e veio um Jos...
         -  Eu, o que mais me admiro - disse Pedrinho -  a burrice desses reis, pais de trs princesas. Nesta histria, por exemplo, houve o primeiro aleive dos 
maus irmos, mas Jos deu conta do recado muito bem, indo  pedra  desencantando a princesa. Que mais queria o rei? No entanto o palerma novamente deu ouvidos aos 
dois perversos que vieram com o segundo aleive. Isso nem  ser rei;  ser camelo.
         -  O negcio dos trs - disse Emlia -  coisa que s serve para maar as crianas. O contador faz isso para espichar a histria. Bem se v que quem as 
inventa  gente do povo, de pouca imaginao e cultura.
         -  Bom - disse dona Benta. - O que estou observando  que as crianas de hoje so muito mais exigentes do que as antigas. Eu, quando era pequenina, ficava 
deslumbrada quando ouvia histrias como esta. Hoje est tudo diferente. Em vez de meus netos deslumbrarem--se,  metem-se  a criticar,  como se fossem uns sabiozinhos 
da Grcia...
         Emlia ficou muito admirada de saber que dona Benta j havia sido criana.
         -  Mas ento a senhora tambm j foi criana, das pequenininhas? - perguntou.
         -  Est claro, Emlia. Que pergunta!
         -  E   tia  Nastcia  tambm?...  Que interessante! Est a uma coisa que nunca me passou pela cabea.
         E ficou pensativa, imaginando como seriam as duas velhas quando criancinhas.
         
         
      XVIII
      
      A cumbuca de ouro
        
        Eram dois vizinhos, um rico e outro pobre, que viviam turrando. O gosto do rico era pregar peas no pobre.
        Certa vez a pobre foi  casa do rico propor um negcio. Queria que ele lhe arrendasse um pedao de terra que servisse para a plantao duma roa de milho. 
O rico imediatamente pensou num pedao de terra que no valia coisa nenhuma, to ruim que nem formiga dava. Fez-se o negcio.
        O pobre voltou para sua choupana e foi com sua mulher ver a tal terra. L chegados, descobriram uma cumbuca.
        -  Chi,   mulher,   esta   cumbuca   est cheia de moedas, venha ver!
        -  E de ouro!  - disse a mulher. - Estamos arrumados!...
        -  No - disse o marido, que era homem de muita honestidade. - A cumbuca no est em terra minha e portanto no me pertence. Meu dever  dar conta de tudo 
ao dono da propriedade.
        E foi ter com o rico, ao qual contou tudo.
        -  Bem - disse este - nesse caso desmancho o negcio feito. No posso arrendar terras que do cumbucas de ouro.
        O pobre voltou para sua choupana, e o rico foi correndo tomar posse da grande riqueza. Mas quando chegou l s viu uma coisa: uma cumbuca cheia de vespas 
das mais terrveis.
        -  Ahn! - exclamou. - Aquele patife quis mangar comigo, mas vou pregar-lhe uma boa pea.
        Botou a cumbuca de vespas num saco e encaminhou-se para a 
        
        choupana do pobre.
        -   compadre, feche a porta e deixe s meia janela aberta. Tenho um lindo presente para voc.
        O pobre fechou a porta, deixando s meia janela aberta. O rico, ento, jogou l dentro a cumbuca de vespas.
        -  A  tem compadre,  a cumbuca de moedas que voc achou em minhas terras. Regale-se com o grande tesouro - e ficou a rir de no poder mais.
        Mas assim que a cumbuca caiu no cho, as vespas se transformaram em moedas de ouro, que rolaram.
        L de fora o rico ouviu o barulhinho e desconfiou. E disse:               -  Compadre, abra a porta, quero ver uma,coisa.
        Mas o pobre respondeu:
        -  No caia nessa. Estou aqui que nem sei  o que  fazer com  tantas vespas  em cima. No quero que elas ferrem o meu bom vizinho. Fuja, compadre!...
        E foi assim que o pobre ficou rico e o rico ficou ridculo.
        
         -  E esta, Emlia,  que acha? - perguntou Narizinho.
         -  Menos m - respondeu Emlia. - Pelo menos no tem rei bobo, pai de trs princesas encantadas.
         Dona Benta disse:
         -  Esta histria pertence ao grupo das em que o povo pe em contraste o pobre e o rico. Em  todas as histrias desse gnero o  rico  sempre homem mau e 
sem corao e o pobre bom. Vira, mexe, o pobre sai ganhando e o rico fica ridculo.
         -  Ridculo! - repetiu Narizinho. - J notei que o povo tem um ditado assim: "Quanto mais rico, mais ridico."
         -  O povo - explicou dona Benta - emprega a palavra ridculo com a significao de miservel, avarento. Mas entre os sabedores da lngua  a palavra ridculo 
quer  dizer  o  que desperta riso. "Uma situao ridcula", quei dizer uma situao  que nos faz rir - como aquela do Elias da venda, quando foi pular a cerca de 
arame farpado e ficou preso pelos fundilhos da cala.
         -  Mas no povo - disse Pedrinho - ridculo quer  dizer  s  uma   coisa:   po-duro.   Isso  j notei. Da ltima vez que fui  vila estava a molecada   
atrs  do   Manei  Agudo,  gritando: "Po-duro!  Po-duro!"  E perguntando  eu a um deles por que faziam aquilo ao coitado, o moleque respondeu:  "Ah,  ento no 
sabe que esse portuga  o velho mais ridculo do mundo? Da casa dele no sai nem uma cuia d'gua."
         -  E  ridico mesmo - ajuntou tia Nastcia. - Pobre que bate l, pedindo esmola, s ouve uma coisa: "Deus o favorea, irmo!" E ele  tem uma barrica de 
dinheiro enterrada no quintal.
         -  Infelizmente - disse Narizinho - isso de cumbucas de vespas que viram moedas de ouro s mesmo nas histrias. O consolo do pobre  um s: falar mal dos 
ricos. Mas o dinheiro dos ricos no sai. Tem grude.
         -  No generalize - observou dona Benta. - H os ricos ridculos, mas h tambm os generosos.  Rockefeller no distribuiu toda a sua fortuna em benefcio 
do mundo?
        
      
      XIX
      
      A mulher dengosa
      
        Era uma vez um homem que se casou com uma mulher muito cheia de dengues. Fingia no ter apetite. Quando se sentava  mesa era para tocar apenas nos pratos. 
Comia trs gros de arroz e j cruzava o talher, como se tivesse comido um boi inteiro.
        O marido desconfiou de tanta falta de apetite, porque apesar daquele eterno jejum ela estava bem gordinha. E imaginou uma pea.
        -  Mulher - disse ele - tenho de fazer uma viagem de muitos dias. Adeus.
        E partiu com a mala s costas - mas deu jeito de voltar sem ser percebido.e de esconder-se na cozinha, atrs do pilo.
        Logo que se viu s em casa, a mulher dos dengues suspirou de alvio e correu  cozinha.
        -  Joaquina - disse   cozinheira  - prepare-me depressa uma sopa bem grossa, que quero almoar.
        A negra preparou uma panelada de sopa, que a dengosa engoliu at o finzinho.
        Logo depois disse  cozinheira:
        -  Joaquina mate um frango e prepare-me um ensopado para o jantar.
        A negra preparou o ensopado, que ela comeu sem deixar uma isca.
        -  Agora,  Joaquina,   prepare-me  uns beijus bem fininhos para eu merendar.
        E merendou os beijus, sem deixar nem um farelo.
        -  E agora, Joaquina, prepare-me um prato de mandioca bem enxuta para eu cear.
        A negra preparou a mandioca, que a dengosa comeu at no poder mais.
        O marido ento escapou do seu esconderijo e foi bater na porta da rua, fingindo estar chegando da viagem. Era um dia de chuva bem forte.
        Quando a mulher abriu e deu com o homem, ficou desapontada. Ele explicou que havia desistido da tal viagem e voltado.
        -  Mas maridinho, como chegou voc to   enxuto,   debaixo   duma   chuva   to grossa?
        O marido respondeu:
        -  Se a chuva fosse to grossa como a sopa que voc almoou, eu viria to ensopado como o frango que voc jantou; mas como era uma chuva fina como os beijus 
que voc merendou, eu cheguei to enxuto como a mandioca que voc ceou.
        A dengosa ficou admiradssima daquelas palavras e desapontadssima ao compreender que o esposo tinha descoberto sua manha. E acabou com os dengues.
        
         -  Bem feito!  - exclamou Emlia. - No gosto de gente afetada. Esse homem sabia fazer as coisas. Sem empregar nenhuma brutalidade, deu uma lio de mestre 
na dengosa.
         -  Mas o pior - disse Narizinho -  que fiquei com gua na boca de vontade de comer os tais beijus. Que ser beiju? Nunca vi isso.
         -   mesmo! - disse dona Benta voltando-se para tia Nastcia. - Est a um petisco que voc nunca se lembrou de fazer.
         -  E  sei   fazer,  sinh,   sei  fazer  beijus dos mais gostosos, mas  nunca encontro por aqui farinha boa. A da venda do Elias Turco no vale nada -  
como o nariz dele.
         -  E eu - disse Pedrinho - fiquei com vontade de comer mandioca cozida, da bem enxutinha, com melado de rapadura. Upa!  uma coisa da gente lamber os beios.
         -  Beio   de  boi  - protestou  Emlia. - Gente tem lbios.
         -  Bom - disse Narizinho - essa histria foi excelente, mas  curta demais. Conte uma comprida.
         Tia Nastcia, porm, contou outra ainda mais curta.
         
         
      XX
      
      O cgado na festa do cu
      
        Certa vez houve uma grande festa no cu, para a qual foram convidados os bichos da floresta. Todos se encaminharam para l, e o cgado tambm - mas este 
era vagaroso demais, de modo que andava, andava e no chegava nunca.
        A festa era s de trs dias e o cgado nada de chegar. Desanimado, pediu a uma gara que o conduzisse s costas. A gara respondeu: "Pois no", e o cgado 
montou.
        A gara foi subindo, subindo, subindo; de vez em quando perguntava ao cgado se estava vendo a terra.
        -  Estou, sim, mas l longe.
        A gara subia mais e mais.   
        -  E agora?
        -  Agora j no vejo o menor sinalzinho da terra.
        A gara, ento, que era uma perversa, fez uma reviravolta no ar, desmontando o cgado. Coitado! Comeou a cair com velocidade cada vez maior. E enquanto 
caa, murmurava:   
        
         Se eu desta escapar, 
         lu, lu, lu, 
         se eu desta escapar,
         nunca mais ao cu 
         me deixarei levar.   
        
        Nisto avistou l embaixo a terra. Gritou:
        -  Arredai-vos,  pedras e paus,  seno eu vos esmagarei! As pedras e paus se afastaram e o cgado caiu. Mesmo assim arrebentou-se todo, em cem pedaos.
        Deus, que estava vendo tudo, teve d do coitado. Afinal de contas aquela desgraa tinha acontecido s porque ele teimou em comparecer  festa do cu. E Deus 
juntou outra vez os pedaos.
         por isso que o cgado tem a casca feita de pedacinhos emendados uns nos outros.
        
         -  Esta histria - disse dona Benta - deve de ser dos ndios. Os povos selvagens inventam coisas assim para explicar certas particularidades dos animais. 
A casca do cgado  toda feita de segmentos, o que d idia de quebradura. Da  o  tombo do cu, inventado pelos ndios.
         - Pobres ndios! - exclamou Narizinho. - Se as histrias deles so todas como essa, s mostram muita ingenuidade. Acho que os negros valem mais que os ndios 
em matria de histrias. V, Nastcia, conte uma histria inventada pelos negros.
         E tia Nastcia contou a histria de
         
         
      XXI
      
      O rabo do macaco
      
        Era um macaco que resolveu sair pelo mundo a fazer negcios. Pensou, pensou e foi colocar-se numa estrada, por onde vinha vindo, l longe, um carro de boi. 
Atravessou a cauda na estrada e ficou esperando.
        Quando o carro chegou e o carreiro viu aquele rabo atravessado no caminho, deteve-se e disse:
        -   Macaco, tire o rabo da estrada, seno passo por cima.             
         -  No tiro! - respondeu o macaco - e o carreiro passou e a roda cortou o rabo do macaco.
        O bichinho fez um barulho medonho.
        -  Eu quero meu rabo, eu quero meu rabo - ou ento uma faca!
        Tanto atormentou o carreiro que este sacou da cintura a faca e disse:
        -  Tome l, seu macaco dos quintos, mas pare com esse berreiro, que est me deixando zonzo.
        O macaco l se foi, muito contente da vida, com a sua faca de ponta na mo.
        "Perdi meu rabo, ganhei uma faca! Tin-glin, tinglin, vou agora para Angola!"
        Seguiu caminho. Logo adiante deu com um tio velho que estava fazendo balaios e cortava o cip com os dentes.
        -  Ol, amigo! - berrou o macaco. - Estou com d de voc, palavra! Onde j se viu cortar cip com os dentes? Tome esta faca de ponta.
        O negro pegou a faca mas quando foi cortar o primeiro cip a faca se partiu pelo meio. O macaco botou a boca no mundo.
        -  Eu quero, eu quero minha faca - ou ento um balaio!
        O negro, tonto com a gritaria, acabou dando um balaio velho para aquela peste de macaco - que, muito contente da vida, l se foi cantarolando: "Perdi meu 
rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!"
        Seguiu caminho. Mais adiante encontrou uma mulher tirando pes do forno, que recolhia na saia.
        -  Ora, minha sinh - disse o macaco - onde se viu recolher po no colo? Ponha-os neste balaio.
        A mulher aceitou o balaio, mas quando comeou a botar os pes dentro, o balaio furou. O macaco ps a boca no mundo.
        -  Eu quero, eu quero o meu balaio - ou ento me d um po.
        Tanto gritou que a mulher, atordoada, deu-lhe um po. E o macaco saiu a pular, cantarolando: "Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um 
balaio; perdi meu balaio, ganhei um po. Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!"                                                          
        E l se foi, muito contente da vida, comendo o po.
        -  Foi para onde? - indagou Emlia. - Para Angola?
        -  Sei l para onde o macaco foi! - respondeu tia Nastcia. - Para Angola no havia de ser, que  muito longe. Foi para o mato, que  a Angola dos macacos.
        -  Esperei que a histria acabasse melhor - disse Narizinho. - A esperteza do macaco para ganhar coisas est boa, apesar de que isso de dar parte do corpo 
em troca duma faca no me parece negcio. Mas o inventor da histria chegou no meio e no soube como continuar; por isso parou no po.
        
         -  , sim - concordou Pedrinho. - Ele devia fazer o macaco ir ganhando coisas de valor cada vez maior, para mostrar que com esperteza uma pessoa consegue 
tudo quanto quer na vida. Mas o pobre macaco fazia os negcios e ia ficando na mesma. Saa perdendo sempre.
         -  Bobinho! - exclamou Emlia. - Dar a cauda por uma faca ordinarssima, que quebra ao cortar um cip, parece-me o pior negcio do mundo. Depois trocou 
a faca por um balaio velho e podre. Outro negcio pssimo. E acabou trocando o balaio por um po. Comeu o po e ficou sem balaio, sem faca e sem cauda. Isso  mesmo 
o que se chama "negcio de macaco". E ainda acham que macaco  bicho ladino! - observou a menina.
         -  No - disse dona Benta. - Nas histrias populares o mais ladino no  o macaco, sim a raposa e o jabuti. A raposa, ladinssima, sai ganhando sempre. 
Chegou a ficar o smbolo da esperteza. Quando queremos frisar a manha dum poltico,  dizemos:   uma raposa velha! E o jabuti,  no  sei  por que,  tambm ficou 
com fama de fino. O macaco, coitado, faz suas espertezas mas nem sempre sai ganhando. Esse de tia Nastcia, por exemplo. L foi, muito contente da vida, a comer 
o po - mas no se lembrou de que estava sem cauda.
         -  Tolinho! - gritou Emlia. - Quando for trepar a uma rvore  que ver a asneira que fez. Macaco sem cauda  macaco aleijado. Eles fazem na floresta aqueles 
prodgios de agilidade justamente por causa da cauda. Idiota!
         
         
         
      XXII
      
      O macaco e o coelho
        
        Um macaco e um coelho fizeram a combinao de um matar as borboletas e outro matar as cobras. Logo depois o coelho dormiu. O macaco veio e puxou--lhe as 
orelhas.
        -  Que  isso? - gritou o coelho, acordando dum pulo.
        O macaco deu uma risada.
        -  Ah, ah! Pensei que fossem duas borboletas...
        O coelho danou com a brincadeira e disse l consigo: "Espere que te curo."
        Logo depois o macaco se sentou numa pedra para comer uma banana. O coelho veio por trs, com um pau, e lept! - pregou-lhe uma grande paulada no rabo.
        O macaco deu um berro, pulando para cima duma rvore, a gemer.
        -  Desculpe, amigo - disse l debaixo o coelho. - Vi aquele rabo torcidinho em cima da pedra e pensei que fosse cobra.
        Foi desde a que o coelho, de medo do macaco vingar-se, passou a morar em buracos.
        
         -  Bravos! - exclamou Emlia. - Gostei da historinha. Vale por todas as outras que tia Nastcia contou. Est bem engraada. Viva o coelho!
         -  E tambm nesta o macaco sai levando na cabea -  observou  Narizinho.  -  O   coelho, que  um coitado, mostrou-se mais inteligente.
         -  Por que mais inteligente? - contestou o menino. - Mostrou-se, sim, mais mau, porque o macaco apenas lhe puxou as orelhas e ele moeu o rabo do macaco.
         -  A inteligncia do coelho veio depois - disse Narizinho - quando tratou de morar em buraco para livrar-se da vingana do macaco.
         -  Pois  - observou Emlia. - Apesar da sua fama de inteligente e esperto, e de av do homem,  o macaco, pelo menos nas histrias, nem sempre fica de cima.
        
        
         -  Vocs precisam ler - disse dona Benta - as histrias de macacos que Rudyard Kipling conta  naquele  livro  de  Mowgli,  o  Menino Lobo. Esses macacos 
de Kipling so os Bandarlogs, nome de  certos macacos da ndia.  Os outros animais os desprezam, por causa da sua leviandade, da sua falta de seriedade, das suas 
molecagens. So uns perfeitos louquinhos, os macacos.
         -  At parecem homens - disse Emlia, que fazia muito pouco caso nos homens.
         -  Macaco  bobo - disse tia Nastcia - mas s vezes acerta a mo e sai ganhando - como aquele que logrou a ona.
         -  Conte, conte, pediram os meninos. E tia Nastcia contou a histria de
         
         
         
      XXIII
      
      O macaco e o alu
        
        Um macaco, uma vez quis fazer alu, mas estando sem dinheiro para comprar milho...
        Narizinho interrompeu-a:
        -  Que histria de alua  essa?
        -   uma petisqueira l do Norte, que se faz de milho. Mas o macaco, que no tinha dinheiro para comprar milho, armou um plano. Foi  casa do galo, onde 
comprou um litro de milho para pagar em tal dia e tal hora. Foi  casa da raposa, onde comprou outro litro para pagar a tal dia e tal hora - e marcou uma hora,, 
meia hora depois da hora marcada para o galo. Depois foi  casa do cachorro, onde comprou outro litro de milho para pagar meia hora depois da hora marcada para o 
pagamento  raposa. E na casa da ona comprou outro litro de milho para pagar meia hora depois da hora marcada para o pagamento ao cachorro.
        E muito contente da vida com os quatro litros de milho arranjados a crdito, o nosso macaquinho foi para casa fazer uma poro de alua, que guardou num pote. 
Depois armou um jirau bem alto e deitou-se em cima, de cabea amarrada com um pano, como quem est com dor de dente.
        Na hora do primeiro pagamento apareceu o galo.
        -  Ento, que  isso macaco? Doente assim?
        -  Estou que no posso comigo de tanta dor de dente - respondeu o macaco. - Abanque-se e sirva-se do alua a do pote.
        O galo sentou-se e comeou a servir-se do alua. Nisto apareceu l no terreiro a raposa, que vinha cobrar o litro de milho vendido. O galo ficou com a crista 
branca de medo.
        -  No se assuste, compadre - disse o macaco. - Esconda-se ali no cantinho.
        O galo foi e escondeu-se. Entra a raposa. O macaco, depois de contar a sua doena, manda a raposa servir-se de alua.
        -  Coma, coma, comadre, que est timo. O compadre galo j se regalou.
        -  Qu? - exclamou a raposa. - O galo andou por aqui?
        -  Ali est ele! - disse o macaco, apontando para o cantinho onde o pobre galo se escondera.
        E a raposa foi e comeu o galo. Nisto apontou no terreiro o cachorro. A raposa tremendo de medo, escondeu-se num canto. O cachorro entrou, muito amvel.
        -  Pois  - disse o macaco - estou to doente que nem posso descer da cama. Mas v se servindo de alua, compadre cachorro. Est muito bom. A raposa comeu 
de lamber os beios.
        -  Qu? A raposa esteve aqui?
        -  No esteve, est! - respondeu o macaco, e apontou para o canto onde a pobre raposa se escondera.
        E o cachorro foi e comeu a raposa. Nisto apontou a ona no terreiro. Entrou. Soube da doena do macaco, e tambm, a convite dele, se serviu do alua.
        -  Coma,  comadre.  O cachorro disse que est da pontinha.
        -  Qu? Esteve o cachorro por aqui? O macaco piscou, apontando o cantinho onde estava escondido o pobre cachorro e a ona foi e comeu o cachorro.
        -  Bem, macaco - disse ela depois da festana. - Vamos agora ajustar nossas contas. Quero receber o dinheiro do meu milho.
        -   boa!  - exclamou o macaco.  - Pois ento a comadre entra aqui, serve-se do meu alua, come um cachorro que tinha comido uma raposa que tinha comido um 
galo, e ainda tem coragem de querer receber o dinheiro dum litro de milho cheio de caruncho?
        A ona, furiosa, deu um pulo para pegar o macaco; mas este saltou do jirau para cima duma rvore e ficou a rir-se da lograda.
        -  Deixe estar, macaco, que voc me paga! - rosnou ela, e l se foi ruminando a vingana.  Chamou as outras onas e combinou que ficariam tomando conta do 
riozinho que havia ali, de maneira que o macaco no pudesse beber.
        O macaco ficou atrapalhadssimo. A sede veio, e sede  coisa que nenhum animal agenta. Como fazer? Nisto viu uma cabaa de mel. Teve uma lembrana. Lambuzou-se 
de mel e rolou sobre um monte de folhas secas ficando transformado no Bicho-Folhagem, que ningum sabia o que era. E l se foi para o riozinho, beber gua.
        Bebeu, bebeu  vontade, bem na vista das onas, que olhavam para aquilo com rugas na testa. Depois de bem saciada a sede, sacudiu-se das folhas e dum pulo 
alcanou um galho de rvore, gritando para as onas desapontadssimas: "Piticau! Piticau!..."
        -  Deixa estar que voc me paga! - disse a ona, e ps-se a imaginar outro meio de pegar o macaco. Abriu um grande buraco, entrou dentro e deitou-se de costas, 
ficando com a boca arreganhada, como armadilha; e pediu s outras que a cobrissem de folhas secas para que o macaco no desconfiasse.
        O macaco veio vindo. Mas ao ver aqueles dentes arreganhados no meio das folhas secas, desconfiou.
        -  Cho com dentes? Est aqui uma coisa que nunca imaginei. Mas dente de cho h de gostar de comer pedra - e, zs! jogou uma grande pedra dentro da boca 
da ona.
        A ona morreu engasgada e o macaco l se foi, muito satisfeito da vida.
        
         -  Ora at que enfim apareceu um macaco esperto! - exclamou Narizinho. - Esse era dos tais de circo, como dizem, mais matreiro que uma raposa.
         -  A histria deve estar errada - disse Emlia. - Em vez de macaco devia ser uma raposa. S  as  raposas  tm  idias  assim.  Mas  gostei. Est bem arrumadinha. 
Grau dez.
         -  Notem - disse dona Benta - que a maioria das histrias revelam sempre uma coisa: o valor da  esperteza.  Seja o Pequeno Polegar, seja a raposa, seja 
um macaco como este do alua,  o esperto sai sempre vencedor. A fora bruta acaba perdendo - e isto  uma das lies da vida.
         -  J observei esse ponto, vov - disse Pedrinho. - Todas as histrias frisam uma coisa s - a luta entre a inteligncia e a fora bruta. A inteligncia 
no tem muque, mas tem uma sagacidade que no fim derruba o muque.
         -  E  a gente quer que seja assim - disse Emlia. - Se vier um conto em que a fora bruta derrota a inteligncia, os ouvidores so at capazes de dar uma 
sova no contador.
         -  E  a histria  perderia  completamente  a graa - disse Narizinho. - Que graa tem, por exemplo, que um touro vena uma lebre? Ne-nhumssima. Mas quando 
uma lebre vence um touro, a gente, sem querer, goza.
         -  Por isso vivo eu dizendo que a esperteza  tudo na vida - gritou a boneca. - Se eu tivesse  um filho,  s  lhe  dava  um  conselho: Seja esperto, Emilinho!
         
         
         
      XXIV
      
      O macaco, a ona e o veado
        
        Uma vez uma ona convidou um veado para ir com ela  casa dum compadre. Foram. Como houvesse no caminho um ribeiro a atravessar, a ona enganou o veado, 
dizendo  que  no  tivesse  medo,
        pois era gua rasinha. O veado meteu-se no ribeiro e quase se afogou.
        Seguiram. Vendo umas bananeiras logo adiante, a ona props:
        -  Amigo veado,  vamos comer bananas. Voc sobe e pega as verdes, que so as melhores, e me atira as amarelas, que no valem nada.
        O veado subiu, jogou as amarelas para a ona e ficou com as verdes, que no pde comer. Desceu coro o estmago no fundo, enquanto a ona arrotava de gosto.
        Seguiram. Adiante encontraram uns trabalhadores capinando a roca. A ona disse:
        -  Amigo veado, quem passa junto daqueles homens deve dizer: "Que o diabo os carregue!"  uma saudao que deixa os homens contentssimos.
        O bobo do veado foi e disse aos trabalhadores: "Que o diabo os carregue!" mas os homens, furiosos, soltaram-lhe os cachorros em cima e quase o pegaram. J 
a ona ao passar por eles, o que disse foi: "Deus ajude a quem trabalha!" E os homens, muito satisfeitos com a frase, deixaram-na passar sossegadamente.
        Adiante a ona viu uma cobrinha coral.
        -   Olhe, amigo veado, que lindo colar vermelho. Leve-o para pr no pescoo de sua filha.
        Assim que o veado foi pegar aquilo, a cobra deu-lhe um bote, que por um triz o no alcanou.
        Finalmente chegaram  casa do compadre. Era quase noite, de modo que depois duma prosinha trataram de dormir. O veado armou uma rede a um canto e logo ferrou 
no sono. A ona, ento, foi p ante p ao curral, comeu uma ovelha e trouxe uma cuia de sangue, que derramou em cima do veado. Depois deitou-se e dormiu regaladamente.
        De manh o compadre foi ao curral e percebeu que lhe haviam comido uma ovelha. Desconfiou logo da ona.
        -  Eu,  comer sua ovelha, compadre?
        Que idia! Olhe como estou sem o menor sinal de sangue. Talvez fosse o veado... O compadre olhou para o veado e o viu todo sujo de sangue.
        -  Ah, ladro! - e deu-lhe de cacete at matar.
        A ona despediu-se do compadre e l se foi, muito lampeira.
        Dias depois convidou o macaco para outra visita ao compadre. O macaco aceitou. Foram. No ribeiro a ona veio com a mesma histria:
        -  Passe sem medo, macaco. A gua  rasinha.
        Mas o macaco, que tinha sabido da histria do veado, no foi na onda.
        -  Nada! - disse ele. - Passe voc primeiro, para eu ver se a gua  mesmo rasinha como diz - e a ona no teve remdio seno passar na frente.
        L nas bananeiras o macaco subiu, mas comeu todas as amarelas e  ona s deu as verdes. Furiosa do logro, a ona foi pensando: "Ah, bicho duma figa! Eu 
ainda acabo lanhando esse lombo com as minhas unhas!"
        Quando chegaram  roa dos trabalhadores, a ona avisou:
        -  Escute,   macaco.   A   saudao   que esses homens gostam  assim:  "O diabo leve quem trabalha!" - mas ao passar por eles o macaco disse  coisa diversa: 
"Deus ajude a quem trabalha!" - e os homens, deixaram-no passar.
        Quando encontraram a cobrinha e a ona lembrou que era um timo colar para a mulher do macaco, este respondeu:
        -  Est me  parecendo  muito melhor para pulseira de uma filha de ona! - e no quis saber de pr a mo na cobra.
        Chegaram por fim  casa do compadre. Depois duma prosinha foram deitar-se. O macaco, sabido, armou sua rede bem alto; deitou-se e fingiu dormir. A ona 
foi ao curral e comeu outra ovelha, vindo com a cuia de sangue lambuzar o macaco. Mas este arrumou com o p na cuia, de modo  que  o  sangue  caiu  em  cima da ona.
        Indo pela manh ao curral, o compadre deu pela falta da ovelha.
        -  Que coisa esquisita! Sempre que a ona vem c, desaparece-me uma ovelha...
         foi para casa, furioso da vida. Deu com a ona roncando - fingindo que dormia, mas l do alto de sua rede o macaco apontava para ela, dizendo:
        -  Veja como est barreadinha de sangue.
        -  Desta vez me paga! - gritou o compadre, e apontando a espingarda, pum! -  matou a ona. 
        
         -  Nas histrias populares - disse dona Benta-o papel da ona  sempre desastroso. Personifica a fora bruta, a traio, a crueldade. Os contadores vingam-se 
dela ser assim, fazendo-a perder todas as partidas.
         -  Est claro - disse Emlia. - No tinha graa nenhuma se a ona acabasse vencendo. Ela  bruta,  m,  cruel; logo, tem de ser castigada - pelo menos 
nas histrias.
         -  E o pobre veado? - lembrou Narizinho.
         - J ouvi vrias histrias de veado e at tenho d. Uns bobinhos completos. No h nenhuma em que se atribua a menor inteligncia aos veados. Acabam sempre 
comidos.
         -  Veado, ovelha e outros animais no passam de carne com quatro ps - disse Pedrinho.
         -  Inteligncia no existe em suas cabecinhas, nem para lograr a ona, que  o mais estpido dos animais. Eu at me rio quando ouo uma ovelha fazer: B! 
Que bichos bobos! S servem mesmo para dar l e costeletas.
         -  Isso no - protestou Emlia. - Quando os homens querem um smbolo de meiguice, de que se lembram? Dos cordeirinhos. S. Joo andava com um no brao.
         -  Bom, S. Joo era um santo, era diferente dos outros homens. Quando esteve no deserto s passava a gafanhotos, coisa que ningum come. Juro que no comeu 
o cordeirinho que trazia no brao. Mas o resto da humanidade, nem  bom falar! Elogiam os cordeirinhos, sim, senhor.  "Que beleza!   Que  encanto!" - mas passam-lhes 
a faca no pescoo e comem-nos.
         -  U! - exclamou tia Nastcia. - Pois para que   serve   carneiro   seno   para   ser   comido? Deus fez os bichos cada um para uma coisa. A sina dos 
carneiros  a panela.
         Emlia danou.
         -  Bem se v que  preta e beiuda!  No tem  a menor filosofia,  esta diaba. Sina  o seu nariz, sabe? Todos os viventes tm o mesmo direito  vida, e 
para mim matar um carneirinho  crime ainda maior do que matar um homem. Facnora!...
         - Emlia, Emlial - ralhou dona Benta.
         A boneca botou-lhe a lngua.
         
         
         
         
      XXV
      
      O veado e o sapo
      
        Um veado e um sapo queriam casar com a mesma moa. Para decidirem a questo fizeram uma aposta.
        -  Temos aqui esta estrada compridssima. Vamos correr - props o veado. - Quem chegar primeiro, casa com a moa.
        O sapo concordou, e marcaram a prova para o dia seguinte.
        O veado saiu dali dando boas risadas. Um pobre sapo ter a pretenso de apostar corrida com quem? justamente com ele, que era o animal de maior velocidade 
que existe! Ah, ah, ah!...
        Mas o sapo usou da esperteza. Reuniu cem companheiros, aos quais contou o caso, combinando o seguinte: de distncia em distncia,  beira da estrada, ficaria 
escondido um sapo, com ordem de gritar Gulugubango, bango, l, sempre que o veado passasse por ele e cantasse Lacul, lacul, lacul. Enquanto isso, o sapo apostador 
ficaria, no maior sossego, esperando o veado no fim da estrada.
        Assim foi. Chegada a hora da corrida, o veado disparou que nem uma bala. Cem metros adiante cantou o Lacul, certo de que o sapo, l atrs, nem ouviria. 
Mas com grande assombro ouviu a resposta adiante dele: Gulugubango, bango, l.
         -  Ser possvel? - pensou consigo o veado, e deu maior velocidade s canelas. Voou mais cem metros e cantou: Lacul, lacul, lacul, e ouviu adiante a 
resposta: Gulugubango, bango, l.
        O veado comeou a suar frio. Deu ainda maior velocidade s pernas, avanando mais duzentos metros, rpido como o relmpago - e cantou o Lacul. Mas ouviu 
pela terceira vez, adiante, o Gulugubango, bango, l.
        E desse modo at o fim da estrada, onde, mais morto que vivo, com as pernas  a  tremerem  do  grande  esforo,   o veado cantou pela ltima vez, com voz 
de quem no agenta mais: La... eu... l... Mas ouviu de novo a voz descansada do sapo, que respondia, adiante, sossegadamente: Gulugubango, bango, l. Fora vencido.
        O veado jurou vingar-se. Na noite do casamento foi ao quintal do sapo e encheu de gua fervendo a lagoa onde ele nadava. Altas horas o sapo teve saudades 
da lagoa e veio tomar seu banho. Tchi-bum! - pulou dentro e morreu escaldado. O veado, ento, muito contente da vida, casou-se com a viva.
        
         -  Ora, at que enfim aparece um veado esperto! - gritou Emlia.
         -  Esperto e perverso - disse Narizinho. - ; Bem   merecia  ser   comido  pela   ona.   Pobre sapo!
         -  Isso no! - contrariou Pedrinho. - Desde que o sapo logrou o veado, o veado ficou com direito de pagar na mesma moeda.
         -  Mas pagou em moeda diferente - disse a menina. - Se ele se limitasse a enganar o sapo, estava bem. Mas matou-o. Isso foi crueldade.
         -  Mas tambm quem manda sapo casar com moa? - observou Emlia. - Sa com sa, mo com mo, diz o ditado.
         -  Que ditado  esse, Emlia?
         -  Sapo com sapa,  moo com moa.  Sapo que encasqueta casar-se com moa, s mesmo cozinhado em gua fervendo.
         -  E no se casou com ela o veado?
         -  Bom, isso  diferente. Veado  um animalzinho dos mais bonitos. Mas sapo... - e Emlia deu uma cuspida de nojo.
         
         
         
      XXVI
      
      A ona e o coelho
        
        A ona havia plantado uma roa, onde nasceu muita urtiga. A ona ficou atrapalhada. Nem entrar na roa podia, porque a urtiga arde muito. Foi ento e chamou 
os animais da floresta.
         
        -  Quem me capinar esta roa sem se coar ganha um boi - disse ela.
        O macaco se prontificou a fazer o servio. Mas assim que deu comeo  capinao, coou-se tanto que a ona o tocou de l.
        Veio o bode, que tambm se cocou com o chifre. A ona tocou o bode.
        Por fim apresentou-se um coelhinho. "Esta  boa!" - disse a ona. - "Se nem o macaco e o bode puderam capinar a roa, que espera fazer este bichinho?" Mas 
como o coelho insistisse, consentiu.
        A ona ficou fiscalizando o servio para ver se ele se cocava; depois cansou-se daquilo e deixou uma sua filha no lugar.
        O coelho, que no podia mais de tanta comicho, teve uma idia. Voltou-se para. a filha da ona e perguntou: "Escute: aqui, oncinha, o tal boi que sua me: 
prometeu no  um boi malhado, com uma mancha amarela aqui (e dizendo isso cocava a perna), e outra aqui (e cocava o lombo) e outra aqui (e cocava o focinho)?
        A oncinha, muito boba, respondeu que era. O coelho prosseguiu no trabalho, e quando a comicho apertou demais veio novamente perguntar se o boi no tinha 
tambm urna mancha amarela em tal e tal parte - e cocava ali. E desse modo conseguiu capinar a roa inteira, ganhando o boi.
        Mas a ona imps uma condio.
        -  Compadre coelho, dou o boi, mas voc s poder mat-lo num lugar onde no houver moscas, nem galo que cante, nem galinha que cacareje.
        O coelho, concordando, l se foi com o boi em procura dum lugar onde pudesse mat-lo. Andava um pedao, parava, escutava e sem tardana ouvia um cocoricoc!
        -  Aqui no serve. Tem galo - e seguia para adiante.
        E foi andando at que chegou a um lugar onde no havia mosca nenhuma, nem se ouvia nenhum coricoc. Ento matou o boi. Nisto surge a ona.
        -  Compadre coelho - disse ela - um boi  muita coisa para voc. Passe para c um pedao.
        O coelho deu-lhe um pedao, que a ona devorou num segundo.
        -  No chegou  para matar a minha fome, compadre. Passe para c outro pedao - e o coelho deu outro pedao. Por fim a ona devorou o boi inteirinho.
        O coelhinho voltou para casa muito triste, com o faco na cintura. Ia pensando num meio de vingar-se da ona. Teve uma idia. Entrou no mato e ps-se a cortar 
cip. Aparece a ona.
        -  Que   est   fazendo   a,   compadre coelho?
        -  Estou tirando cips. Como Deus vai castigar o mundo com  uma  tremenda ventania, preciso de cip para me amarrar a um tronco de rvore.
        A ona, amedrontadssima, pediu:
        -  Nesse   caso,    amarre-me   tambm, compadre.
        -  No posso - disse o coelho fingida-mente. - Tenho de ir para casa amarrar meus filhinhos.                                      
        -  Amarre-me primeiro, pediu a ona, e depois v amarrar seus filhinhos.
        O coelho cocou a cabea; por fim disse:
        -  Est bem, comadre ona: como prova de amizade vou fazer esse grande favor - e amarrou-a com todos os cips, deixando-a impossibilitada do menor movimento.
        -  Bom - disse ele ao concluir o servio - a comadre est to bem amarradinha que nem o maior dos furaces  capaz de arranc-la da - e foi-se embora, a 
rir.
        Passado algum tempo a ona, vendo que no vinha vento nenhum, desconfiou. "Querem ver que fui tapeada pelo tal coelho? Como agora livrar-me deste amarramento?" 
        Vinha vindo um macaco.
        -  Amigo macaco, faa o favor de tirar de mim estes cips.
        Mas o macaco, sabido que era, apenas disse: "Deus ajude a quem te amarrou", e foi-se embora.
        Apareceu um veado.
        -  Amigo veado, faa o favor de desamarrar-me, pediu a ona.
        O veado, apesar de burrinho, deu a mesma resposta do macaco, e l se foi.
        Veio o bode, e aconteceu a mesma coisa.
        Passadas algumas horas, o coelho foi espiar como ia indo a ona.
        -  Compadre  coelho,  viva!   O  vento no aparece e eu estou que no posso mais. Venha desamarrar-me.
        O coelho, com d dela, ps-se a desenrolar os cips. Assim que a malvada se viu livre, nhoc! deu-lhe um pega. Mas o coelho alcanou dum pulo um buraco; mesmo 
assim a ona agarrou-lhe um p. O coelho caiu na risada.
        -  Ah, como  tola a minha comadre ona! Agarrou uma raiz de pau e est pensando que  meu p. Ah, ah, ah!...
        A ona, desapontada, soltou as unhas, pensando mesmo que houvesse ferrado uma raiz de pau. O coelho afundou no buraco.
        Uma gara veio pousar ali perto. A ona chamou-a.
        -  Comadre gara - disse ela - bote sentido nesta cova enquanto eu vou buscar uma enxada. No deixe o coelho sair.
        A gara ficou na rvore, com os olhos no buraco. O coelho disse:
        -  Que grande tola! Ento  assim que gara toma conta de buraco onde est um coelho?
        -  Como devo fazer ento? - perguntou a bobinha.
        -  Ora, ora! Tem de vir aqui e ficar com o bico dentro do buraco.
        A gara desceu da rvore e enfiou o bico no buraco. O coelho atirou-lhe aos olhos um punhado de areia e escapou.
        Nisto veio a ona com a enxada. Cavou, cavou at l no fundo e nada de coelho.
        -  Comadre gara,   que fim levou  o coelho que estava aqui?
        -  No sei - respondeu a tola. - Ele me mandou que enfiasse o bico no buraco. Assim que enfiei o bico, me botou nos olhos uma areia. Fiquei cega e nada mais 
vi.
        A ona, furiosa, deu um bote na gara, que l se foi voando, muito fresca da vida.
        
         -  Boa,  boa - disse Emlia.  - Estou gostando mais destas histrias de bichos do que das de reis e Joozinhos.
         -  Estas histrias - explicou dona Benta - foram criadas pelos ndios e negros do Brasil - pela gente que vive no mato. Por isso s aparecem animais, cada 
um com a psicologia que os homens do mato lhe atribuem. A ona, como  o animal mais detestado, nunca leva a melhor em todos os casos.  lograda at pelos coelhos.
         -  E h invenezinhas engraadas nessa histria - observou a menina. - O jeito do coelho enganar a filha da ona, com tais perguntas sobre as manchas do 
boi, est muito interessante. Acho que tia Nastcia s deve contar histrias assim. Das outras, de prncipes, estou farta.
         -  Pois ento vou contar a histria do pulo do gato, - disse tia Nastcia- e contou.
         
         
         
      XXVII
      
      O pulo do gato
      
      
        A ona pediu ao gato que lhe ensinasse a pular, porque o maior mestre de pulos que h no mundo  o gato. O gato ensinou uma, duas, trs, dez, vinte qualidades 
de pulos. A ona aprendeu todos com a maior rapidez e depois convidou o gato para irem juntos ao bebedouro, isto , ao lugar no rio onde os animais descem para beber. 
        L viram um lagarto dormindo em cima duma pedra.
        - Compadre gato - disse a ona - vamos ver quem dum pulo pega aquele lagarto.
        -  Pois vamos - respondeu o gato.
        -  Ento comece.
        O gato saltou em cima do lagarto e a ona saltou em cima do gato - mas este deu um pulo de banda e se livrou da ona.                      
        A ona ficou muito desapontada.
        -  Como  isso, compadre gato? Esse pulo voc no me ensinou...
        -  Ah, ah, ah! - fez o gato de longe.
        -  Isto  c segredo meu que no ensino a ningum. Chama-se o "pulo do gato"
        - meu, s meu. Os mestres que ensinam tudo quanto sabem  no passam duns tolos. Adeus, comadre! - e l se foi.
        
         -  Ah! - exclamou Pedrinho. - Agora estou compreendendo por que se fala tanto no "pulo do gato"...
         -  Mas  pulam mesmo assim ou  histria da histria? - perguntou a menina.
         -  No h pulo que os gatos no dem - disse dona Benta. -  um bichinho maravilhoso. J vi o Romo cair dum telhado altssimo. Outro bicho qualquer se 
espatifaria. Romo, porm, deu uma volta no ar e caiu sobre as quatro patas - e l se foi, ventando, sem que nada lhe acontecesse.
         -  Mas  se o gato  da mesma famlia da ona - observou a menina - tudo o que o gato faz a ona tambm deve fazer.
         -  Sim, mas o gato  pequeno e portanto tem  agilidade  muito  maior que  a da  ona. Quanto pesa um gato? Um quilo, apenas. E uma ona? Cem vezes mais. 
Natural, portanto, que por causa do peso maior a ona no seja capaz de fazer o que o gato faz.
         -   verdade, vov - perguntou Pedrinho
         -  que os polticos espertos usam o pulo do gato?
         Dona Benta suspirou.
         -  Os polticos matreiros, meus filhos, so os gatos da humanidade. Do toda sorte de pulos
         -  e sabem muito bem essa histria de cair de p. H alguns entre ns que podem dar lies a todos os gatos do mundo...   
              2
                             
      
      XXVIII
      
      O doutor Botelho
        
        Havia  um  carpinteiro  muito  pobre, que morava num casebre de tbua. Certa vez apareceu por l um macaco pedindo agasalho. O carpinteiro respondeu que 
sua casinha era muito pequena, mas estava s ordens. O macaco ficou morando com o homem.
        Um dia o macaco entrou em casa com os bolsos cheios de moedas de ouro e prata.
        -  Onde arranjou isso, macaco? - perguntou o homem, de olhos arregalados.
        -  Foi o rei que me deu - disse o macaco. - Fui visit-lo em seu nome, com um presente, e o rei me deu tudo isto.
        -  E que presente levou ao rei, macaco?
        -  Veadinhos. Assobiei na floresta; vieram   cem  veadinhos   que   levei   ao  rei. Qualquer dia vou levar-lhe outro presente.
        E assim foi. Na manh seguinte o macaco chegou  beira do rio e ps-se a assobiar. Vieram inmeras garas, que ele convidou a irem com ele ao palcio do 
rei, numa procisso, duas a duas. O rei achou lindo aquilo e perguntou quem tinha tido a idia.
        -  Foi o doutor Botelho, amigo do macaco da bota do jabotelho - respondeu o bichinho.
        O rei agradeceu a lembrana e disse--lhe que fosse  Casa da Moeda receber dinheiro.
        O macaco foi e encheu um alforje de moedas de ouro que levou ao homem.
        Dias depois o macaco voltou  floresta e assobiou. Vieram inmeros coelhos, que o macaco levou de presente ao rei, dizendo ser outro presente do doutor Botelho.
        O rei, muito admirado, mostrou desejo de conhecer esse doutor to rico. O macaco respondeu que o doutor Botelho era um homem muito acanhado que no visitava 
ningum; mas que se o rei quisesse conhecer as suas riquezas, ele, macaco, as mostraria.
        O rei montou a cavalo e saiu com o macaco na garupa. Passaram por muitas fazendas, e o macaco dizia sempre: "Isto  aqui  do doutor Botelho." Afinal, cansado 
de ver as fazendas do doutor Botelho, o rei voltou ao palcio.
        
        
        
        O macaco, ento, disse ao rei que estava com vontade de falar uma coisa, mas sentia acanhamento.
        -  Fale - ordenou o rei - e o macaco disse que o doutor Botelho havia mandado pedir em casamento a filha de Sua Majestade.
        Tratando-se dum homem to rico, dono de tantas e to lindas fazendas, o rei no teve dvida em dar-lhe a filha em casamento.
        -  Diga ao doutor Botelho que sim, que lhe concedo a mo de minha filha - e voc, macaco, v  Casa da Moeda buscar mais ouro.
        O macaco foi e encheu vrios alforjes. Quando chegou  casa do carpinteiro com tudo aquilo, o pobre homem abriu a boca. E mais ainda quando soube que estava 
noivo da princesa, filha nica dum grande rei.
        -  Mas, macaco, como posso eu, um pobre diabo, que vive neste casebre de tbuas, pensar em casar-me com a filha do rei? Voc est louco?
        O macaco, porm, sossegou-o.
        -  No se incomode com coisa nenhuma; deixe tudo por minha conta.
        No dia marcado para o casamento o macaco preparou para o doutor Botelho um lindo cavalo e o fez montar. O carpinteiro mal podia consigo.
        -  Estou que quase caio do cavalo, de tanto medo, macaco.
        -  No seja bobo. J disse que deixe tudo por minha conta.                  
        E tanto o macaco fez que deu com o carpinteiro no palcio real, onde se efetuou o casamento. Tinham agora os noivos de seguir para a casa do doutor Botelho 
- e como era? O pobre carpinteiro suava frio. Mas o macaco o animou: "No tenha medo de nada. Eu arranjo tudo."
        E arranjou mesmo. Quando os noivos, acompanhados dos grandes fidalgos da corte, chegaram ao casebre, no viram l casebre nenhum e sim um maravilhoso palcio, 
com grande criadagem de libre. Entraram. Estava arrumada a mesa dum banquete esplndido, com quanto doce havia e um grande cacho de bananas no centro.
        Ao ver as bananas o macaco esqueceu-se do seu papel e deu um pulo sobre a mesa. Aquilo de ser o escudeiro do clebre doutor Botelho era uma grande coisa 
- mas comer as bananas amarelinhas era melhor - e ps-se a comer as bananas.
        
         -  Essa histria - disse Narizinho -  uma corrupo da velha histria do Gato de Botas, que li nos Contos de Fadas do tal senhor Perrault. Mas como tia 
Nastcia contou est muito mais ingnua.
         -  Serve para mostrar como o povo adultera as histrias - disse dona Benta. - Neste caso do doutor Botelho vemos uma traduo popular do Gato de Botas.
         -  Mas  traduo  bem  malfeitinha -  disse Emlia. - Tudo na histria  daqui do Brasil, at o macaco e as bananas - com certeza banana-ouro, que  -a 
melhor - mas esse rei, que aparece sem mais nem menos, est idiota. No h reis por aqui. Em todo caso serve. Que se h de esperar da nossa pobre gente roceira?
         -  E a tal resposta do macaco ao rei: "Foi o doutor Botelho, amigo do macaco da bota do jabotelho?" Que significa isso? Que bota  essa?
         -  No significa coisa nenhuma - disse dona Benta. - Bobagem. O  tal jabotelho, que no  nada, est ali apenas para rimar com
         Botelho.                                                          
         -  E a bota?
         -  Essa bota foi o nico restinho que ficou das botas do Gato de Botas.
         -  Coitadinho do povo!  - exclamou  Emlia. - To ingnuo...
         
         
         
      XXIX
      
      A raposa e o homem
        
        Uma raposa foi deitar-se, fingindo-se de morta, no caminho por onde um homem ia passar. O homem chegou, parou e disse:
        -  Coitada da amiga raposa! Fez um buraco e enterrou-a.
        Assim que ele se afastou, a raposa saiu da cova e correu por dentro do mato at sair l adiante. Deitou-se de novo na estrada, sempre a fingir de morta.
        O homem chegou e disse:
        -  Oh, outra raposa! Coitadinha... Arredou-a da estrada, cobriu-a de folhas secas e l se foi.
        A raposa repetiu a manobra. Correu a deitar-se l adiante, no meio do caminho. O homem chegou e enrugou a testa.
        -  Quem ser que anda matando estas raposas?
        Mas no a enterrou, nem a cobriu de folhas secas. Deixou-a onde estava.
        A raposa pela quarta vez repetiu a manobra. Foi correndo deitar-se l adiante. O homem chegou, e vendo mais aquela disse: "O diabo leve tanta raposa morta!" 
E agarrando-a pelo rabo jogou-a no mato.
        A raposa ficou pensativa.
        -  Estou vendo que  um perigo abusar dos nossos benfeitores...      
                 
         -  Isto   uma histria moral - disse Pedrinho.
         -  Sim - concordou dona Benta. -  das tais que encerram uma lio. "No abuses!"  a lio que a gente tira da. A raposa abusou da bondade do homem - 
e se insistisse mais uma vez, o homem era capaz de dar-lhe um pontap que a matasse de verdade.
         -  E seria bem feito - disse Emlia. - Quem atropela desse modo os bons, merece pau.
         Depois dessa histria, Emlia gritou:
         -  Eu quero agora uma historinha bem bonita em que haja um pinto!
         Todos estranharam aquela exigncia.   
         -  Por que pinto e no galo ou um cachorro?
         -  perguntou Narizinho. E Emlia respondeu:
         -  Porque esta noite sonhei com um pinto sura que veio comer quirera na minha mo.
         E tia Nastcia contou a histria de um pinto sura.
         
         
         
         
      XXX
      
      O pinto sura
      
        Era uma vez um pinto diferente de todos os mais pintos do galinheiro. Que culpa tinha ele disso? Nenhuma. No entanto, todos judiavam dele - vejam s!
        -  porque era sura...
        O pobrezinho nem comer em paz podia. Na hora do milho, era zs! uma bicada daqui, zs! uma bicada dali, enquanto os outros, sossegadamente, enchiam o papo 
at estufar.
        E se apanhava algum bichinho, grilo ou i, era aquela certeza: a galinhada inteira punha-se a correr atrs dele at tomar o petisco.
        Por causa disso o pinto sura vivia sempre com fome, encolhidinho pelos cantos, magro e mandigera...
        Certo dia perdeu a pacincia. Um frangote carij, que andava de namoro com umas frangas amarelas, deu-lhe,  vista dessas meninas de penas, uma tal sova 
de bicadas que o deixou descadeirado. As frangas entusiasmaram-se com a valentia do carij, riram-se  grande do triste sovado que nem suster-se em p podia. E chegaram, 
mesmo, a compor um versinho:
        
         Foi saracura,                  
           pinto sura!                        
         Quem te pregou                 
         tamanha surra?    
                          
        O pinto, desesperado, resolveu queixar-se ao rei.
        -  Levo-lhe  uma  carta - pensou l consigo - e o rei h de atender-me. Depois, quero ver!...
        Procurou pelo cho uma carta.
        Bobinho como era, qualquer papelzinho para ele era carta.
        Achou logo um pedacinho de papel quadrado e, tomando-o no bico, partiu em direo ao palcio do rei. Levava ainda um embornal cheio de milho para ir manducando 
pelo caminho.
        Andou, andou, andou, at que deu com uma raposa sentada  beira do caminho com um cacho de uvas na mo.
        -  Bom dia, dona Raposa!
        -  Ora viva, pinto sura! Para onde vai com tanta pressa?
        -  Ao palcio do rei, entregar-lhe esta cartinha.
        -  Quer levar-me tambm?
        -  S se voc couber neste embornal...
        -  Caibo, sim! - disse a raposa, e com muito jeito acomodou-se dentro do embornal.
        -  Mas no me v comer o milho, hein? - recomendou o pinto, fincando o p na estrada.
        Andou, andou, andou, at que deu com um rio de guas muito limpas, cheio de peixinhos. Parou para beber, e estava glug! glug! quando o rio disse:
        -  Amigo sura, que vontade de ir viajar com voc!
        -  Pois vamos. J levo comigo a raposa e nada me custa levar tambm um rio. At  bom - porque no preciso parar no caminho quando tiver sede.
        -  Pois aceito o convite! - disse o rio. E, enrolando-se como um novelo, ajeitou--se dentro do embornal ao lado da raposa, a qual se encolheu toda e exclamou:
        -  Chispa!   Arreda  para  l,   que   me molha, senhor rio!
        -  Cuidadinho! - interveio o pinto. - No me vo brigar a dentro!... E o senhor rio que no me molhe o milho.
        Disse e continuou a viagem. E andou, andou, andou, at que deu com um espinheiro.
        -  Saia do meu caminho, ourio!  - intimou ele. - Saia da frente que quero passar!
        -  Hum!  Como est valente o pinto sura!... - retorquiu o espinheiro.        " i;
        -  Saia da frente, j disse! - repetiu o pinto engrossando a voz. - Saia da frente, seno...
        A raposa, ouvindo o bate-boca, espichou a. cabea para fora.
        -  Que  l isso? - perguntou.
        --  este espelho sem ao que no me quer dar caminho!... - berrou o pinto, furioso.
        A raposa virou-se para o espinheiro e props:
        -  Olhe, amigo, em vez de estar a cercando o pinto sura, muito melhor que viesse c dentro nos fazer companhia.
        -  Mas ser que caibo nesse embornalzinho?
        -  Como no? C est o milho, estou eu, est o rio e ainda h lugar para muita gente. O pinto sura vai ao palcio do rei tratar dum negcio muito importante...
        -  Nesse caso, vou tambm! - resolveu o espinheiro - e dobrando os espinhos encolheu-se todo e acomodou-se no embornal.
        O pinto, muito contente da vida, piou qui-qui-ri-qui-qui! - e l se foi, de papo empinado e cartinha no bico, como um grande figuro!
        De novo andou, andou, andou, at que, de repente, ao dobrar um espigo, viu l embaixo o palcio do rei, alumiando de ouro e prata. Aqui o pinto, assombrado 
de tanta beleza, parou, com receio de continuar a viagem. Mas para no perder tempo enquanto refletia, engoliu vinte gros de milho.
        -  Que leve a breca! - disse por fim. - Quem no arrisca, no petisca!
        E dirigiu-se, firme, na direo do palcio real.                                            
         L chegou de tardezinha. Cumprimentou os guardas e foi entrando, muito senhor de si.
        -  Epa! Que sem-cerimnia  essa? - perguntou-lhe um criado de farda verde.
        -  Que  que quer?
        -  Quero que no me aborrea! - respondeu o pinto, fechando a carranquinha. O criado abriu a boca, a pensar l consigo:  "Isto h de ser algum mgico disfarado 
em pinto!" E deixou-o passar.
        O amigo sura, ento, com toda a importncia, atravessou sales e mais sales at chegar  sala do trono, onde viu o rei, todo emproado, de coroa na cabea 
e cetro na mo. Aproximou-se dele, dobrou os joelhos e - qui-ri-qui-qui! - entregou-lhe a carta.
        O rei pegou no papelzinho, examinou-o de um lado e de outro; vendo que era um papel sujo apanhado no lixo, encheu-se de furor.                           
Voltou-se para os guardas:
        -  J com este pinto malcriado fora daqui! Ponham-no junto com as galinhas
        - e amanh, panela com ele!...
        O pobrezinho, agarrado pela asa, viu-se arrastado pelo palcio afora at um galinheiro onde vrias galinhas orgulhosas esperavam a vez de serem mastigadas 
pela real dentua de S. Majestade. Mal o viram, comearam a judiar dele, dando-lhe bicadas ainda piores que as do carij namorador.
        Mas o pinto lembrou-se de que trazia no embornal a raposa; e, tirando-a para fora, disse:
        -  Raposinha amiga: d um pega, dos bons, nestas emproadas!
        A raposa, incontinenti - zs, zs! - deu cabo de todas as galinhas e dos galos que vieram defend-las.
        Livre, assim, daqueles inimigos, o pinto sura mais que depressa saltou o muro e "abriu" para trs, com quantas pernas tinha.                             
        O rei, ao saber do acontecido, rebolou--se no cho de clera; depois deu ordem, aos berros, para que em perseguio do pinto partisse um regimento de cavalaria.
        O regimento partiu no galope - p-t--L!   p-t-l!   -   erguendo   nuvens   de poeira.
        Quando o pinto ouviu aquele tropel, tremeu de medo, com uma gota de suor frio na testa.
        -  Estou aqui, estou assado! - murmurou.
        -  Assado, nada! - falou de dentro do embornal uma voz. - Solte-me e ver.
        Era o rio quem falava. O pinto, criando alma nova, soltou-o; e o rio, desenrolando-se por ali afora, inundou os campos e deteve a soldadesca.
        Mas os soldados logo arranjaram canoas e conseguiram atravessar o rio.
        Ao v-los de novo galopando atrs dele, o pinto esfriou e disse:
        -  Estou aqui, estou em molho pardo!
        -  Molho pardo, nada! Solte-me e ver. '    Era o espinheiro quem falava.
        Mais que depressa o pinto soltou o espinheiro, o qual, arrepiando os espinhos, fechou a estrada como tranqueira que nem porco-do-mato vara.
        O pinto, vitorioso, subiu a um cupim e fez pito para os soldados. Depois encheu o papinho de milho e continuou a viagem, sossegadamente, ciscando bichinhos 
 beira da estrada.
        Quando deu acordo, tinha chegado. Mas aqui ficou triste.
        -  Pobre de mim!  - pensou. - Vai recomear a minha vida de animal judiado... Venci o rei, venci as galinhas do rei, venci os soldados do rei; mas pior que 
tudo isso  o malvado frangote carij deste galinheiro. Que ser de mim?
        Enchendo-se de nimo, porm, entrou no velho cercado onde nascera. Entrou ressabiado, com mil cautelas, espia de um lado, espia de outro.
        Mas aconteceu o que ele jamais esperara. As galinhas vieram rode-lo, muito amveis, com festinhas e olhares meigos. Quanto ao frango arreliento, nem sombra!
        -  Que  dele? - perguntou o sura.
        -  Foi para a panela - responderam as galinhas.                                      
        O pinto criou alma nova. Depois, olhando, olhando e no vendo o galo, indagou:
        -  E o galo esporudo?
        -  Morreu de gog - disse com lgrimas nos olhos uma bela poedeira.
        O pinto sura deu um pinote de alegria.
        -  E... e quem  o galo agora?
        -   voc, beleza!... - exclamaram todas as frangas em coro.
        S ento o sura compreendeu que a viagem tinha levado muito tempo e ele no era mais o pobre pinto que dali partira e sim um formoso galo, de crista no alto 
do coco e esporas apontando nos ps.
        Em vista disso pulou para cima dum jaca, estufou o papo e desferiu um canto de vitria:             
         C-c-ri-c-c! 
         Quem  o rei daqui?
        E a galinhada inteira respondeu: O galo sura s!
        O pinto j no era mais pinto, e sim um corajoso galo...
        
         Todos gostaram, sobretudo do pedao em que pegou um papelzinho do cho e disse que era carta.
         -  Bobinho, bobinho... - comentou Emlia. - Tal qual o pinto com que sonhei...
         
               3
      XXXI
      
      O jabuti e o homem
      
        Um jabuti estava em sua toca, tocando gaita. Um homem ouviu e disse: "Vou pegar aquele malandro" - e chamou: " jabuti!"
        -  Oi! - respondeu o jabuti.
        -  Vem c, jabuti.
        -  J vou - disse o jabuti - e botou a cabecinha na abertura do buraco.  O homem foi e agarrou-o e  levou-o para casa, onde o fechou numa caixa. No dia seguinte, 
de manh, antes de ir para o servio, disse aos meninos:
         -  No me vo soltar o jabuti, ouviram? - e foi trabalhar.
        O jabuti ps-se a tocar a sua gaitinha l dentro da caixa. Os meninos aproximaram-se, curiosos. Ele parou.
        -  Toque mais, jabuti - pediram os meninos.
        O jabuti respondeu:
        -  Vocs esto gostando da minha gaita. Imaginem se me vissem danar...
        Os meninos abriram a caixa para verem o jabuti danar. O jabuti saiu e danou pela sala.
        
         L, l, l, l...
         L, r, l, r... 
                        
        Depois pediu para dar um pulinho ao quintal.                                                   
         -  V, jabuti, mas no fuja.
        O jabuti foi ao quintal e fugiu para o mato.
        -  O jabuti fugiu! - gritaram os meninos. - Como ser agora?
        Um deles teve uma lembrana: botar na caixa uma pedra com a forma do jabuti, para enganar o pai.
        Assim fizeram.
         tarde o pai voltou da roa e disse' "Ponham a panela no fogo e preparem-me o jabuti."
        Os meninos obedeceram, pondo a pedra na panela. Quando chegou a hora do jantar, o homem sentou-se  mesa, lambendo os beios. Mas ao botar o jabuti no prato, 
viu que era pedra.                  
        -  Vocs deixaram o jabuti fugir!        
               Os  meninos  disseram  que  no,   mas nesse momento soou l no mato a gaitinha do fugitivo:
        
         Tim,  tim,  tim...        
         Ol, ol, ol...
        
        O homem foi l.
        -   jabuti!
        O jabuti respondeu: "Oi!" Por mais que o homem procurasse, no o achava.
        -  Vem c, jabuti!
        E o jabuti: "Oi!" Cada vez respondia dum lugar diferente, at que o homem danou e voltou para casa, muito desapontado. 
        
         -  S isso? - gritou Emlia. -  pouco...
         -  No,   tem  mais  coisas - respondeu  tia Nastcia. - H uma poro de histrinhas do jabuti, que  um danado de esperto. Ningum logra ele.
         -   verdade - disse dona Benta. - O jabuti, ou cgado, como o chamamos aqui no sul,  um animalzinho que muito impressiona a imaginao dos homens do mato 
- os ndios; da todo um ciclo de histrias do jabuti, onde ele   aparece   com   umas   espertezinhas   muito curiosas.
         -  E  mesmo uma galanteza - disse Narizinho - sobretudo  uns  verdes,  do   tamanho duma bolacha Maria. J vi dois em casa da me do Tnico.
         -  Mas so mesmo espertos como querem os ndios ou  histria? - indagou Pedrinho.
         -  O cgado parece que tem alguma inteligncia e que faz mesmo  umas coisinhas jeitosas.  Alm  disso  possui   aquela  casca  onde esconde a cabea e as 
pernas assim que se v em apuros. Isso deu aos ndios a idia de esperteza.
         -  Arranje,  vov,   arranje  um jabuti  para ns! - pediu a menina. - Deve ser to interessante...
         -  Hei de arranjar, mas agora vamos ouvir outras histrias dele. Continue, Nastcia.
         E tia Nastcia continuou.
         
         
      XXXII
      
      O jabuti e a caipora
      
      
        O jabuti entrou num oco de pau e comeou a tocar a sua gaitinha. A caipora, l longe, ouviu e disse: "No pode ser outro seno o jabuti. Vou agarr-lo."
        Veio vindo. Parou perto do oco, a escutar.
        
         Li, ri, li, ri... 
         L, r, l, r...
        
        -  Ol, jabuti!
        -  Oi! - respondeu o tocador de gaita.
        -  Saia do buraco, jabuti, para vermos qual de ns dois tem mais fora.
        O jabuti saiu, enquanto a caipora cortava um cip.
        -  Eu puxo uma ponta e voc outra
        -  eu em terra e voc n'gua.
        -  Pois vamos a isso, caipora - respondeu o jabuti.
        O jabuti entrou na gua e amarrou a ponta do cip no rabo dum pirarucu, que  o peixe de rio maior que h. A caipora, l em terra, puxou o cip - mas o pirarucu 
a arrastou para a beira d'gua; e como no tinha mais fora, foi puxando-a para dentro do rio. O jabuti, que j estava em terra, bem escondidinho no mato, ria-se, 
ria-se.
        No podendo mais de to cansada, a caipora gritou:
        -  Basta! Voc venceu.
        O jabuti, sempre a rir-se, entrou n'gua e foi desatar o cip do rabo do pirarucu. Em seguida voltou para terra.
        -    Est cansado, jabuti? - perguntou a caipora.
        -  Cansado, eu? Nem um tiquinho! - e a caipora viu mesmo que nem suado estava. No teve remdio seno confessar que o jabuti era mais valente do que ela
        -  e l se foi muito desapontada.
        
         -  Sempre a esperteza vencendo a burrice! - observou Emlia. - Mas que bicho caipora  esse?
         -  A caipora - explicou dona Benta -  um dos monstros inventados pela imaginao da nossa gente do mato. Vocs bem sabem que para o povo existem na natureza 
muito mais coisas do que os naturalistas conhecem, como lobisomens, sacis, mulas-sem-cabea que vomitam fogo pelas ventas e tambm caiporas.
         -  Mas como  a caipora?
         -  Dizem que  um bicho peludo que gosta muito de fumar. Cerca os viajantes nas estradas, de noite, para pedir fumo para o cachimbo. Descrever como  a 
caipora no  fcil, porque as coisas que s existem na imaginao do povo variam de lugar em lugar. Aqui  dum jeito, ali  do outro. Se querem saber como  a caipora, 
perguntem ao tio Barnab. S negro velho entende bem disso.     
        
                   
      XXXIII
      
      O jabuti e a ona
        
        Uma vez uma ona ouviu a msica da gaitinha do jabuti e aproximou-se.
        -  Como voc toca bem, jabuti!  De que  feita essa gaitinha?
        -  De osso de veado, ih! ih! - respondeu o cascudo.
        A ona, que estava querendo apanhar o jabuti; veio com um plano.
        -  Sou um pouco surda - disse ela. - Toque  mais  perto  da  abertura  do buraco.
        O jabuti apareceu na abertura do buraco e tocou, mas no melhor da festa a ona deu um bote para peg-lo. O jabuti afundou a tempo; mesmo assim ficou com 
uma pata nas unhas da ona.
        -  Ah, ah, ah! - riu-se ele. - Pensa que agarrou minha pata mas s pegou uma raiz de pau! Fiau!...
        A ona soltou as unhas, desapontada. O jabuti deu outra gargalhada.
        -  Grande boba! Era minha pata mesmo que voc havia agarrado. Fiau! Fiau!
        A ona jurou que no sairia da beira daquele buraco enquanto no apanhasse o jabuti - e ficou l at morrer de fome.
        
         -  Aparece  aqui aquele mesmo  truque do coelho com a ona - notou Emlia. - Quer dizer que a ona  to estpida que todos os animais a enganam do mesmo 
modo.
         -  S no acho direito - disse Narizinho - que a ona ficasse l at morrer. Por mais estpida que seja, isso  coisa que ona no faz. Os ndios que inventaram 
esse caso eram bem bobinhos.
         -  Eu sei mais histrias do jabuti - disse tia Nastcia.
         -  Pois ento conte.
         E ela contou a histria de       
        
        
      XXXIV
      
      O jabuti e a fruta
      
        Havia no mato uma fruta que nenhum bicho podia comer sem antes pronunciar o nome dela, e como s uma mulher sabia o nome da fruta, os bichos tinham de ir 
 sua casa perguntar o tal nome.
        -  Boioio-boioio-quizama-quizu - respondia a mulher, mas assim que o bicho ia saindo ela o chamava, dizendo: "Eu errei, amigo bicho. O nome no  esse,  
outro" - e dizia outro. Os bichos faziam grande confuso, de modo que ao chegarem  ao  p  da  fruta erravam  no nome.
        O jabuti resolveu comer a fruta. Ao saberem disso os outros animais caoaram.          
        -  Ora, logo quem! Se os mais pintados no conseguem decorar o nome, que  que espera aquele cascudo?
        Mas o jabuti foi  casa da mulher com a sua violinha e perguntou o nome da fruta.
        A mulher disse o nome, que ele imediatamente tocou na viola. Depois a mulher disse outro nome, e outro, e outro
        - e o jabuti ia tocando-os todos na viola at o ltimo, que era o certo. E foi tocando na viola aquele ltimo nome at chegar  rvore. Repetiu, ento, a 
palavra, certinho, ficando com direito  fruta.
        Nisto a ona se aproximou.
        -  Jabuti no sabe trepar em rvore
        -  disse ela. - Eu trepo para voc e em paga recebo algumas frutas.              
        O jabuti concordou. A ona trepou  rvore, encheu um saco e desceu sem dar nenhuma ao jabuti, que l se foi atrs dela.
        Chegando a um rio, disse ele  ona:
        -  Comadre ona, me d o saco para eu passar. Bem sabe que sou bom nadador. Voc passa depois.
        A ona deu-lhe o saco das frutas, que o jabuti levou s costas at a outra margem do rio - e l desapareceu com as frutas deixando a ona lograda.
        Furiosa com aquilo, a ona jurou vingar-se. Mas o jabuti, avisado, armou um plano. Foi esconder-se numa cova, bem embaixo da raiz em que a ona costumava 
descansar. Logo depois a ona veio e deitou-se.
        -  Jabuti,  amigo jabuti,   aparea!   - disse ela.
        E o jabuti respondeu de muito pertinho (dentro da cova): "Oi! Oi!"             
        A ona olhou duma banda e doutra, sem ver sinal de jabuti. Gritou de novo:
        -  Jabuti, onde est ?
        -  Oi! Oi! - foi a resposta.
        Vendo aquele som sair debaixo dela, a ona ficou desconfiada. Contou o caso a um macaco que vinha passando e pediu--lhe que desse uma sova em seu traseiro, 
por andar fingindo de jabuti.
        O macaco deu tanto no traseiro da ona que a matou - e o jabuti saiu da cova muito satisfeito
         - L, r, l, r...
        
          -  Arre, que  demais! - exclamou Narizinho.  -  Os  "historiadores"  pintam  as  onas ainda mais estpidas que os perus. Veja se ela havia de mandar 
que o macaco desse tamanha surra no seu traseiro...
         -  Ora, menina, voc est a pedir muito aos nossos pobres ndios. J eles fizeram alguma coisa pondo uma noo verdadeira nessa historinha.
         -  Que noo?
         -  A do jabuti botar em msica a tal palavra difcil para melhor guard-la na memria. Isso  muito certo. A toada musical ajuda a decorar.
         -  E que mania essa dos ndios, de fazerem o jabuti msico? Ora o descrevem com uma gaita, ora com uma violinha. Ser mesmo musical o jabuti?
         -  Coitadinho! Se h bicho que no nasceu para a msica  ele. Bobagem dos ndios. Fazem isso porque com a gaita ou a viola o jabuti  pode lograr mais  
facilmente  os  outros bichos.
         -  E h mais histrias de jabuti, Nastcia?
         -  H sim. Vou contar agora a de
         
         
      XXXV
      
      O jabuti e o lagarto
      
        Era uma ona que tinha uma filha no ponto de casar-se. Havia dois pretendentes: o lagarto e o jabuti. Para desmoralizar o rival, o jabuti andou dizendo que 
o lagarto no valia nada, que era bicho to -toa que ele jabuti at o usava como cavalo. Como a ona duvidasse, o jabuti ficou de aparecer montado no lagarto, e 
dar-lhe de chicote e espora na vista de todos.
        No dia seguinte o jabuti ficou  porta de sua casa com um leno amarrado na cabea. Chega o lagarto.
        -  Compadre jabuti, vou indo para a casa da ona. No quer ir comigo?
        O jabuti agradeceu o convite - mas ir como, se estava com uma dor de cabea furiosa?
        O lagarto insistiu, e ele:
        -  S poderei ir se algum levar-me s costas.
        -  Pois levo - disse o lagarto - mas h de descer longe da casa da ona. No quero que me vejam servindo de cavalo.
        -  Muito bem, compadre lagarto, mas montar em plo no d certo. Deixe-me botar em seu lombo o meu caquinho de sela.
        O lagarto protestou que no era cavalo para andar de sela s costas.
        -  Sei que no  cavalo, compadre, mas isso de montar em plo no vai comigo - e tanto insistiu que o lagarto deixou-se arrear.
        O jabuti, ento, montou, depois de munir-se dum bom chicote e dum par de esporas.
        Foram. A cem metros da casa da ona o lagarto pediu-lhe que apeasse e lhe tirasse do lombo o caquinho de sela.
        -  Oh, compadre, estou me sentindo to ruim que nem pensar em pr o p no cho eu posso. Tenha pacincia. Leve-me at ali adiante - e o lagarto caminhou 
mais cinqenta metros com ele s costas.                                           Vencidos os cinqenta metros, o lagarto pediu-lhe de novo que descesse - mas o 
jabuti tanto chorou que o lagarto foi com ele s costas at o terreiro da ona. A ona apareceu.
        -  Ento, senhora ona! - gritou o jabuti. - Est convencida de que o lagarto  meu cavalo? E fincou a espora e meteu o chicote no pobre lagarto at no 
poder mais.
        Encantada com a valentia do jabuti, a filha da ona casou-se com ele.
        
         -  Que grandissssimo pndego! - observou Narizinho. - Bobeou duma vez o outro. Quatro j que o jabuti logra: o homem que o prendeu na caixa, duas onas 
e este lagarto. Estou vendo que nenhum bicho pode com ele.
         -  E no pode mesmo - confirmou tia Nastcia. - O jacar tambm no pde, querem ver?
         E contou a histria de    
        
        
             
      XXXVI
      
      O jabuti e o jacar
        
        Louco de inveja da gaitinha do jabuti, o jacar resolveu furt-la. Para isso ficou  espera dele no bebedouro.
        -  Ol, amigo jacar - disse o jabuti aparecendo. - Que faz- a?
        -  Tomando sol.
        O jabuti bebeu e ps-se a tocar a gaitinha.
        O jacar ento disse:
        -  Empreste-me um pouco isso; quero ver se sei tocar.
        O jabuti deu-lhe a gaita. Ele, pluf, atirou-se ao rio e l se foi com ela.
        O jabuti danou. Passados dias, engoliu uma poro de abelhas duma colmia e foi para o bebedouro esperar o jacar. Escondeu-se num monte de folhas secas, 
apenas com a boca de fora, bem lambuzada de mel. De vez em quando soltava uma abelha: zum!
        O  jacar  apareceu,  e  pensando  que fosse uma colmia enfiou o dedo na boca do jabuti. O jabuti, nhoc! ferrou o dedo dele.                            
        -  Ai, ai ai! - gritava o jacar. - Largue meu dedo!
        E,o jabuti
        -  S largarei se me entregar a gaitinha - e apertava o dedo do jacar. No agentando mais, este gritou para o seu filho, l longe:
        
          Gonalo,
         meu filho mais velho,
         a gaita do cgado!
         A gaita do cgado!
         Tango-l-r...
         A gaita do cgado!
         Tango-l-r...
        
        O rapaz, que era meio surdo, respondia:
        -  O qu? Sua camisa, meu pai? Seu chapu?
        E o jacar, aflito:
        
         No, Gonalo,                 
         meu filho mais velho, 
         a gaita do cgado!
         Tango-l-r...
         A gaita do cgado!
         Tango-l-r...
        
        E o Gonalo:
        -  O que; meu pai? Suas calas?
        O jacar tornava a repetir a cantilena - e assim uma poro de tempo at que o filho entendeu e veio com a gaitinha. S ento o jabuti largou o dedo do jacar, 
que saiu ventando.
        
         -  Que graa! - exclamou Emlia. - Jacar com dedo e filho gente! Mas serve, a historinha. Gostei.
         -  Ento vai gostar ainda mais da do jabuti e os sapinhos - disse tia Nastcia. E contou.
         
         
         
      XXXVII
      
      O jabuti e os sapinhos
        
        Andando a filha da ona muito namorada pelo lagarto e pelo homem, que desejavam despos-la, o jabuti jurou que havia de vencer aos dois. Pensou um plano. 
"Achei, achei!" - disse de repente.
        Foi a uma aguada e pegou um punhado de sapinhos, que soltou no bebedouro, com ordem, quando qualquer bicho viesse beber, de cantar uma coisa assim:
        
         Turi, turi...
         Quebrar-lhe as pernas...
         Furar-lhe os olhos...
        
        E recomendou:
        -  Mas se eu aparecer com a minha gaita vocs ficam logo caladinhos, ouviram?
        Logo depois apareceu b macaco, que vinha beber. Ao ouvir a cantiga da gua, deu um pulo de medo e sumiu-se.
        Outros bichos vieram, acontecendo a mesma coisa.
        Veio o lagarto - e fugiu no galope.
        Veio o homem - e fugiu fazendo o pelo-sinal.
        Faltava s o jabuti. Foram busc-lo.
        -  Pois vou, porque no tenho medo nenhum, mas quero que todos os animais me acompanhem de perto.
        A bicharia toda o seguiu. Quando chegou em certo ponto, disse o jabuti:
        -  Bem, agora vocs parem. Eu vou s. Aproximou-se do bebedouro e deu um toque de gaita. Os sapinhos emudeceram como peixes.
        O jabuti bebeu sossegadamente e foi ter com os animais, que estavam assombrados de tanta valentia. A ona, muito alegre, deu-lhe a filha em casamento.
        
         -  O que achei mais graa - disse Narizinho - foi aparecer um homem disputando com o jabuti a mo da filha da ona.
         -  E mesmo assim, mesmo em luta com o rei dos animais - observou Pedrinho - foi o cgado quem venceu. Isso mostra que os ndios punham o jabuti at acima 
do homem, em matria de esperteza.
         -  Que pena no termos um cgado aqui! - suspirou a menina. - Gosto cada vez mais desse bichinho.
         -  E  gostoso mesmo - disse tia Nastcia. - Ensopado, com bastante tempero e um bom piro de farinha de mandioca,  gostoso da gente comer e lamber as 
unhas.
         Emlia fulminou-a com os olhos.
         -  E agora? - perguntou Narizinho. - Ainda sabe mais alguma coisa do jabuti?
         -  Arre, menina. Que tanto quer? - respondeu a preta. - No sei mais nada, no. Chega. Tenho de ir cuidar do jantar. At logo.
         -  Ento vov que conte mais algumas. Dona Benta respondeu:
         -  Eu sei centenas de histrias. O difcil est na escolha. Sei histrias do folclore de todos os pases.
         -  Ento conte uma do folclore da ndia! - pediu o menino.                                                     -  Da ndia, no. Da China - pediu Narizinho.
         -  Da China, no. Do Cucaso - pediu a boneca,   que   andava   com   mania  de   coisas russas.
         E dona Benta contou uma histria do folclore do Cucaso.
         
         
         
         
      XXXVIII
      A raposa faminta
        
        Era uma vez uma raposa que estava quase morrendo de fome. Desesperada saiu pelo mundo para comer a primeira coisa que topasse. Encontrou um leito. Agarrou-o.
        -  Que vais fazer comigo? - perguntou o leito.
        -  Devorar-te, est claro.
        -  Oh - exclamou o leito - crua minha carne no vale nada - no tem gosto. Veja uma caarola e um bom forno para assar-me.
        A raposa foi procurar a caarola e o forno: quando voltou no viu nem sombra do leito. Furiosa da vida, continuou a viagem. Deu com uma cabra. Agarrou-a.
        -  Que quer fazer de mim? - perguntou a cabra.
        -  Devorar-te, est claro.       
        -  Assim com plo e tudo? No caia nessa. V ver uma tesoura e tose-me primeiro.
        Enquanto a raposa procurava a tesoura, a cabra sumiu. Logo depois apareceu um lobo.
        -  Onde vai, raposa?              
        -  Ando a procurar comida porque estou morrendo de fome.
        -  Nesse caso acompanhe-me.
        Seguiram juntos at encontrar um cavalo. O lobo plantou-se diante dele, com o plo arrepiado, e perguntou  raposa: "Est meu plo arrepiado? Esto meus 
olhos soltando fogo?"
        -  Sim - respondeu a raposa. - E o lobo lanou-se ao cavalo e matou-o. Depois dividiram a carne, comendo at no poderem mais. Estmago, porm,  saco sem 
fundo.  No h o que o contente. Passados uns dias a fome da raposa voltou. Saiu novamente  caa. Uma lebre vinha vindo.
        -  Para onde vai, lebre?                   
        -  Ando a procurar o que comer - respondeu o animalzinho.
        -  Neste caso acompanhe-me - disse a raposa com uma idia na cabea: imitar o lobo.
        Seguiram. Logo adiante encontraram um cavalo. A raposa plantou-se diante dele, com o plo arrepiado, e perguntou  lebre:
        -  Esto meus olhos lanando fogo? A lebre olhou e no viu fogo nenhum.
        -  No - respondeu.
        -  Estpida! - gritou a raposa. - Responde que sim, seno te mato.
        A lebre, com medo, respondeu:
        -  Sim, esto lanando fogo.
        A raposa, ento, atirou-se ao pescoo do cavalo.      
        -  Que queres comigo, raposa? - perguntou o animal.
        -  Devorar-te.
        -  No vale a pena - disse o cavalo. - Uso ferradura de ouro no p direito. Vai l e tira-a. Poders com esse ouro comprar quantas coisas de comer quiseres.
        A raposa foi pegar a ferradura de ouro, mas pegou o maior coice de sua vida. Muito maltratada, manquitolando, recolheu-se a uma cova, onde comeou a filosofar. 
"Achei um leito, mas em vez de com-lo depressa, fui procurar caarola e forno. Resultado: sumiu-se o leito. Achei uma cabra mas em vez de com-la depressa, fui 
procurar uma tesoura - e l se sumiu a cabra. Achei um cavalo, mas em vez de com-lo depressa, fui atrs duma ferradura de ouro - e quase morri dum coice. Sou bem 
infeliz..."
        A cova onde a raposa se escondera ficava ao p dum morro, no qual apareceu um pastor que a enxergou. O pastor pegou uma grande pedra e zs! - atirou-lhe 
em cima.
        -  Ai, ai! - gemeu a raposa. - Levo pedrada at aqui, onde no h ningum!
        E dando um suspiro morreu.   
                
         -   do Cucaso mesmo, vov? - perguntou Narizinho.
         -  Sim, minha filha. Esta histria  do folclore da gente do Cucaso, e como l  terra de neve, surgem a raposa e o lobo famintos, bichos que muito sofrem 
durante o inverno.
         -  E tambm um pastor - disse Pedrinho. - Ns aqui no temos pastores, a no ser nos versos. Temos vaqueiros, porqueiros - pastor nenhum. Eu, pelo menos, 
nunca vi nenhum.
         -  Nos velhos pases - explicou dona Benta
         -  h o uso de guardarem-se os rebanhos. A carneirada pasta e um homem - o pastor - toma conta dela. Entre ns o sistema  outro. Os rebanhos vivem largados 
pelas pastarias.
         -  Por qu?
         -  Talvez porque estamos ainda no regime das grandes propriedades. Nos pases velhos a terra  muito dividida e toda ocupada. Quando nossas terras ficarem 
subdivididas como as da Europa,  possvel que tambm apaream por aqui os pastores.
         -  Eu gostaria bastante - disse Emlia. - Acho lindo isso de pastor, pastora e pastorinha
         -  sobretudo pastorinhas. Como  potico! Todos acharam graa na poesia emiliana.
         -  Conte agora uma do... do... da Prsia, por exemplo - pediu a menina.
         E dona Benta contou uma histria da Prsia.
         
         
         
      XXXIX
      O campons ingnuo
        
        Era um campons muito ingnuo, que um dia partiu para a cidade de Bagd a fim de vender uma cabra; foi montado num jumento, a puxar a cabra, que ia, tlin, 
tlin, tlin, com um cincerro ao pescoo. Trs ladres resolveram roub-lo.
        -  Eu me encarrego de furtar a cabra - disse um deles.
        -  E eu, de furtar o jumento - disse o segundo.
        - E eu, de furtar-lhe as roupas - disse o terceiro.
        Assim combinados; os trs malandros seguiram o pobre campons. O primeiro deu jeito de passar a campainha do pescoo da cabra para o rabo do burro sem que 
o pobre homem percebesse. Sempre a ouvir o toque da campainha, s muito l adiante  que olhou para trs e no viu cabra nenhuma.
        Desesperado com aquilo, porque aquele animalzinho representava muito para ele, pulou do jumento abaixo e pediu a um homem que viu por ali que o segurasse 
enquanto ele ia em procura da cabra. Com a maior boa vontade o homem prontificou-se a segurar o jumento - e, assim que o campons se afastou, fugiu. Esse homem era 
o segundo ladro.
        Quando o campons voltou e no encontrou nem sinal do jumento, abriu a boca, desesperado. Nisto deu com outro homem que olhava para dentro dum poo, com 
grande aflio.
        -  Que houve? - perguntou o campons. - Perdeu tambm algum jumento?
        -  Perdi muito mais - disse o homem com voz de desespero. - Imagine que fui encarregado de entregar um escrnio de ouro ao califa, e  sentando-me   beira 
deste poo, para descansar, no sei que jeito dei que o escrnio caiu l dentro.
        -  Por que no desce para peg-lo?
        -  J pensei nisso, mas tenho medo de resfriar-me. Sou muito sujeito a resfriados. Estou esperando que aparea algum que queira prestar-me este servio.
        -  Quanto paga? - perguntou o campons.
        - Oh, pago dez moedas de ouro, porque se trata dum escrnio riqussimo.
        O campons no disse mais nada. Sacou fora a roupa e desceu ao poo. E o tal portador do escrnio, que no era portador de escrnio nenhum e sim o terceiro 
ladro, fugiu com a roupa dele...
        
         -  Coitado!   -  exclamou  Narizinho.   -  A vida  bem cruel. Os ingnuos e os bons so sempre iludidos pelos maus.
         -  Verdade, sim - concordou dona Benta.
         -  Os homens de boa f saem sempre perdendo. Por isso o meu bisav, que foi o homem mais matreiro da sua zona, costumava dizer: "Quando algum me procura 
para propor um negcio, eu fico ouvindo e pensando c comigo: "Onde estar o gato?" e descubro, porque em todo negcio que algum prope h sempre um gato escondido." 
Nesse pau tem "m"! -  dizem os caboclos.
         Mas Narizinho no tirava da idia o pobre campons.
         -  Coitado! Perder a cabrinha j foi um desastre.   Perdeu   depois  o  jumento,   que  valia muito mais que a cabrinha. E por fim acabou nu em plo. E 
por qu? S porque teve boa f, s porque acreditou nos trs homens...
         -  Por isso   que eu no gosto de gente - gritou Emlia. - So os piores bichos da terra. Entre as formigas ou abelhas, por exemplo - quem  que j viu 
uma furtando outra,  ou mentindo para outra, ou amarrando outra em rabo de burro bravo? Vivem em sociedade, aos milhares de milhares, na mais perfeita harmonia. 
Ah, quem quiser saber o que  honestidade de vida, v a um formigueiro ou a uma colmia. Aqui entre os homens  que no fica sabendo disso, no. Quanto mais conheo 
os homens, mais aprecio as abelhas e as formigas.
         -  E agora vov? Que histria vai contar? - perguntou Pedrinho.
         -  Vou contar uma do Congo, na qual os negros explicam como  que apareceram os macacos.
         
         
         
      XL
      
      A histria dos macacos
      
        Antigamente, l no comeo do mundo, os macacos moravam com os homens nas cidades. Falavam como eles, mas no trabalhavam.      
        Certa vez houve uma grande festa. Durante um dia e uma noite o tanta no parou de soar. Todos danavam e bebiam um vinho feito de caldo de palmeira, porque 
ainda no era conhecida a uva. O velho chefe da tribo saiu dali cambaleando e foi parar no bairro dos macacos.
        Antes no fosse! Os macacos judiaram dele. Uns puxavam-lhe a tanga, outros punham-lhe a lngua, outros beliscavam-lhe a pele. Tamanha foi a falta de respeito 
que o velho chefe enfureceu-se a ponto de queixar-se a Nzame, a divindade da tribo.
        Nzame mandou chamar o chefe dos macacos. Passou-lhe uma grande descompostura e disse:          
        -  De hoje em diante, como castigo, os  macacos  tm  que  trabalhar  para os homens.
        Mas os macacos revoltaram-se contra a ordem do deus. Juraram no trabalhar.
        Quando iam para a roa, penduravam-se nas rvores do caminho, davam pulos pra aqui, pra ali, fugiam. No houve meio de conseguir deles nenhum trabalho.  
O chefe da tribo danou.
        -  Preciso dar uma lio nesta macacada.
        Depois de refletir algum tempo deu ordens, para uma grande festana, onde houvesse muito vinho. Mas dividiu as cabaas de vinho em dois lotes - um de vinho 
puro e outro de vinho misturado com uma erva dormideira. "Este  para os macacos"   disse ele.
        Quando os macacos souberam da grande festa e da grande vinhaa, aproximaram-se todos muito xeretas. Danaram, pularam e beberam at no poder mais. Meia 
hora depois dormiam sono profundo.
        O chefe, ento, mandou que os seus homens metessem o chicote nos macacos at deix-los peladinhos - e no dia seguinte botou-os no servio.
        Mas quem pode com macaco? - O berreiro que fizeram foi tamanho que o chefe, completamente zonzo, deu ordem para que lhes cortassem a 
         
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        lngua.
        " o nico meio de acabar com esta gritaria." Ficaram os macacos sem lnguas - mas dois dias depois sumiram-se da aldeia, afundando no mato. Nunca mais quiseram 
saber dos homens - e tambm nunca mais falaram. Quem tem lngua cortada no fala.
        
         -  Esta histria se parece, com as nossas daqui - disse Narizinho. - Bem bobinha.
         -  Sim, mas que havemos de esperar dos pobres negros do Congo? Sabem onde  o Congo?
         -  Sei - disse Pedrinho. -  quase no centro da frica, do lado daquela costa que o senhor Pedro lvares Cabral evitou de medo das calmarias. H o Congo 
Belga e o Congo4 Francs. E sei tambm que c para o Brasil vieram muitos escravos desses Congos.
         -   verdade. O pobre Gongo foi uma das zonas  que  forneceram mais  escravos  para  a Amrica, de modo que muitas histrias dos nossos negros ho de ter 
as razes l.
         -  Quem sabe se tia Nastcia  do Congo? - lembrou Narizinho.
         -  No - disse dona Benta. - Nastcia  neta dum casal de negros vindos de Moambique.
         -  Hum, hum! - exclamou Emlia. - Moambique! Que luxo...
         -  Conte outra, vov - pediu Pedrinho. - Conte uma histria dos esquims.
         E dona Benta contou a histria de
         
         
      XLI
      
      O rato orgulhoso
        
        Um rato fazedor de grande idia de si mesmo, vivia esperando ocasio de realizar coisas que mostrassem a sua importncia. Certa noite acordou de sobressalto. 
A casa estava queimando. O rato ficou aflitssimo, sem saber como escapar.
        As labaredas, porm, cresciam e ele teve de resolver-se; ou ficava ali, e morria assado, ou escapava. Fechou os olhos e lanou-se ao fogo.
        Mas; sem saber como, no se queimou. Achou-se l fora, sem o menor tostadinho no plo. Isto o encheu de enorme orgulho.
        -  Qual! Sou mesmo diferente dos outros. Nem as chamas tm coragem de me queimar...
        Passeou por ali uns instantes e voltou a ver o estado do incndio. S ento percebeu que no tinha havido incndio nenhum. Os raios do sol, que se iam erguendo, 
 que lhe deram a impresso de fogo.
        O rato suspirou. A sua importncia no era o que ele havia suposto. Mas que fazer para provar tal importncia?
        A pouca distncia havia um morro altssimo.
        -  Eis uma boa faanha para um rato como eu: dar um pulo e cair l em cima do morro!
        Preparou cuidadosamente o pulo e pulou. Novo desastre. Em vez de alcanar o alto do morro, caiu em cima dum montinho de areia, a seis palmos de distncia.
        O rato entristeceu. Estava custando a provar ao mundo a sua importncia.
        Olhou. Viu um lago que lhe pareceu
        enorme. Foi para l. Mediu a distncia.
        -  Se consigo atravessar a nado este aguo, todos os animais tm que reconhecer em mim um verdadeiro heri.
        Lanou-se  gua, nadou, e por fim chegou ao meio do lago. Sentia na cauda o peso de milhares de peixes agarrados a ela. Estava j cansadssimo, de modo 
que teve de empregar todas as foras para chegar  margem oposta. Chegou, afinal. Uf!
        -  Canseira  assim  jamais  senti.   Mas no  para menos. Acabo de atravessar um dos maiores lagos do mundo.
        Prestando melhor ateno, porm, viu que no havia atravessado lago nenhum, e sim uma pocinha lamacenta.. Os tais peixes que se agarraram  sua cauda no 
passavam de vermes da lama.
        O rato ficou aborrecidssimo, mas mesmo assim no abandonou o plano de fazer grandes coisas.
        Longe dali havia um pau, que lhe deu a idia de estar espetado no cu. "Oh; l est uma grande coisa a fazer. Visivelmente aquele pau est sustentando o 
cu. Se eu o derrubar, o cu cai. O mundo inteiro ficar esmagado, mas eu provarei a minha importncia."
        Foi. Examinou bem o pau e depois abriu um buraquinho para esconder-se quando o cu viesse caindo. Feito isso, ps-se a roer a madeira. Roeu, roeu, roeu, 
e quando viu que o pau estava cai no cai, correu a esconder-se no buraco.
        -  Pobre mundo! Vai ficar inteirinho achatado pelo cu!...
        Esperou uma poro de tempo. No ouviu barulho nenhum.
         - Que ser que houve?
        Talvez o cu ficasse enganchado na lua - e com mil cautelas botou a cabea fora do buraco, para espiar.
        Que desapontamento! O cu azul l estava no lugar de sempre, com um grande sol no meio. O ratinho olhou para o pau cado: era uma simples vara.
        O ambicioso sentiu grande tristeza, mas no desanimou. "Hei de fazer uma coisa grande, custe o que custar. Hei de transportar este monte daqui para o oceano." 
Disse e ps-se ao trabalho. Foi furando o monte e carregando a terra aos bocadinhos at o mar. Passou nisso anos e anos, at que um dia olhou e no viu mais o monte. 
Ele realmente o havia transportado para o mar.
        -  Hum! Agora compreendo como se fazem as grandes coisas.   fora de muito trabalho e muita pacincia.
        E morreu feliz por haver realizado um sonho de grandeza.
        
         -  Bravos aos esquims! - gritou Emlia. A historinha deles est mais suculenta que todas as contadas at agora.
         -  Na verdade, este conto encerra uma preciosa  lio - disse  dona  Benta.  -  No  h obstculos que a pacincia no domine. E at houve um grande pensador 
que disse: "O gnio  uma longa pacincia."
         -  Mas, vov, ento tais esquims so bem adiantadinhos. Para inventar histrias com lies  como  essa,    preciso  que   tenham  boa cabea.
         -  Pudera no! - gritou Pedrinho. - Eles s comem peixe. Peixe contm fsforo.  Fsforo  sinnimo de inteligncia.
         -  Mas se  assim - disse Narizinho - por que no progridem?
         -  Ah, minha filha, os esquims j fazem o maior dos milagres vivendo naquela terra de gelos infinitos. No h por l vegetao nenhuma, a no ser, em certos 
pontos, a tundra, que  um tapete rasteiro de musgos e lquens. Isso dum povo desenvolver-se exige coisas: terras boas para culturas, clima agradvel, cem fatores 
favorveis. Para mim no h herosmo maior do que o das tribos que passam a vida nos gelos. Brrr!...
         -  Bom. Conte outra dum pas frio - da Rssia, por exemplo.
         E dona Benta contou a histria dos
         
         
      XLII
      
      Peixes na floresta
      
        Era um campons que tinha uma esposa muito faladeira. Um dia em que ele achou um tesouro enterrado na floresta, trouxe-o para casa e disse  mulher:
        -  Acabo de descobrir uma grande fortuna,  mas   temos  de  escond-la.   Onde ser?
        A mulher achou melhor enterrarem o tesouro debaixo do assoalho da isb em que moravam. O campons concordou. Mas assim que a mulher foi ao poo buscar gua, 
tirou o tesouro dali e escondeu-o em outro lugar.                       
        A mulher veio com a gua.
        -  Mulher mulher - disse o campons -  preciso que ningum saiba que temos este tesouro aqui debaixo do assoa lho. Muito cuidado com a lngua, ouviu?
        Mas como no tinha a menor confiana nela, armou um plano.
        -  Olhe, amanh iremos  floresta apanhar peixes. Dizem que esto aparecendo em quantidade.
        -  O qu? Peixes na floresta? Onde j se viu isso?
        -  Na floresta voc ver. Madrugadinha o campons levantou-se
        e foi  vila. Comprou uma poro de peixes, uma poro de aletria e uma lebre. Passou depois pela floresta, espalhando tudo aquilo em vrios pontos. A lebre 
ele fisgou num anzol de linha comprida e jogou n'gua.
        Chegando em casa, almoou e convidou a mulher para irem  floresta. Foram. Que beleza! Peixe por toda parte, um aqui, outro ali, outro acol. A mulher, com 
gritos de surpresa, ia acomodando a peixada na cesta.
        Depois deu com a aletria pendurada de uma rvore.
        -  Olhe,   marido!   Aletria  pendurada em rvore!...
        -  No me espanto de coisa nenhuma - disse o homem. - Nestes ltimos dias tem chovido muita massa dessa, que fica assim pendurada das rvores. Mas a gente 
da aldeia j apanhou quase tudo.
        Nisto chegaram  lagoa, onde ele jogara a lebre.
        -  Espere um pouco, mulher. Esta manh pus aqui uma linha de anzol com isca para lebre d'gua. Vou ver se apanhei alguma.
        Puxando a linha apareceu no anzol uma lebre.                                         -  Como  isso? - gritou a mulher. - Lebre d'gua? Que coisa espantosa! 
Nunca ouvi dizer de lebre que morasse em gua!...
        -  Nem eu, mas o fato  que pesquei uma.
        Voltaram para casa com aquela lindssima colheita e a mulher passou o dia a preparar os peixes e a lebre.
        Uma semana depois em toda a redondeza s se falava no tesouro que o campons descobrira. As autoridades mandaram cham-lo.
        -   verdade que achou um tesouro na floresta?
        O campons riu-se.                   
        -  Tesouro, eu? Ah,  quem me dera achar um!
        -  Mas sua prpria mulher anda assoprando no ouvido de toda gente que voc achou um tesouro e o escondeu debaixo do assoalho da sua isb.
        -  Minha mulher anda a dizer isso? Coitada!  uma louquinha que no sabe o que diz.
        -   verdade, sim! - gritou a mulher, furiosa. - Ele achou um tesouro, que eu ajudei a enterrar debaixo do assoalho! Louca, eu!  boa...
        -  Quando  foi  isso? - perguntou o campons.
        -  Na vspera daquele dia em que juntamos peixe na floresta.
        -  Peixe na floresta? - repetiu o homem, fazendo cara de no entender.
        -  Sim. No dia em que choveu aletria e voc pescou uma lebre d'gua.
        As autoridades convenceram-se de que a mulher era mesmo louca, e como na busca que deram nada encontrassem debaixo do assoalho da isb, o caso morreu. O 
campons esfregou as mos, de contente.
        -  Veja se eu fosse me fiar nela! Estava hoje desmoralizado e com o meu rico tesouro perdido...       
        
         -  Que complicao para chegar a esse resultado! - exclamou Narizinho. - Esse campons sabia a mulher que tinha.
         -  E que grande maroto! - disse Pedrinho. - Logrou a mulher, logrou as autoridades - logrou   todo   mundo.   Fregus  mais   escovado ainda no vi.
         -  E isb, dona Benta, que ? - perguntou Emlia.
         -   o nome das casas da roa l na Rssia, em geral de madeira. Casa de roa, aqui ns chamamos rancho, casebre, casa de sap, mocambo e outras coisas 
assim. L  isb.
         -  Gostei da histria dos russos - disse Narizinho. - Est pitoresca. Vamos ver outra de l mesmo.
         -  No. Para variar contarei uma de outra terra muito fria, a Islndia.
         E dona Benta contou a histria de
         
         
      
      
      
      
      XLIII
      
      O alcatraz e o eider
      
        Havia uma disputa entre o alcatraz (espcie de pelicano).
         e o eider...
        -  Antes de mais nada - pediu Narizinho - explique que bichos so esses.
        -  O alcatraz  uma ave marinha que tem um saco debaixo do bico. Uma ave com fama de ser a mais glutona de todas. Por isso os homens de certas zonas utilizam-na 
para a pesca. Botam-lhe uma argola no pescoo, debaixo do tal saco, de modo que o alcatraz pesque o peixe mas no possa engoli-lo. E o eider  um pato marinho dos 
pases frios, famoso pela maciez de sua pluma; muito usada para travesseiros e acolchoados. 5
        Bem. O alcatraz e o eider andavam brigando justamente por causa da pluma. Cada qual queria ter o privilgio de produzi-la. Por fim combinaram uma coisa.
        Ficaria com o privilgio da pluma o que acordasse mais cedo e avisasse ao outro de que o sol estava nascendo.
        Disposto a ganhar a partida custasse o que custasse, o alcatraz resolveu passar a noite acordado. J o eider tratou de dormir o mais cedo possvel. Sono, 
porm  sono. Quando chega no h quem agente, de modo que l pela madrugada o alcatraz estava de no poder mais consigo. Tinha de fazer esforos tremendos para 
conservar os olhos abertos.
        De repente no pde mais, cochilou - e teve um pesadelo, pondo-se a gritar: "O sol! O sol est nascendo!
        A gritaria acordou o eider, que ficou a rir-se de ver o pobre alcatraz naquela luta para resistir ao sono. Por mais que fizesse, o sono o ia vencendo. Afinal 
sua cabea pendeu e ele dormiu duma vez.
        Justamente nesse instante o sol comeou a levantar-se.
        -  O sol! O sol! L vem vindo o sol! Ganhei! - gritou o eider.
        E teve de sacudir o alcatraz para acord-lo.
        Desde ento ficou o eider com o privilgio das plumas macissimas - tudo porque soube fazer as coisas.
        
         -  Est a um ponto meio duvidoso - disse Pedrinho. - O eider no soube fazer nada - apenas dormiu. Teve sorte, isso sim.
         -  Espere,  Pedrinho.  Note  que  o  alcatraz, muito estupidamente, quis forar a vitria, e a vitria no gosta de vir desse modo. J o eider respeitou 
as leis da natureza, no forou coisa nenhuma.            
         -  Que lei?
         -  A lei do sono. A sabedoria do eider foi tratar de dormir o mais cedo possvel. Era o meio de estar bem acordadinho  hora do nascer d sol. O alcatraz 
contrariou a lei do sono - e p! levou na cabea,
         -  Por falar em eider, vov, no poderamos criar essa ave aqui? - perguntou a menina. - Teramos plumas para os nossos travesseiros - coisa muito, melhor 
que macela.
         -  Pois eu em vez de plumas de eider preferia papos de alcatraz, para pescar de argola na lagoa - disse Emlia.
         -  Impossvel - respondeu dona Benta. - Essas   aves   no   agentariam  o   nosso   clima.
         Muito quente para elas.
         -  Poderiam dormir na geladeira - lembrou Emlia.
         -  Ei, ei, ei! - exclamou Narizinho. - Eu j  andava  admirada  dum  livro  inteiro  sem uma asneirinha s...
         -  E  agora vov? - indagou Pedrinho.  - Que histria vai contar?
         -  Creio  que   chega.   Com   tantas  histrias assim, vocs apanham uma indigesto.
         -  Mais uma apenas, para fechar a srie.  Pedrinho pensou um bocado.
         -  Uma de onde?
         -  Uma do Rio de Janeiro, por exemplo - uma bem carioca.
         Dona  Benta  olhou  para  o  forno.  Depois riu-se e contou
         
         
      XLIV
      
      Histria dos dois ladres
      
        Era uma vez um boiadeiro l do serto, que tinha cara de bobo e fumaas de esperto. Um dia veio ao Rio de Janeiro gastar os cobres duma boiada. Logo que 
desceu do trem e ia se encaminhando para um hotelzinho prximo, foi abordado por um homem de cara ainda mais boba que a sua.
        -  Boa noite, meu senhor! - saudou o homem humildemetne.
        O boiadeiro respondeu com um "boa noite" desconfiado, e foram andando juntos. O homem comeou a contar uma histria muito comprida. Disse que era da roa 
e estava completamente zonzo naquela capital. No conhecia ningum, no sabia tomar bondes, atrapalhava-se com qualquer coisinha - e o pior de tudo era o medo de 
ser roubado.
        -  Isto aqui - disse ele -  gatuno de todos os lados. Ningum pode confiar em ningum. Os piratas no dormem. Se a gente est com dinheiro no bolso, eles 
conhecem pelo cheiro - e tanto fazem que deixam uma pessoa limpa.
        -  Se o senhor tem tanto medo,  sinal de que est empatacado - disse o boiadeiro.      
        O homem correu os olhos, com desconfiana, dum lado e doutro; depois respondeu quase num cochicho:
        -  O senhor adivinhou. Todo o meu medo vem de trazer no bolso um pacote de notas no valor de dez mil cruzeiros, que l na minha terra me encarregaram de 
entregar  Santa Casa. Mas no sei onde  a Santa Casa. Se pergunto, ensinam-me errado - ou ento desconfiam de que estou com dinheiro.
        E deu um suspiro. Depois continuou:
        -  Aquela gente l da roa no imagina o que  isto aqui. Nem eu imaginava coisa nenhuma. Se soubesse, no v que no me encarregava deste maldito dinheiro. 
Dez mil cruzeiros! Se perco o pacote, ou se algum pirata me passa a perna, vo dizer por l que roubei - e fico desacreditado.
        -  E que pretende fazer? - indagou o boiadeiro.
        -  Minha idia  descobrir um homem de bem que queira encarregar-se da entrega do dinheiro. Mas no acho esse homem. As caras desta terra no me inspiram 
a menor confiana. S a sua. Assim que vi o senhor, tive um pressentimento no corao:   "Aquele,  sim,  aquele tem cara de homem de bem."  Por isso me aproximei.
        O   boiadeiro   ficou   muito   lisonjeado com a boa idia que o homem fazia dele.
        -  L isso, sou. Graas a Deus tenho um nome limpo. Quem quiser tratar com pessoa sria, me procure.
        O homem do pacote suspirou.
        -  Deus   seja   louvado!   Custou,   mas achei. Meu corao no nega. Quando o vi descendo esta rua; palpitei c comigo: "Meu salvador vai ser aquele homem..."
        -  Mas de que maneira acha que eu possa servi-lo? - perguntou o boiadeiro.
        -  Dum modo muito simples. Eu lhe dou o pacote dos dez mil cruzeiros e o senhor faz a entrega  Santa Casa.       
        Os olhos do boiadeiro brilharam.
        -  Pois estou s suas ordens - disse ele. - Neste mundo um tem de servir o outro. J que lhe inspiro tanta confiana, disponha 
        
        dos meus prstimos.
        -  Ora graas! - suspirou o homem, tirando o pacote do bolso. Era um pacote de notas gradas, muito bem amarrado, com uma de cem cruzeiros em cima.
        -  Pois aqui est o pacote, meu senhor. E eu fico imensamente agradecido da sua bondade, Ah, nem imagina o peso que me tira do corao!  Uf!  Esse dinheiro 
estava me deixando doido...
        O boiadeiro pegou no pacote e foi abrindo a mala para guard-lo.
        -  Espere - disse o homem. - Eu tenho no senhor a mais absoluta confiana, mas sempre  bom que me d uma garantiazinha - a um dinheirinho qualquer, porque 
afinal de contas eu acabo de lhe entregar dez mil cruzeiros. Dez mil cruzeiros  uma fortuninha...
        O primeiro mpeto do boiadeiro foi restituir o pacote. Depois mudou e disse, pondo a mo no bolso:
        -  Serve uma garantia de mil e quinhentos cruzeiros?  todo o dinheiro que tenho no bolso.
        O homem cocou a cabea vacilante. Afinal resolveu:                                    
        -  Serve.  pouco, mas serve...
        O boiadeiro puxou os cobres e deu a de mil e quinhentos cruzeiros. Despediram-se cada qual seguindo numa direo.
        - Dez mil cruzeiros! - foi murmurando o boiadeiro. - Dez mil cruzeiros! Para que precisa a Santa Casa de tanto dinheiro? Muito melhor eu distribuir isto 
l pelos pobres da minha terra - pelo menos metade.  justo que a outra metade fique comigo, em pagamento do trabalho...
        No hotel pediu um quarto, onde se fechou para contar o dinheiro. S encontrou aquela nota de cem cruzeiros. O resto era papel de jornal...
        
         -  Isso  o clebre conto-do-vigrio, vov! - gritou Pedrinho. - Todos os dias leio nos jornais coisas assim - e s me admiro de ainda haver gente que v 
na onda. Como h bobos no mundo!...
         -  Como h patifes,  isso sim - emendou dona Benta. - O segredo do conto-do-vigrio  que um quer passar a perna no outro. Trata-se dum duelo entre dois 
tipos de ladres - o ladro esperto e o ladro bronco. O bronco apanha o pacote - o esperto apanha a garantia. Eu, se fosse a polcia, punha os dois na cadeia.
         -  Mas isso no  histria do folclore - disse Narizinho.
         -  Como no? Se  um produto do povo,  folclore do legtimo. Note que o principal elemento de todas as histrias  o logro. Seja prncipe ou jabuti, um 
logra o outro. A variedade est s nos jeitinhos do logro. O conto-do-vigrio  um desses mil jeitos do esperto apanhar o dinheiro do bronco - num caso em que o 
bronco tambm  ladro.
         -  Ah!   -  exclamou  Emlia.  -  Eu    que queria que algum viesse para cima de mim com um pacote da Santa Casa...
         -  Que fazia?
         -  A coisa mais simples do mundo. "Quer garantia, meu caro senhor? Pois ento abra o pacote e tire quanto quiser." Bastava isso.
         -  Bom, essa  a resposta natural duma pessoa honesta - mas quem cai no conto no  honesto. Assim que v o pacote j fica assanhado para pegar o dinheiro, 
e portanto far tudo, menos abrir o pacote.
         -  E agora? - perguntou Pedrinho.
         -  Agora chega - disse dona Benta. - Vocs j devem estar empanturrados de histrias.
         -  Eu confesso que estou - disse Emlia. - Estou cheinha de reis e prncipes e princesas encantadas e velhas corocas e jabutis e veados e  onas.  Sinto 
at  um  gostinho  de  jardim zoolgico na boca.
         -  Tambm eu estou farta - disse Narizinho. - Histrias do povo no quero mais. De hoje em diante, s as assinadas pelos grandes escritores. Essas  que 
so as artsticas.
         -  Bem - concluiu dona Benta. - Da prxima vez contarei s histrias literrias, isto , as escritas pelos tais grandes escritores. Agora cama! Narizinho 
j bocejou trs vezes...
         E a crianada foi dormir.
         
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     Biografia de
    Monteiro Lobato
        
        A 18 de abril de 1882 em Taubat, Estado de So Paulo, nasce o filho de Jos Bento Marcondes Lobato e Olmpia Augusta Monteiro Lobato. Recebe o nome de Jos 
Renato Monteiro Lobato, que por deciso prpria modifica mais tarde para Jos Bento Monteiro Lobato desejando usar uma bengala do pai gravada com as iniciais J.B.M.L.
        Juc - assim era chamado -brincava com suas irms menores Ester e Judite.
        Naquele tempo no havia tantos brinquedos; eram toscos, feitos de sabugos de milho, chuchus, mamo verde, etc...                            
        Adorava os livros de seu av materno, o Visconde de Trememb.
        Sua me o alfabetizou, teve depois um professor particular e aos 7 anos entrou num Colgio.
        Leu tudo o que havia para crianas em lngua portuguesa. Em dezembro de 1896 presta exames em So Paulo das matrias estudadas em Taubat.
        Aos 15 anos perde seu pai, vtima de congesto pulmonar e aos 16 anos sua me.
        No colgio funda vrios jornais, escrevendo sob pseudnimo.
        Aos 18 anos entra para a Faculdade de Direito por imposio do av, pois preferia a Escola de Belas-Artes.
         anticonvencional por excelncia, diz sempre o que pensa, agrade ou no. Defende a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que sejam 
as conseqncias.
        Em 1904 diploma-se Bacharel em Direito, em maio de 1907  nomeado promotor em Areias, casando-se no ano seguinte cm Maria Pureza da Natividade (Purezinha), 
com quem teve os filhos Edgar, Guilherme, Marta e Rute.                          -
        Vive no Interior, nas cidades pequenas sempre escrevendo para jornais e revistas, Tribuna de Santos, Gazeta de Notcias do Rio eFon-Fon para onde tambm 
manda caricaturas e desenhos.
        Em 1911 morre seu av, o Visconde de Trememb, e dele herda a fazenda de Buquira, passando de promotor a fazendeiro.
        A geada, as dificuldades, levam-no a vender a fazenda em 1917 e a transferir-se para So Paulo.
        Mas na fazenda escreveu o JECA TATU, smbolo nacional.
        Compra a Revista do Brasil e comea a editar seus livros para adultos. Urups inicia a fila em 1918.
        Surge a primeira editora nacional "Monteiro Lobato & Cia.", que se liquidou transformando-se depois em Companhia Editora Nacional sem sua participao.
        Antes de Lobato os livros do Brasil eram impressos em Portugal; com ele inicia-se o movimento editorial brasileiro.
        Em 1931 volta dos Estados Unidos da Amrica do Norte, pregando a redeno do Brasil pela explorao do ferro e do petrleo.
        Comea a luta que o deixar pobre, doente e desgostoso. Havia interesse oficial em se dizer que no Brasil no havia petrleo. Foi perseguido, preso e criticado 
porque teimava em dizer que no Brasil havia petrleo e que era preciso explor-lo para dar ao seu povo um padro de vida  altura de suas necessidades. J em 1921 
dedicou-se  literatura infantil. Retorna a ela, desgostoso dos adultos que o perseguem injustamente. Em 1945 passou a ser editado pela Brasiliense onde publica 
suas obras completas, reformulando inclusive diversos livros infantis. Com Narizinho Arrebitado lana o STIO DO PICAPAU AMARELO e seus clebres personagens. Atravs 
de Emlia diz tudo o que pensa; na figura do Visconde de Sabugosa critica o sbio que s acredita nos livros j escritos. Dona Benta  o personagem adulto que aceita 
a imaginao criadora das crianas, admitindo as novidades que vo modificando o mundo, Tia Nastcia  o adulto sem cultura, que v no que  desconhecido o mal, 
o pecado. Narizinho e Pedrinho so as crianas de ontem, hoje e amanh, abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experincias com o que os mais velhos 
dizem mas sempre acreditando no futuro.
        E assim o P de Pirlimpimpim continuar a transportar crianas do mundo inteiro ao STIO DO PICAPAU AMARELO, onde no h horizontes limitados por muros de 
concreto e de idias tacanhas.
        Em 4 de julho de 1948 perde-se esse grande homem, vtima de colapso, na Capital de So Paulo.
        Mas o que tinha de essencial, seu esprito jovem, sua coragem, est vivo no corao de cada criana. Viver sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundvel 
de "Emlia".
        
        
        
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1 Reinaes de Narizinho
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4 Hoje s h um Congo independente.
                5 A pluma  do eider  chama-se  edredo; o mesmo nome "e d ao travesseiro ou acolchoado que contm pluma.  (N.  da E.).

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